sexta-feira, novembro 14, 2003

Mudança 

O Socio[B]logue mudou-se. Encontra-se agora em http://www.socioblogue.weblog.com.pt/.

quinta-feira, agosto 21, 2003

A Democracia na América (act.) 

Pego no Diário de Notícias de terça-feira. Parto em busca de uma entrevista a que dei, nesse dia, uns relances descuidados. Falo, claro, do diálogo do historiador de cultura norte-americano Peter Gay com Martin Doerry e Jen Fleischauer do Der Spiegel. Pelo caminho, deparo-me com uma brevíssima nota que me passou então despercebida. Fala de um relatório do Departamento de Justiça norte-americano. Nesse relatório, de acordo com o DN, é indicado que cerca de 5,6 milhões de cidadãos norte-americanos já tiveram, pelo menos, uma experiência prisional (2,7 por cento da população adulta, isto é, 1 em cada 37 adultos). Menciona, também, que no final de 2001 a população prisional norte-americana andava perto dos 2,1 milhões de indivíduos. Estes números parecem, talvez, pouco expressivos. Ou melhor, são apenas números - absolutos e abstractos - e, por conseguinte, não parecem dar-nos uma noção, ainda que parcial, da sua relevância. Um exercício comparativo mostra-nos, todavia, a (insólita) dimensão do fenómeno. Nos Estados Unidos, em 1997, a população prisional era de 1.785.079 indivíduos. Esse número representa uma taxa de reclusão de 648 por 100.000 habitantes. Em Portugal, de longe o país da União Europeia com a taxa de reclusão mais elevada, ela era, à mesma data, seis vezes mais baixa: 145 reclusos por 100.000 habitantes (Wacquant, 2000: 76). Porém, mesmo que expressivo, este confronto de números (e realidades) elide a complexidade da questão prisional nos EUA. Com efeito, o quadro é bem mais complexo. A sociografia da população prisional norte-americana mostra-nos que esta é constituída, primacialmente, por grupos étnicos específicos: maioritariamente negros e hispânicos. Nesses grupos populacionais - ou, pelo menos, em boa parte das suas comunidades - as percentagens de pessoas com experiências prisionais são alarmantes. Pior: assustadoras. Existe, por isso, um número considerável de investigadores que se têm procurado debruçar sobre a singular realidade prisional norte-americana. Refiro, a título exemplificativo, os casos de David Garland, Loïc Wacquant, Michael Tonry, Jock Young, Franklin Zimring, Bruce Western, David Downes, Elijah Anderson, Katherine Beckett, Marc Mauer ou Jonathan Simon. E é por isto, também, que alguns desses autores têm falado de uma «exclusive society» (Young, 1999), de uma «mass imprisonment society» (Garland, 2001) ou de uma «age of mass incarceration» (Wacquant, 2002). As expressões parecem excessivas, bem sei. Mas não são.

Garland, David (ed.) (2001), Mass Imprisonment: Social Causes and Consequences, Londres: Sage Publications.
Young, Jock (1999), Exclusive Society: Social Exclusion, Crime and Difference in Late Modernity, Londres: Sage Publications.
Wacquant, Loïc (2000), As Prisões da Miséria, Oeiras: Celta Editora.
Wacquant, Loïc (2002), «The Curious Eclipse of Prison Ethnography in the Age of Mass Incarceration», Ethnography, Nº3-4, pp. 371- 397.

Confissões 

Pedro Lomba (Flor de Obsessão), evocando Eco, acaba de escrever um apontamento sobre como se faz uma tese. Diz assim: "acumulamos notas, referências, leituras indesejadas, bibliografias, parágrafos pesados, prosa deslavada, lemos, relemos, copiamos, inventamos, acorremos a bibliotecas, sabemos de cor a exacta localização dos livros, retemos dezenas de títulos na cabeça, lombadas, capas duras, apetece-nos muito fazer isto, não nos apetece nada fazer isto, sabemos para onde vamos, não sabemos o caminho, horas sentados, horas sem avançar, horas a pensar no romance que ficou em cima da cómoda, dúvidas, hesitações, algum sofrimento, uma imensa satisfação com o trabalho que fica feito, hoje somos produtivos, ontem tudo saiu a custo, hoje não sai nada, aprender a viver assim, erráticos, moles, de vez em quando despertos, de vez em quando muito vivos, muito capazes, depois o tédio, a amargura, a impossibilidade, largar a cadeira, o computador, a mesa de trabalho e caminhar, caminhar sempre". É assim que passo os meus dias. Boa parte deles. Quase todos eles. Foi por isso, também, que nasceu o Socio[B]logue. Quando digo também, entenda-se, quero dizer sobretudo.

quarta-feira, agosto 20, 2003

GLO: Impactes Não Intencionais da Acção Social 

Impactes Não Intencionais da Acção Social. Consequências, impactes ou efeitos negativos ou positivos - imprevistos e não intencionais - resultantes de acções intencionais iniciadas com outros propósitos que não aqueles em que resultam. Resultado não intencional de acções intencionais. São aquilo que Raymond Boudon designava de «effects pervers», Robert K. Merton de «unanticipated consequences of purposive social action» e Jon Elster de «unintended consequences of action».

Sem Comentários 

Ver aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui. Sem comentários.

A Era dos Juízes (act.) 

Ralf Dahrendorf, o sociólogo de origem alemã e antigo reitor da London School of Economics (LSE), publicou agora um texto intitulado «A Era dos Juízes» (O Público, Terça-feira, 19 de Agosto de 2003). Nesse pequeno texto, o autor produz uma breve reflexão sobre a relevância dos sistemas judiciais nas sociedades contemporâneas. Há duas passagens do texto que me prenderam a atenção e que aqui exploro brevemente.

No seio da sua argumentação, Dahrendorf sugere que "[a]s pessoas comuns associam vagamente independência com verdade e partidarismo com mentiras ou pelo menos com falta de confiança". Falava, então, nas representações sociais das populações face aos juízes e ao poder judicial. Dediquei-me, durante algum tempo, a analisar discursos de ex-reclusos sobre o sistema judicial, por meio de análises de conteúdo a entrevistas biográficas. Tal objecto ocupava então uma posição lateral ou periférica nas minhas preocupações. Era, ainda assim, indispensável para a interpretação de determinadas disposições em ex-reclusos. Num determinado momento, num pequeno módulo de "entrevista directiva", os inquiridos eram convidados a reflectir sobre a sua experiência judicial. Tal exercício pretendia, sobretudo, desencobrir as suas representações sociais face ao sistema judicial e juízes, tanto antes como depois do período de reclusão, sublinhando as diferenças entre os dois períodos, caso as houvesse. E havia. De um modo geral, os juízes eram associados, num momento inicial, a vocábulos como independência, imparcialidade, verdade, neutralidade ou justiça. Notava-se uma representação inicial, relativamente regular, onde existia, de forma mais ou menos pronunciada, uma espécie de "superioridade moral" dos juízes (só comparável à profissão médica, igualmente valorizada nesse sentido). Curiosamente, após os períodos de reclusão, essas representações tendiam a diluir-se parcialmente. E, em alguns casos mais sérios, a desaparecer. Nesses casos, os juízes eram retratados já sem essa "superioridade moral" anteriormente atribuída. Pelo contrário: eram olhados com alguma desconfiança. Quando confrontados com essa diferença pré e pós reclusão respondiam-me, invariavelmente, recordando episódios marcantes da sua experiência pessoal. Diziam-me coisas como: "Sabe, eu não estava à espera que o senhor juiz fosse assim. Ele exaltava-se muito. Às vezes mandava bocas. Enfim, nem parecia um juiz... E os do TEP são os piores." ("Paulo", ex-recluso). Frise-se, nas palavras do inquirido, a surpresa - fenómeno tão interessante quanto recorrente. A atitude, no essencial, não é diferente daquela que muitas pessoas experienciaram quando viram o juiz Rui Teixeira na televisão de t-shirt e de calças de ganga; ou quando ouviram o presidente do Conselho Superior da Magistratura exaltado; ou, ainda, aquando das nervosas aparências televisivas da juíza Conceição Oliveira. Essas aparições públicas "humanizam", em excesso, os juízes retirando-lhes a "superioridade moral" que parece acompanhar, geralmente, a sua profissão. Um dos impactes da mediatização da justiça tem sido, precisamente, essa "dessacralização" de algumas profissões judiciais. Questão que merecia, porventura, um pouco mais de atenção por parte das ciências sociais.

Dahrendorf, no seu texto, diz também que "[n]as sociedades modernas, as influências exercidas sobre pessoas aparentemente independentes são numerosas e difíceis de controlar". O caso dos juízes é disso paradigmático. Parte significativa dos juízes possui uma preparação técnica insuficiente. Aplicam, em excesso, estereótipos sociais e noções de senso comum nas suas decisões. Ademais, fazem, vezes demais, exercícios questionáveis de "sociologia espontânea". Em tempos, no final dos anos 80, houve a percepção dessa fragilidade e o Gabinete de Estudos Jurídico-Sociais (GEJS) do Centro de Estudos Judiciários (CEJ) encetou uma série de estudos sócio-antropológicos no sentido de melhor conhecer a realidade judicial, criminal e penitenciária portuguesa e de servirem como suporte da formação inicial, complementar e permanente de magistrados. Nesses estudos participaram, entre outros, investigadores como Nelson Lourenço, Manuel Lisboa, Carlos Laranjo Medeiros, Mário Baptista Coelho, Eliana Gersão, Manuela Ivone Cunha, J. J. Semedo Moreira ou Susana Trovão Pereira Bastos. Os impactes dessas medidas e desses estudos não foram e não têm sido particularmente visíveis. Com efeito, muitas decisões de juízes, nomeadamente do TEP, continuam a ser excessivamente permeáveis a noções de senso comum. E, infelizmente, com excessiva e inusitada frequência. Tal facto é tanto mais preocupante quando se sabe que, entre nós, não existe uma tradição particularmente consolidada de sistemas de pericialidade científica de apoio a decisões judiciais. Dahrendorf diz estarmos na era dos juízes. Não discordo. Mas julgo que seria mais correcto dizer que estamos na era dos "juízos" dos juízes. Assim mesmo: com aspas.

terça-feira, agosto 19, 2003

OBS: José Medeiros Ferreira, o Zapping e os Corpos 

Leio a coluna habitual do historiador José Medeiros Ferreira no Diário de Notícias. Fala de zapping. Retive, do texto, uma passagem curiosa. Falando da sua experiência, JMF confessa: "Nos filmes, sempre que prevejo a repetição de algum «encontro de corpos», lanço-me na aventura do canal após canal.". Estou longe de pensar que tal prática se trata de uma idiossincracia de JMF. Pelo contrário. Julgo ser uma atitude de desconforto frequente e que varia, significativamente, consoante o género, a idade e a classe social dos espectadores. Norbert Elias explica.

segunda-feira, agosto 18, 2003

História e Estória, Ainda (act.) 

Depois de uma breve investigação, Rui Oliveira, num esforço admirável, vem acrescentar algumas considerações de interesse no que diz respeito à questão dos termos história e estória (que aqui começara a ser debatida). Quanto à polémica entre os apologistas da diferenciação entre os vocábulos história e estória e aqueles que preconizam a manutenção do termo história como portador dos dois sentidos, Rui Oliveira apresenta a sua posição a partir de uma breve passagem de Jacques Le Goff na Enciclopédia Eunadi. Le Goff diz assim:

"A palavra "história" (em todas as línguas românicas e em inglês) vem do grego antigo historie, em dialecto jónico [Keuck 1934]. Esta forma deriva da raiz indo-europeia wid-, weid, "ver". Daí o sânscrito vettas "testemunha" e o grego histor "testemunha" no sentido de "aquele que vê". Esta concepção da visão como fonte essencial de conhecimento leva-nos à ideia que histor "aquele que vê" é também aquele que sabe; historein em grego antigo é "procurar saber", "informar-se". Historie significa pois «procurar». É este o sentido da palavra em Heródoto, no início das suas Histórias, que são, que são «investigações», «procuras» [cf. Benveniste 1969, t. II, pp. 173-174; Hartog 1980]. Ver, logo saber, é um primeiro problema. Mas nas línguas românicas (e noutras) "história" exprime, dois, senão três, conceitos diferentes. Significa: 1) esta «procura das acções realizadas pelos homens» (Heródoto) que esforça por se constituir em ciência, a ciência histórica; 2) o objecto de procura é o que os homens realizaram. Como diz Paul Veyne, «a história é, quer uma série de acontecimentos, quer a narração desta série de acontecimentos» [1968, p. 423]. Mas a história pode ter ainda um terceiro sentido, o de narração. Uma história é uma narração, verdadeira ou falsa, com base na «realidade histórica» ou puramente imaginária pode ser uma narração histórica ou uma fábula. O inglês escapa a esta última confusão porque distingue entre history e story (história e conto). As outras línguas europeias esforçam-se por evitar esta ambiguidade. O italiano tem tendência para designar se não a ciência histórica, pelo menos as produções desta palavra por "storiografia", o alemão estabelece a diferença entre a actividade «científica», Geschichtschreibung, e a ciência histórica propriamente dita, Geschichtswissenschaft." (Le Goff, 1984: 158).

A partir das palavras de Le Goff, Rui Oliveira expõe, novamente, a sua posição quanto a esta questão. Preconiza, uma vez mais, que a distinção entre história e estória não tem razão de existir, na medida em que não existe nenhuma vantagem em ter dois termos monossémicos em vez de um vocábulo polissémico. Nas suas palavras:

Para mim, que entendo que as palavras não existem isoladas, mas em textos (entendendo o texto como um evento comunicativo), a polissemia de um termo não me incomoda, pois, habitualmente, o contexto comunicativo retira a ambiguidade que por vezes o termo possa ter devido aos seus vários significados. Quem entende a língua, exclusivamente, na sua vertente de sistema pode achar que a polissemia prejudica a compreensão. Esquecem-se, no entanto, que esse sistema é virtual e aquilo que pode ser ambíguo nesse sistema virtual, pode ser completamente claro num texto (aliás, isso acontece imenso nos exemplos apresentados como ambiguidades nas gramáticas que utilizam frases isoladas em que, quando se incluem essas frases em contextos reais, essas ambiguidades desaparecem. São em casos muito raros é que os termos são monossémicos. As pessoas têm a competência comunicativa («une connaissance conjuguée de normes de grammaire et de normes d'emploi» Hymes 1984:47), que lhes permite distinguir, entre outras coisas, o significado daquilo que lhe é dito. Por isso, entendo que a distinção história / estória não tem razão de existir, pois não é uma distinção essencial num contexto comunicativo. No entanto, longe estou de chamar ignorante a quem quiser usar estória, pois, se pessoalmente não a usarei, a língua não é estática e, se os seus utilizadores adoptarem a palavra, ela terá o destino que eles quiserem.?

Mas, para além desse notável contributo, o autor vai mais longe no que diz respeito à etimologia do termo história, entrando em debate com a contribuição de Carla Hilário de Almeida.

"Entre "rede" e "aquele que vê" parecia-me que para além de uma certa proximidade ortográfica (em grego), a raiz teria de ser diferente. Desde já digo que não sei muito de grego e sabendo que a Carla Hilário de Almeida sabe grego, quis perceber o porquê desta diferença de etimologia. Assim, como se vê no número 2 do anexo, encontrei na Biblioteca da FLUP um dicionário etimológico de grego, já antigo (1923), mas que me deu um primeiro esclarecimento pois em entradas sucessivas lá estavam histos e histor. Mais uma vez histor era apontado como etimologia de história. Mas, no entanto, faltava-me confirmar ainda a questão da raiz. E essa, encontrei-a na net, números 3 e 4. Tal como eu suspeitava, as duas palavras tinham raízes diferentes. Se eu conhecia a raiz de histor (wid-, weid), não sabia qual seria a raiz de histos. No entanto, o dicionário mencionado no número 2 dava-me uma pista, a palavra latina stamen. Depois de encontrar a página da net do American Heritage Dictionary, encontrei então a raiz de histos, que é sta (número 4 do anexo), o que tem lógica, pois, por exemplo, o verbo stare significa, "estar de pé, estar levantado". E, mais ainda, no número 4, no parágrafo III, lá está histos "web", "tissue". Parece-me pois que a etimologia de história estará efectivamente em histor. No número 5, uma pequena tradução de Heródoto na antologia Hélade, em que historie é traduzida por "informações". Ainda na mesma antologia a palavra historia aparece em textos de Platão e Aristóteles e é traduzida por, em ambos os casos, "investigações". Tudo isto concorda com a etimologia de histor.".

Nota Adicional 1: As referências citadas por Rui Oliveira encontram-se num ficheiro doc de anexos que o autor me enviou. Para quem quiser aprofundar a questão encontra-se aqui disponível [historia.doc (203Kb)].

Nota Adicional 2: Nuno Dempster (Palavras & Letras), teceu algumas considerações em redor deste tópico num post que titulou «Uma história versus outra estória». Diz assim: "Li em tempos, algures, que estória seria para suprir uma hipotética ausência de um termo equivalente à expressão short story, com a sua tipificidade narrativa, e para a distinguir do conto. Aquela em geral apresenta um desenvolvimento mais amplo no espaço e no tempo, mais ou menos extensa narrativanente, não exige, como canonicamente o conto exige, uma grande contenção na extensão narrativa e uma forte convergência para o final, um espaço e um tempo narrativos curtos (o tempo aqui muitas vezes surge aumentado por analepses), um fim inesperado. Mas história, no contexto em que é aplicada, nunca se pode confundir com História, como escreve Rui Oliveira no Socioblogue, ninguém as confundiria, e daí parecer-me inútil e não isento de pose, em português de Portugal, o emprego da palavra estória. No mais, trata-se apenas de uma escolha pessoal: a língua evolui independentemente da vontade de cada um. Hoje é sabido que os géneros se interpenetram, e, depois, para maior confusão, há quem chame contos a histórias, histórias a contos, mas também quem chame histórias a histórias, e contos, a contos, e ainda contos e romances a novelas. Não se trata de descobrir o sexo dos anjos, isto é, de saber o que é uma coisa e o que é outra num tempo em que a narrativa de ficção se apresenta cada vez mais mista, nem me refiro a países de língua portuguesa, como o Brasil, Angola e Moçambique, onde é sabido que a palavra estória é empregada com frequência. É, português, pensar alto, escrevendo e fixando melhor assim as ideias que vou apurando.". Ainda antes de o escrever já o autor havia observado o seguinte, na secção de comentários do Socio[B]logue: "Além de Guimarães Rosa, também já há bastante tempo Luandino Vieira usou o termo em Luuanda, se não estou enganado. No entanto, há uns dois anos li algures que "estória", nos escritores mais recentes, poderia ser um termo substituto da short story americana por distinção de conto (temos o termo história para isso), ambos formalmente diferentes no seu tipo de estrutura narrativa. E é curioso como, ao invés, Luísa Costa Gomes, por exemplo, intitula, como de contos, livros seus que, formalmente, seguem o desenvolvimento das short stories americanas. Já Teolinda Gersão, outro exemplo, intitula, quanto a mim muito correctamente, "Histórias de Ver e Andar", um livro de histórias que não têm de forma nenhuma a estrutura de contos. Até que ponto "estórias" será uma questão de boa consciência, ou mesmo de pose, não sei. Sei que em Portugal há histórias e há contos, correspondentes, como disse, a duas formas diferentes de narrativa curta de ficção (quanto ao desenvolvimento temporal e espacial)."

quinta-feira, agosto 14, 2003

Os Cultos da Carga 

O antropólogo Miguel Vale de Almeida (Os Tempos que Correm), numa breve nota, referiu-se recentemente a um curioso fenómeno originário de algumas ilhas do Pacífico Ocidental. Mais precisamente do Pacífico Sudoeste (Papua, Yaliwan, Vanuatu). A esse fenómeno, comum na região da Melanésia e Nova Guiné e muito estudado pelos antropólogos no primeiro terço do século XX, deu-se o intrigante nome de «cultos da carga». Como explica Vale de Almeida "existia, há 75 anos atrás, na área do Pacífico e Melanésia, um fenómeno que apelidámos de "cargo cults" (cultos da carga). Os alegres primitivos da zona, quando foram expostos ao Ocidente-Mercado, acharam que aquelas mercadorias todas eram coisa divinamente produzida. Eles viam os colonizadores construirem portos e pistas de aviação, e viam que através delas chegavam uma série de coisas boas. Vai daí puseram-se a construir imitações de portos e pistas aéreas, na esperança de que a "carga" chegasse.". Embora Vale de Almeida o elida, estes cultos, uma espécie de sebastianismo melanésio, não são uniformes. Com efeito, segundo se pensa, existiram cerca de 70 formas diversas de «cultos de carga», com ligeiras dissemelhanças entre si (os primeiros «cultos de carga» relatados foram Baigona, 1912, e Vailala, 1919). Alguns possuem especificidades curiosas. Por exemplo, em três grupos populacionais das ilhas Vanuatu é celebrado um deus chamado John Frum ou Jon Frum. Julga-se que Frum foi um viajante que esteve nas ilhas antes da chegada dos missionários cristãos em meados do século XIX. Ainda hoje alguns melanésios aguardam, messianicamente, o seu regresso. Aos nossos olhos tais práticas parecem, é certo, ridículas. Próprias de um «wishful thinking» primitivo. Mas também entre nós encontramos práticas que não andam muito longe dos «cargo cults» melanésios. E não são poucas.

Nota Adicional 1: As ciências, em geral, também possuem os seus cultos. Há até um autor - Richard Feynman - que tem falado da existência de uma «Cargo Cult Science».

Nota Adicional 2: Talvez, posteriormente, faça uma pequena lista, para acrescentar a esta nota, de algumas práticas que não andam muito longe dos «cargo cults» melanésios.

quarta-feira, agosto 13, 2003

GLO: O Paradoxo de Olson 

O Paradoxo de Olson. Por vezes, indivíduos, ou grupos de indivíduos, encetam uma determinada forma de comportamento oportunista motivada por determinados interesses particulares a que se dá o nome de «paradoxo de Olson». O «paradoxo de Olson» refere-se ao desenvolvimento de determinado tipo de comportamento, baseado no cálculo racional de custos-benefícios, onde se procura tirar partido das vantagens de algo, sem a assunção dos respectivos encargos, ónus ou contrapartidas. Nesses casos, os «custos» ficam a cargo de terceiros. A esses indivíduos, ou grupos, que procuram retirar o máximo de benefícios da acção de outros evitando, simultânea e intencionalmente, os respectivos ónus dá-se o nome de «free-riders». A designação «paradoxo de Olson» resulta do facto deste princípio ter sido expresso, primeiramente, por Mancur Olson, sociólogo e economista de origem norte-americana, na sua obra «A Lógica da Acção Colectiva» (1971). Entre os inúmeros exemplos típicos deste tipo de comportamento encontram-se, por exemplo, a greve motivada pela contestação salarial e o trabalho em equipa desequilibrado. No primeiro caso, aqueles que não fazem greve usufruem, por norma, dos benefícios da acção daqueles que fazem greve sem, todavia, assumirem os riscos e custos que esse comportamento envolve. No segundo caso, aqueles que menos contribuem para os resultados do trabalho em equipa são, habitualmente, tão beneficiados como os restantes.
Olson, Mancur (1971 [1998]), A Lógica da Acção Colectiva: Bens Públicos e a Teoria dos Grupos, Oeiras: Celta.

Uma breve nota adicional, de carácter excepcional, de crítica cultural: Portugal é um país particularmente fértil no que respeita a «free-riders». Enfim, idiossincrasias culturais lusitanas.

segunda-feira, agosto 11, 2003

Arqueologia Linguística: Entre a História e a Estória (act.) 

Em uma, mais uma, das minhas frequentes deambulações pelos empoeirados arquivos da blogosfera deparei-me com uma breve consideração, no blogue Tempore, sobre a distinção entre os termos estória e história [texto]. Diz assim: "Na minha opinião estória(s) reporta-se ao anedótico, ao pequeno relato. Julgo que a História é um composto do anterior, logo mais estrutural.". Esse tópico mereceu-me já alguma atenção num texto anterior (Walter Benjamin, a História dos Vencidos e a Guerra Civil Espanhola). Porém, estando a dedicar-me a esboçar timidamente alguns procedimentos genealógicos ou arqueológicos, não resisto a retornar ao tema em causa.

Há, com efeito, um debate - interessante e controverso, embora algo adormecido - sobre a distinção linguística entre os termos «história» e «estória». Segundo a posição costumeira, a primeira expressão reporta-se ao estudo do passado das sociedades humanas ou, em alternativa, refere-se a esse próprio passado. Não será, talvez, inusitada uma consideração adicional: embora de uso corrente, o termo «história» deveria somente designar a evolução da humanidade e o passado das sociedades humanas. Com efeito, a expressão correcta para designar o estudo desse passado - a ciência histórica - será, porventura, o termo «historiografia».

Já o segundo vocábulo, «estória», é utilizado na designação de textos ficcionais ou relatos narrativos. Não obstante o facto da raiz etimológica de ambos os termos ser a mesma - ambas derivam do grego «historía» por meio do latim «historîa» (talvez a Bomba Inteligente ou o Latinista Ilustre o possam confirmar ou infirmar) -, a distinção entre ambos visa acompanhar a diferenciação, de raiz anglo-saxónica, entre os termos «story» e «history».

Porém, o termo «estória» está longe de ser novo ou recente. Encontra-se, aliás, mais próximo de constituir um arcaísmo do que um neologismo. Na verdade, esse termo constitui uma expressão remota, resgatada de alguns textos manuscritos de copistas medievais portugueses - textos escritos quando a estrutura da ortografia ainda se encontrava pouco sedimentada. Surgiam então, com inusitada frequência, os termos «historia», «hestoria», «estoria», «istoria» ou «estorea» enquanto equivalentes. Ou melhor, como grafias distintas de uma mesma expressão. Essa curiosa polissemia ortográfica foi experienciada, de igual modo, pela maioria das línguas latinas. Todavia, com o tempo, tendeu a prevalecer uma forma única na generalidade desses idiomas: o português «história», o francês «histoire», o castelhano «historia», o catalão «història» e o italiano «storia» são disso um bom exemplo. Na realidade, em Portugal, só a partir do séc. XVI cessaram essas «indecisões ortográficas». Essa estabilização concretizou-se, sobretudo, após a publicação das gramáticas de Fernão de Oliveira («Gramática da Linguagem Portuguesa», 1536) e de João de Barros («Gramática da Língua Portuguesa», 1540), os primeiros gramáticos portugueses. Essas obras contribuíram, de forma inelutável, para a fixação da língua portuguesa. Foi António Maria José de Melo Silva César e Menezes, Conde de Sabugosa, quem primeiro recuperou e propôs a adopção do termo «estória» para designar a narrativa de ficção. Fê-lo em 1912, no prefácio do seu livro «Dama dos tempos idos». Pouco depois, em 1919, seria acompanhado por João Ribeiro, afamado etnógrafo brasileiro. Quem, todavia, popularizou a expressão, reabilitando-a definitivamente, foi João Guimarães Rosa, um dos maiores vultos da literatura brasileira do século XX, ao publicar a sua obra «Primeiras Estórias» em 1962. De então até hoje mantém-se, em regime de latência, a polémica entre os apologistas da diferenciação entre os vocábulos história e estória e aqueles que preconizam a manutenção do termo história como portador dos dois sentidos. Fica a curiosidade arqueológico-linguística.

Nota Adicional 1. A grafia dos termos em grego e latim não se encontra correcta, na medida em que não a consegui aqui reproduzir literalmente.

Nota Adicional 2. Rui Oliveira, na secção de comentários a este pequeno exercício arqueológico, produziu um breve texto onde preconiza a inutilidade da diferenciação entre os vocábulos história e estória. No quadro da sua argumentação em favor da indistinção entre os dois termos, Rui Oliveira apresenta algumas observações adicionais de interesse quanto à questão da sua sociogénese. Aqui as reproduzo: "Quanto às origens do inglês "story" e "history", são iguais às das línguas latinas, isto é, provêm ambas das mesmas palavras (grega e latina). Apenas acontece que "story" entrou no inglês através do chamado Anglo-French, em época medieval (sécs. XII-XIII), pela palavra "estorie" que no Middle English deu "storie" para acabar na actual "story". Por seu lado, "history" entrou mais tarde no inglês, pelo séc. XIV, através do Middle English "historie", vinda do Latim "historia". A natural evolução semântica que as palavras têm numa língua, levou-as aos significados actuais. De notar que a palavra grega "historia" queria significar "pesquisa,investigação"; Por sua vez "historia" deriva de "histor" que é aquele que sabe ou vê.".

Nota Adicional 3. Carla Hilário de Almeida (Bomba Inteligente) contribui, também na secção de comentários, com uma breve nota para o esclarecimento desta questão. De acordo com o que diz: "A palavra "estória" não está registada no dicionário da Academia das Ciências, facto que prova que é melhor do que se diz para aí. O dicionário de Cândido de Figueiredo tem a palavra registada como história em português antigo (whatever that means) e não lhe dá muita importância. Mas vamos lá ao que importa: história é composta de dois vocábulos - 'istos, que significa rede e roí, o verbo fluir em grego antigo - que juntos têm o bonito sentido de "uma rede que flui". À espécie de apóstrofo (') que vêem antes da palavra istos, chama-se espírito rude e trata-se do sinal de aspiração que transliterado para latim resultou num h. E o que é que estória tem a ver com isto? Nada." [ver texto original].

domingo, agosto 10, 2003

Ainda os Detalhes (act.) 

Carlos Vaz Marques (Outro, eu) veio acrescentar um contributo para esta discussão em torno do enigmático aforismo. Segundo diz "[p]or vezes, uma expressão que, há muito, transportamos connosco aparece- nos ligeiramente transformada e é como se a terra tremesse. (...) O aforismo - tal como eu o conhecia até agora - diz que "o diabo está nos detalhes". O "diabo" e não "Deus". Da genealogia da expressão nada sei. Lembro-me que a primeira vez que me cruzei com ela (quando? onde?) vinha acompanhada de uma generalidade do tipo: "tal como dizem os ingleses". Para os que atribuem a Deus a concórdia e vêem o diabo como a causa da discórdia, talvez a minha versão seja a mais acertada. Até na genealogia breve de um curto aforismo, "o diabo está nos detalhes" [texto]. Também José Pacheco Pereira, no Abrupto, segue no mesmo sentido de Carlos Vaz Marques e recorda o aforismo "the Devil is in the details". Escreve assim: "Pelas mesmas razões de aprender, de ter a alegria de aprender, também volto ao Socio[B]logue. Só que onde lá se coloca Deus nos detalhes, eu estou habituado a colocar o Diabo. Daí que a genealogia da frase seja outra, e a sua língua original diferente -. "the Devil is in the details". Por razões que se podem discutir , suspeito que é mais o Diabo que Deus, o habitante das pregas das coisas, dos detalhes, dos decisivos detalhes. Se não houvesse detalhes não era tudo mais simples, mais próximo das virtudes divinas? Porque ser Deus não é complicado." [texto].

Curiosamente, também já conhecia esta expressão. Esta, contudo, e ao contrário da primeira, é normalmente classificada como um provérbio ou ditado popular de origem anglo-saxónica. É utilizada, primacialmente, com o significado de que mesmo as coisas mais importantes dependem, assiduamente, do sucesso dos detalhes mais anódinos.

Quanto ao «Deus está nos detalhes» já o havia visto ser atribuído a Le Corbusier, Friedrich Nietzsche, Albert Einstein ou Miguelângelo. Embora, como referi, nunca a Frank Lloyd Wright. Mas, frise-se, essas imputações são relativamente infrequentes, ao contrário das que mencionei. E, muitas vezes, encontrei menções conjuntas às duas expressões. Aconteceu-me isso, por exemplo, quando me deparei com uma breve nota de Barbara Wallraff, a conhecida «Senhora Gramática» da revista The Atlantic Monthly. Na sua famosa coluna, «Word Court», a autora dedicou em tempos uma breve passagem a este assunto em resposta à interrogação de um seu leitor.

"Leaving theological issues aside, with an expression like this what is "correct" is a matter of whether one version came into being as a garble of the other. Possibly this has happened here -- but no one seems to know which version came first. Neither God is in the details nor The devil is in the details has a clear provenance. Though the former is occasionally seen attributed to Albert Einstein, Gustave Flaubert, and Friedrich Nietzsche, among others, the architect Ludwig Mies Van Der Rohe most often receives credit. Evidently Mies did say it, but he was not the first, and the latest edition of Bartlett's Familiar Quotations (1992) calls the expression simply "a saying."

Bartlett's does not list The devil is in the details. Other sources name various personages as the popularizer, if not the coiner, of this version, but the range of them is narrower and more political -- for example, the diplomat Paul Nitze, Ronald Reagan, and Ross Perot. A decade ago both versions of the saying were relatively rare, and neither was particularly more common than the other. Around 1992 -- the year Perot began to be widely quoted, during his first run for the presidency -- the devil began pulling out ahead of God in popularity. In February of 1993 Perot complained that the devil was in the details of an economic plan of President Clinton's, and he made headlines; others' use of the devil version of the saying has been on the rise ever since. By last year major U.S. newspapers and broadcast-news sources were invoking the devil in this phrase anywhere from about twice as often as God to some twenty-five times as often.
" (Wallraff, 2000: 132).

Em sociologia as duas expressões são utilizadas amiúde. Embora, sublinhe-se, em contextos diversos e com propósitos descoincidentes. A «versão divina» é utilizada, sobretudo, em sub-campos como a Sociologia da Vida Quotidiana. Ali serve, fundamentalmente, de referência à incontornável relevância dos pormenores mais minúsculos, descurados e negligenciados da realidade social. É, aliás, por isso, que aí se apela a um esquadrinhamento minucioso dos pormenores secundários e se promove uma acentuada valorização dos detalhes supostamente insignificantes. De acordo com o que ali se defende, esses pormenores quando colocados sobre o olhar esmiuçador e escrupuloso do investigador, tornam-se interpretáveis e revelam-se carregados de sentido e/ou significação.

Quanto à «versão diabólica», igualmente popular, ela é utilizada, particularmente, nas variantes praxiológicas da sociologia (sociologia clínica, sociologia aplicada, investigação-acção, sociologia de intervenção, sociologia dos problemas sociais, etc...). Nesses campos - de investigação aplicada por contraposição à investigação fundamental - essa expressão é utilizada para descrever as dificuldades dos investigadores em operacionalizarem o seu arsenal de ferramentas proveniente do vasto instrumentário disciplinar. Com efeito, quando se concebem planos, programas ou projectos de intervenção, o problema está sempre, ou quase sempre, em transpô-los para a prática. Isto é, na sua operacionalização. Assim é, pois, como bem nos recordam Carlos Vaz Marques e José Pacheco Pereira, o diabo está efectivamente nos «detalhes». A realidade possui uma curiosa tendência para se furtar aos investigadores.

Por conseguinte, quer se trate de Deus ou do Diabo e qualquer que seja a origem da expressão, parece haver pouca controvérsia quanto à importância dos detalhes. É, porventura, isso que nos resta sublinhar.

Wallraff, Barbara (2000), «Word Count», The Atlantic Monthly, Vol.285, No.1.

Nota Adicional 1. Recebi algumas mensagens de correio electrónico a comentar a questão dos detalhes. Entre elas, a de Ana Luísa Freitas, arquitecta, a fazer-me notar que a mensagem inicial do Évorablog a expressão utilizada era «deus está nos pormenores» e a que eu utilizava «deus está nos detalhes». Segundo Ana Luísa Freitas com essa transformação perde-se algo, pois, como nota, "[o]s arquitectos não dizem detalhe (no Brasil dizem, mas lá também dizem concreto e nós dizemos betão). Os arquitectos costumam dizer pormenor. Fazem pormenorização dos projectos. Pormenorizam uma janela, não detalham uma janela. E também a tudo o resto a que se pode aplicar a expressão, pormenor (cuja origem desconheço, mas me remete para menor, pequeno). soa bem. Resumindo, Deus está nos pormenores.". Com efeito houve uma mudança de pormenores para detalhes... ela foi, todavia, inconsciente. Na verdade só dela me apercebi após a mensagem de Ana Luísa Freitas. Isso deve-se ao facto de estar habituado a utilizar a expressão «deus está nos detalhes» e, por isso, inconscientemente utilizei-a sem reparar que a expressão utilizada pelos autores do Évorablog continha o vocábulo «pormenores» e não «detalhes». Mas essa nota leva-nos à consideração das variações, em português, da expressão. Na verdade, conheço em português três variantes do dito: «deus está nos detalhes», «deus está nos pormenores» e «deus está no particular». Esta última, menos frequente, é, aliás, aquela que se encontra no livro de Carlo Ginzburg que menciono no texto (edição brasileira da editora Companhia das Letras de São Paulo), e que o autor atribui a Aby Warburg. Entre as três confesso não manifestar preferência por nenhuma delas embora, por força de hábito, esteja mais habituado a utilizar a primeira: «deus está nos detalhes». Tal hábito deriva, sobretudo, da sua utilização em Sociologia da Vida Quotidiana, onde esta expressão é assiduamente utilizada, ao ponto de, muitas vezes, a própria Sociologia da Vida Quotidiana ser classificada como uma «sociologia do detalhe».

Nota Adicional 2. Segismundo, do Albergue dos Danados, produziu um breve texto onde se refere a esta questão. Escreve assim: "Sinceramente, deus não está nos detalhes. Provável é, mesmo, que nunca lá tenha estado. Deus é grande, monumental, maior, pormaior, mas padece de indolência. Ao sétimo dia partiu para descanso e abandonou os pormenores às suas circunstâncias, a si mesmos, dentro da sua ordem original e liberdade. Depois, depois foi a maçã. Eu prefiro nêsperas, mas saiu a maçã. E esse é talvez o primeiro detalhe. Lá esteve o diabo. Deus apenas observou e fez-se presente somente na hora do castigo. Por isso, hoje, só vê deus quem consegue. A mim, confesso, essa danada visão nunca me tocou. Mas adiante. Creio que a verdadeira discussão não é em torno da entidade que está nos detalhes, mas ao redor do tempo do predicado estar aí. E, sinceramente, se o juízo não me atraiçoa, deus esteve, mas o diabo está. Este é o único aforismo em que me encosto, no entanto não tempo demais. Mas isso é apenas um detalhe, sem a mínima relevância. Quem quer que esteja nos peanuts, calha que eu também o mastigo quando os mastigo. E não me incomoda quem lá pôs quem nas minudências. Confesso, embora, que a deus lá cheguei por Flaubert e que ao diabo lá cheguei por Perot. Esta é a razão fundamental por que, para mim, the devil is in the details. Ainda que, claro está, admita o contrário, pois o diabo está também onde menos se espera, raio de mania a dele, essa.". Será preciso dizer mais?

Deus Está nos Detalhes: Genealogia Breve (act) 

Acabo de descobrir entre os textos de um novíssimo blogue, o Evorablog, um aforismo que há muito me assombra: «Deus está nos detalhes» [os autores utilizam, na verdade, uma das variantes conhecidas dessa expressão: «deus está nos pormenores»]. No Evorablog, de forma deveras curiosa, o intrigante apotegma é atribuído ao arquitecto norte-americano Frank Lloyd Wright. A primeira vez que encontrei este aforismo foi na epígrafe da estimulante obra «Mitos, Emblemas, Sinais» (1991) de Carlo Ginzburg, um dos mais notáveis historiadores italianos contemporâneos (cf. Ginzburg, 1989, 1991, 1995; Ginzburg e Poni, 1979; Grendi, 1977). Então, a paternidade do dito era atribuída por Ginzburg ao historiador de arte alemão Aby Warburg (1866-1929). Vim, mais tarde, a encontrar a mesma expressão imputada ora ao excelso escritor francês Gustave Flaubert (1821-1880) («Le bon Dieu est dans le detail»), ora ao conspícuo escritor brasileiro João Guimarães Rosa (1908-1967) («Deus está nos detalhes»). Porém, na maioria das vezes com que me deparei com o aforismo supracitado, ele era atribuído ao arquitecto de origem teutónica Ludwig Mies van der Rohe (1886-1969) - um dos pioneiros do movimento modernista, director da Bauhaus entre 1930 e 1933 e o criador de uma das mais famosas peças de design do século XX: a «Barcelona Chair». Não será despiciendo notar, adicionalmente, que são habitualmente utilizadas três expressões germânicas - semânticamente semelhantes, embora formalmente descoincidentes - para formalizar esse axioma: «Gott gedeiht in Details», «Gott ist in den Details», «Gott steckt im Detail». Ironicamente, nunca havia encontrado Frank Lloyd Wright entre um dos pais possíveis do dito de paternidade, ainda, indeterminada.

Mas, independentemente da paternidade do aforismo, serve esta referência de pretexto para evocar Ginzburg. Carlo Ginzburg, o responsável pela introdução do «paradigma indiziario» nas ciências sociais, é, sem dúvida, um dos autores mais celebrados no campo das metodologias microhistóricas. Essa notabilidade deve-se, entre outros aspectos, ao reconhecimento e notoriedade atingidos por si atingidos por meio de obras como «Mitos, Emblemas, Sinais» (1991), «A Micro-História e Outros Ensaios» (1989) ou «História Nocturna: Uma Decifração do Sabat» (1995). É que se hoje a perspectiva micro-histórica se encontra disseminada na Europa e EUA, na realidade, ela emergiu a partir de um profícuo debate em torno das possibilidades analíticas da «microstoria». Debate que foi encetado nos anos setenta e oitenta por um pequeno grupo de historiadores italianos, oriundos do nordeste italiano (em particular de Bolonha), reunido em torno da revista «Quaderni Storici» e que englobou, além de Ginzburg, autores como Edoardo Grendi, Carlo Poni e Giovanni Levi. Essa discussão, profícua e inovadora, partiu do ensaio seminal de Edoardo Grendi «Micro-analisi e storia sociale» (1977) e do histórico programa de estudos lançado, dois anos depois, por Carlo Ginzburg e Carlo Poni no artigo «Il nome e il come: Scambio ineguale e mercato storiografico» (1979). Vale a pena conhecer Ginzburg.

Ginzburg, Carlo (1989), A Micro-História e Outros Ensaios, Lisboa: Difel.
Ginzburg, Carlo (1991), Mitos, Emblemas, Sinais, São Paulo: Companhia das Letras.
Ginzburg, Carlo (1995), História Nocturna: Uma Decifração do Sabat, Lisboa: Relógio D'Água.
Ginzburg, Carlo e Carlo Poni (1979), «Il nome e il come: Scambio ineguale e mercato storiografico», Quaderni Storici, Nº40, pp. 181-190.
Grendi, Edoardo (1977), «Micro-analisie storia sociale», Quaderni Storici, Nº35, pp. 506-520.

Nota Adicional 1. Talvez algum dos blogueiros oriundos do Campo da Arquitectura - Arquitectices, hARDbLOG ou O Projecto - nos possa ajudar a esclarecer o intrigante enigma da paternidade.

O Império do Efémero (ou o Choque Antropológico do Retorno) 

Faz agora um mês que José Mário Silva (Bloco de Esquerda) regressou de Paris. Pouco depois de regressar, escreveu aquele que é, indubitavelmente, um dos apontamentos mais argutos sobre a blogosfera. Sobre nós. Mais concretamente, José Mário Silva falava sobre como este mundo dos blogues é efémero e fugaz. Dizia assim: "NÃO ME LEMBRO DISTO ASSIM. É um sentimento estranho. Volto a casa, após duas semanas noutra cidade (com um acesso mais limitado à internet), e parece que não reconheço a minha própria casa. Leia-se: a blogosfera. Alguém mudou os móveis de sítio, deitou fora a pilha de jornais que estava ali no canto e trocou a ordem dos talheres nas gavetas da cozinha. O corpo da casa é o mesmo, claro, mas está diferente. Foi ampliado. Tem mais caves, mais sótãos, inúmeros acrescentos, projecções, anexos no quintal. Alguém deitou paredes abaixo, construiu novos corredores e mobilou quartos vazios que nunca tinha visto antes. Há muito mais portas que apetece abrir todos os dias, essa é que é essa. E eu vou precisar de um porta-chaves maior. Além de uma bússola.".

Passei agora uns dias ausente. Tirei, na verdade, férias de mim mesmo. Quer dizer, do meu «offline self». Consequentemente, ausentei-me, por inerência, do meu «online self». Não obstante o facto de se tratar de um período de apartamento exíguo e de se ter dado uma assinalável diminuição do ritmo e cadência do mundo dos blogues, encontro um mundo diverso do que deixei. Com outras discussões, outras querelas, outras preocupações, outras interrogações, outros blogues, outras pessoas. Enfim, um mundo-outro. Ocorreu-me de imediato a passagem inicial de um dos livros mais desconsiderados - leia-se incompreensivelmente desconsiderados - do novelista norte-americano Paul Auster, In the Country of Last Things.

"These are the last things, she wrote. One by one they disappear and never come back. I can tell you of the ones I have seen, of the ones that are no more, but I doubt there will be time. It is all happening too fast now, and I cannot keep up. I don't expect you to understand. You have seen none of this, and even if you tried, you could not imagine it. These are the last things. A house is here one day, and the next day is gone. A street you walked on yesterday is no longer there today. (...) Close your eyes for a moment, turn around to look at something else, and the thing that was before you is suddenly gone. Nothing lasts, you see, not even the thoughts inside you. And you mustn't waste your time looking for them. Once a thing is gone, that is the end of it.".

Esta passagem exprime, de uma forma admirável, a desconcertante sensação que este retorno me provocou. A sensação que se apossou de mim. Tomou-me uma impressão, mais ou menos difusa, de deslocamento ou desconjuntamento. Sinto-me desarranjado: em desalinho. Pergunto-me como será uma ausência de várias semanas, de meses... Quando estamos embrenhados e empenhados nos debates que vão tendo lugar dificilmente nos apercebemos do quão efémeros eles são. Do quão céleres eles passam. E, quase sem darmos conta, tudo muda. Vertiginosamente. Estonteantemente. Num intervalo mínimo, de alguns dias, o mundo dos blogues reorganiza-se, recompõe-se, restrutura-se. Assim, a sequência de ausência seguida de regresso parece gerar uma espécie de «choque antropológico do retorno». Há uma sensação clara de ruptura e de descontinuidade entre o que se deixou, o que se encontra e o que se esperava encontrar.

Ademais, na blogosfera quase não há síntese: não existem semanários que refazam o sentido dos diários. As discussões são, de um modo geral, breves. Passageiras. E essa ausência de síntese amplifica, de alguma forma, o «choque antropológico do retorno», na medida em que dificulta a compreensão da mudança. Por conseguinte, o mundo dos blogues parece ser, por excelência, o império do efémero.

Auster, Paul (1988), In the Country of Last Things, London: Faber and Faber.

Nota Adicional 1. «O Império do Efémero» constitui a designação de uma obra de Gilles Lipovetsky (Lisboa: Publicações Dom Quixote: 1989).

Nota Adicional 2. Seria interessante que as pessoas fossem comentando as semelhanças e as diferenças entre a blogosfera que deixaram e aquela a que retornam (as rupturas e descontinuidades, as permanências e constâncias) à medida em que fossem regressando das suas ausências, mais ou menos prolongadas.

Nota Adicional 3. O Socio[B]logue deve parte considerável da sua existência a um pequeno grupo de pessoas que, desde o seu início, foram contribuindo com comentários, observações e reflexões para os temas que foram aqui sendo levantados. As discussões e debates originadas pelo confronto entre os textos e as interpelações que lhes davam sequência constituíram, sem dúvida, o que o Socio[B]logue teve de melhor. Devido a alguns problemas técnicos do sistema de comentários (Enetation) esses apontamentos parecem estar irremediavelmente perdidos. É por isso devido um agradecimento especial às pessoas que mais colaboraram com o Socio[B]logue e cujos contributos se perderam. Possivelmente, de forma irremediável. Ficam então os agradecimentos a: Anne Galloway (Purse Lip Square Jaw); António Quintas (Registo); Bruno Sena Martins (Avatares de Um Desejo); Carlos de Abreu Amorim (Mata-Mouros); Clara M. (Tracejado); Isabel Tilly (Monólogo); Jorge Candeias (A Lâmpada Mágica); Leonel Vicente (aaanumberone); Luis Ene (ENE Coisas); Manuel Deniz Silva (Bloco de Esquerda); Mário Pires (Retorta); Paulo Querido ( huuuuu... vento lá fora); Pedro (Icosaedro); Pedro Fonseca (Contra Factos & Argumentos); Piscoiso (Piscoiso); Tyler Durden (EpiCurtas) (espero não ter omitido de ninguém). Dificilmente será esquecido o que fizeram pelo Socio[B]logue.

sexta-feira, agosto 01, 2003

Insensatez 

O trabalho sociológico, como o da generalidade das restantes ciências sociais, é esgotante. A adjectivação não é boa, bem sei. Mas justifica-se. É deveras difícil explicar a alguém, sem um grande conhecimento do campo, o investimento necessário para a produção de uma investigação empírica consistente. É necessário um trabalho moroso, persistente e cansativo de exploração bibliográfica; de construção de instrumentos de observação e recolha de informação; de recolha de informação; de análise e interpretação dos materiais recolhidos; de redacção e revisão textual. A isso, juntam-se as inflexões constantes, as reformulações contínuas, as restruturações permanentes. As semanas passam a correr. Depois os meses. Por vezes, vezes demais, os anos. O trabalho sociológico envolve uma disciplina da parte do investigador. Monástica. Austera. Intransigente. Nesse processo, nesse longo processo, vão-se acumulando inúmeras ideias peregrinas, reflexões marginais, observações periféricas, pistas de pesquisa improváveis, escritos de gaveta acidentais. Essas notações permanecem, quase sempre, na obscuridade. Por vezes, a obscuridade é injusta: quando as observações são pertinentes mas desenquadradas, desajustadas ou díssonas do objecto em estudo. Outras vezes, ela é protectora: sempre que elide cogitações insensatas que nunca deveriam sair da sombra. Reli agora alguns dos textos mais antigos do Socio[B]logue. Fico, à vez, envaidecido e embaraçado. Envaidecido com os improvisos acertados. Embaraçado com o pretensiosismo verboso. A adjectivação não é boa, bem sei. Mas justifica-se.

Nota adicional: Este texto vai ser dos embaraçosos. É inevitável.

GLO: Ludismo 

Ludismo. Termo utilizado para classificar a atitude daqueles que estão contra a inovação tecnológica. Essa atitude de resistência à mudança possui diversas motivações. A principal razão invocada é, habitualmente, a ameaça de desumanização que, de acordo com essas pessoas, a inovação tecnológica implica. O termo ludismo reporta-se, originalmente, a um movimento social organizado contra a tecnologia que teve lugar no século XIX, entre 1811 e 1816, em Inglaterra. Deram-se, então, uma série de motins levados a cabo por parte dos membros desse movimento. Essas manifestações eram, usualmente, agressivas e violentas e culminavam, assiduamente, na destruição de maquinaria têxtil. Esses actos hostis eram justificados pela consideração, por parte desses grupos, que a introdução e generalização da maquinaria têxtil iria contribuir, inevitavelmente, para o desemprego em massa. Por vezes, fala-se de neo-luditas e de Neoludismo para falar das atitudes das pessoas e dos grupos sociais que revelam atitudes de grande resistência no que respeita à introdução de novas tecnologias nas sociedades contemporâneas.

quinta-feira, julho 31, 2003

FYI: «Novas Formas de Mobilização Popular» - José Rebelo (coord.) 

Em Outubro de 2001, teve lugar no ISCTE, em Lisboa, um colóquio internacional subordinado ao tema das «Novas Formas de Mobilização Popular». Esse colóquio, organizado pelo sociólogo José Rebelo, reuniu, entre outros, um número assinalável de investigadores no campo das ciências sociais e humanas debruçados em torno da questão dos novos movimentos sociais. Entre os intervenientes pontificavam Michel Wieviorka, Manuel Carvalho da Silva, Muniz Sodré, Vítor Matias Ferreira, Raquel Paiva, Diana Andringa, David Miranda, Mario Diani, Gustavo Cardoso, Pedro Pereira Neto, João Coutinho Ferreira, Pedro Dionísio, Pedro Bacelar de Vasconcelos, António Cluny, Jean-Pierre Dubois, Maria Eduarda Gonçalves, António Pedro Dores, João Arriscado Nunes, Viriato Soromenho-Marques, Joaquim Gil Nave, A. Fernando Cascais, Carolino Monteiro, Conceição Lopes e ldalina Conde. Saiu agora na Campo de Letras uma recolha das comunicações apresentadas nesse colóquio.

José Rebelo, o organizador, possui a sua área de especialização no campo da sociologia da comunicação. É professor no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE), director da revista «Trajectos - Revista de Comunicação, Cultura e Educação» e consultor do programa Acontece, da RTP 2. Encontra-se presentemente a participar numa investigação multidisciplinar intitulada «Prisão de Não Nacionais», coordenada por António Pedro Dores e que conta ainda com a participação da socióloga Graça Carapinheiro, da historiadora Maria João Vaz, dos geógrafos Alina Esteves e Jorge Malheiros e do demógrafo Mário Leston Bandeira, entre outros.

Rebelo, José (coord.) (2003), Novas Formas de Mobilização Popular, Porto: Campo de Letras.

quarta-feira, julho 30, 2003

GLO: McDonaldização 

McDonaldização. Termo controverso originalmente cunhado e desenvolvido por George Ritzer, sociólogo norte-americano da Universidade de Maryland, para se referir à radicalização do processo de racionalização nas sociedades contemporâneas. McDonaldização, diz-nos Ritzer, "é o processo pelo qual os princípios do restaurante de comida rápida estão a dominar cada vez mais sectores da sociedade norte-americana, bem como do resto do mundo" (Ritzer, 1993:1; nossa tradução). Esse processo assenta então, segundo o autor, na consolidação e generalização do modelo da indústria da "fast-food" enquanto paradigma organizacional e social predominante na contemporaneidade. Esse paradigma, crescentemente hegemónico, fundamenta-se em cinco princípios básicos: eficiência, calculabilidade, previsibilidade, controlo acrescido e substituição de tecnologia humana por tecnologia não-humana. Após a publicação da obra de Ritzer, um clássico da análise sociológica dos anos noventa, alguns autores procuraram reformular o argumento do autor recorrendo a termos não menos originais. Alan Bryman, por exemplo, tem proposto um conceito improvável e inaudito: a «disneyzação da sociedade».
Ritzer, George (1993), The McDonaldization of Society, Thousand Oaks: Pine Forge Press.

terça-feira, julho 29, 2003

Os Blogues e a Inconstância Atitudinal (act.) 

Como já aqui fiz referência, foi recentemente criado um blogue, o Metablogue, destinado a ir registando e arquivando os textos e os debates sobre a blogosfera e o mundo dos blogues. Essa ideia pioneira foi, como já foi também aqui mencionado, do Joaquim Paulo Nogueira ( Respirar o Mesmo Ar ). Uma das principais virtualidades da existência do Metablogue consiste na possibilidade de se analisar o metabloguismo, isto é, a possibilidade de se formar um discurso meta-meta-bloguista. Essa interessante potencialidade possui tantos atractivos apelativos, como levanta problemas desafiantes. Se, por um lado, permite analisar algumas das características dos esforços de pensar o mundo dos blogues, por outro lado, levanta o problema da circularidade do objecto, isto é, levanta a questão da auto-referencialidade de todos os discursos (o perigo do meta-meta-meta-bloguismo, dos discursos sobre os discursos sobre os discursos).

Apesar de consciente dessas questões e dos pertinentes problemas a elas associados, não pude deixar de fazer algumas reflexões meta-meta-bloguistas à medida a que ía recolhendo alguns trechos textuais para eventualmente integrar no Metablogue. Era, talvez, inevitável. Nesse processo, pude constatar, inadvertidamente, a recorrência de asserções avaliativas sobre a blogosfera, implícitas ou explícitas, no quadro desses discursos. Não resisti à pulsão analítica. Peguei então em alguns desses trechos textuais, provenientes de algumas das pessoas que mais produziram discursos metabloguistas (Avatares de Um Desejo; Aviz; Abrupto; Guerra e Pas; Socio[B]logue) e apliquei, ainda que de forma pouco controlada metodologicamente, um procedimento analítico de medida de atitudes: a EAA - Evaluative Assertion Analysis (Análise de Asserção Avaliativa). A EAA é um tipo particular de análise de conteúdo avaliativa, desenvolvida, originalmente, pelo psicólogo social C. E. Osgood, cujo propósito consiste na medição de atitudes (cf. Bardin, 1977; Krippendorf, 1980; Ghiglione e Blanchet, 1991). "Uma atitude", como sublinha Laurence Bardin, "é uma pré-disposição, relativamente estável e organizada, para reagir sob forma de opiniões (nível verbal), ou de actos (nível comportamenteal) em presença de objectos (pessoas, ideias, acontecimentos, coisas, etc.) de maneira determinada." (Bardin, 1977: 155). Neste caso tomei como objecto de atitude (elemento sobre o qual se debruça a avaliação) a blogosfera e anotei os termos avaliativos de significação comum sobre ela produzidos numa escala de Lickert (5 valores, dois positivos, dois negativos, um valor central neutro).

Embora seja necessário repetir a análise em condições mais controladas metodologicamente e com um corpus analítico mais consistente e abrangente, alguns resultados desta análise são interessantes (ainda que - frise-se - pouco conclusivos). O principal dado que me chama a atenção é o facto de existir, nestes blogues, uma grande inconstância e descontinuidade no que respeita às atitudes manifestas face à blogosfera. Isto é, existe uma grande oscilação entre valorações positivas e negativas da blogosfera no quadro dos discursos metabloguistas destes blogues: o Socio[B]logue e o Avatares de um Desejo, apesar de apresentarem alguma variabilidade, são os que menos oscilam; por outro lado o Aviz, o Abrupto e o Guerra e Pas são os que mais oscilam (embora com algumas diferenças: em termos médios as valorações do Abrupto são mais positivas e as do Guerra e Pas mais negativas). Se seria expectável a existência de alguma oscilação - afinal, a blogosfera vai mudando e, com ela, a percepção que dela se faz -, o que é mais interessante é que, em alguns casos, verifica-se uma oscilação assinalável com intervalos relativamente diminutos (dois dias). Essa informação, apesar de precária, leva-me a colocar algumas questões: Porquê a necessidade que sentimos de avaliar a blogosfera? A que se devem estas oscilações atitudinais? Como é que os sujeitos percepcionam essa inconstância atitudinal? São questões, parece-me, que importa explorar.

Bardin, Laurence (1977 [2000]), Análise de Conteúdo, Lisboa: Edições 70.
Krippendorf, Klaus (1980), Content Analysis. An Introduction to its Methodology, London: Sage.
Ghiglione, Rodolphe & Alain Blanchet (1991), Analyse de contenu et contenus d'analyses, Paris: Dunod.

Nota Adicional: Estes dados não são fiáveis devido a potenciais enviesamentos do corpus analítico (além do mais, normalmente são utilizados três codificadores para diminuir o problema da subjectividade da codificação das asserções avaliativas). Pretendo, por isso, repetir a experiência analítica, em breve com um pouco mais de fiabilidade. Porém, não se deve ver nestes dados mais do que aquilo que eles são: uma experiência.

GLO: Rede 

Rede. "O uso mais geral para o termo «rede» é para uma estrutura de laços entre os actores de um sistema social. Estes actores podem ser papéis, indivíduos, organizações, sectores ou estados-nação. Os seus laços podem basear-se na conversação, afecto, amizade, parentesco, autoridade, troca económica, troca de informação ou qualquer outra coisa que constitua a base de uma relação." (Nohria & Eccles, 1992: 288).
Nohria, Nitin e Robert G. Eccles (eds.) (1992), Networks and Organizations: Structure, Form, and Action, Boston: Harvard Business School Press