domingo, junho 22, 2003

Blogosfera e Ciências Sociais: Um Exercício de Blogwatch ou Blogspotting 

As potencialidades de fertilização mútua entre blogues e as ciências sociais são animadoras. Direi mais: excitantes. Por um lado, os blogues constituem um objecto de estudo interessante no que respeita à chamada CMC (comunicação mediada por computador) no quadro da Sociologia da Comunicação (e, mais concretamente, naquilo que se vem designando de Sociologia dos Espaços Virtuais ou Sociologia do Ciberespaço). Daí se explica o surgimento de alguns blogues dedicados ao estudo sociológico e antropológico do fenómeno. Explore-se o PhD Weblogs para se aceder a alguns desses interessantes blogues. Destaco, a este respeito, o «Purse Lip Square Jaw» de Anne Galloway e «Life's A Blog» de Nurul Asyikin - este último já deu, inclusivamente, origem à tese
«Blogging Life - An Inquiry into the Role of Weblogs in Community Building (pdf)».

Mas os blogues não constituem apenas um objecto de investigação interessante, eles abrem também oportunidades e possibilidades animadoras para investigadores: falo, claro, dos os chamados «blogues de investigação» (research weblogs). Possibilidades animadoras, em primeiro lugar, para o debate científico (quer dentro de cada disciplina, quer multidisciplinar) e para a divulgação científica. Servem, ainda, como espaços de reflexão para lançar observações e pistas de pesquisa (normalmente perdidas em notas de rodapé ou em escritos de gaveta). Finalmente, abrem possibilidades - frise-se: ainda insuficientemente exploradas - enqaunto instrumentos de suporte ou apoio à pesquisa (fico deveras estimulado de pensar, por exemplo, na possibilidade de conduzir um exercício etnográfico, com recurso ao trabalho de campo ou metodologias contíguas utilizando, embora com algumas reservas, um blogue enquanto diário de campo). No campo dos blogues de investigação quero destacar, nas áreas da história, o «Estudos sobre o comunismo» (José Pacheco Pereira), da geografia, o «UrbanGeoBlog» (W. Scott Whitlock), da sociologia, o «Purse Lip Square Jaw» (Anne Galloway) da antropologia, o «Anthroblog» (R. S. P.) e o «Os Tempos Que Correm» (Miguel Vale de Almeida) (não sendo, propriamente, um blogue de investigação, estou certo que o autor não nos deixará de presentear esporadicamente com alguns apontamentos antropológicos). Uma palavra de apreço adicional para o projecto visionário PhD Weblogs gerido pelo atencioso António Granado, projecto que procura servir de espaço de referência para os «blogues de investigação».

Nota: No contexto científico, não quero deixar de mencionar adicionalmente o ABC - Arquivo Bibliográfico para publicações Científicas : que, não sendo um blogue, é um espaço virtual com... virtualidades assinaláveis (perdoe-se a redundância).

À Margem: Obrigado Pedro Mexia! Obrigado Statler! 

Depois de José Pacheco Pereira no Abrupto e de António Granado no Ponto Media, o Socio[B]logue foi agora alvo de um simpático comentário do celebrado blogger Pedro Mexia no Dicionário do Diabo:
"Blogs novos, imensos blogs novos. Destaco, pela consistência intelectual, este [Socio[B]logue]."

E também de Statler, o marreta sociológico, do blogue dos marretas.

"SOCIOLOJINHAS
Para esclarecer dúvidas como a do poste anterior, existe agora o Socio[B]logue, um blogue de reflexões sociológicas. Eu também queria reflectir sociologicamente de vez em quando, mas a Direcção de Recursos Humanos da Administração do Império não aceita. Aqui nada de reflexões, só reflexos. Por isso, caro João, serei visita regular ao teu Blogue de Observações, Reflexões e Interrogações. E não digo isto por solidariedade corporativa, acredita."


Saudações sociológicas!

[Perdoe-se, mais uma vez, o umbiguismo da transcrição.]

À Margem: Vasco Pulido Valente 

Seguindo João Gonçalves (Portugal dos Pequeninos) quero, também, manifestar o meu apreço pelas crónicas de Vasco Pulido Valente no Diário de Notícias. Concorde-se, ou não, com o autor, a escrita judiciosa de VPV é, porventura, o que mais se aproxima de uma «crónica sociológica». E, julgo eu, daria um blogue interessante. A julgar pela sua actividade de cronistas, seria interessante lêr blogues de outros cientistas sociais como António Barreto, Manuel Villaverde Cabral, Paquete de Oliveira ou Boaventura de Sousa Santos, não?

As Sociedades Contemporâneas 

Anthony Giddens tem proposto insistentemente o conceito de «dupla-hermenêutica» (cf. Giddens, 1992, 1994) para se referir à forma como o conhecimento proveniente das ciências sociais é apropriado pelos actores sociais, modificando as suas representações, disposições e práticas (e como, por sua vez, tais modificações precisam de ser analisadas). Ocorreu-me Giddens quando me deparei pela blogosfera (ou blogolândia segundo Guerra e Pas) com expressões como «sociedade pós-moderna» ou «modernidade» descontextualizadas ou desajustadas dos seus sentidos originais, quando se procurava falar das sociedades contemporâneas. Utilizei aqui a expressão «sociedades contemporâneas». Essa designação constitui um artifício semântico que procura não classificar explicitamente a contemporaneidade, fugindo às controvérsias e polémicas associadas a essa categorização. Porém, para além dessa denominação são por vezes utilizados, em alternativa, inúmeros termos, mais ou menos análogos, na sua designação: «sociedade de risco», «sociedade pós-industrial», «sociedade pós-tradicional», «pós-modernidade», «modernidade tardia», «tardo-modernidade», «sociedade pós-moderna», «pós-capitalismo», «sociedade da informação», «sociedade do conhecimento», «sociedade programada», «sociedade em rede», «sociedade global», «segunda modernidade», «modernidade reflexiva», «alta modernidade», «modernidade radicalizada», «hipermodernidade», «sobremodernidade», «modernidade ambivalente», «capitalismo flexível», «capitalismo desorganizado», «capitalismo avançado», «era da descontinuidade», «era dos extremos», «era da informação», «fim da história», «pós-fordismo». É, contudo, óbvio que muitas destas expressões não constituem, propriamente, sinónimos. Na verdade, algumas dessas designações são mais inclusivas, outras mais exclusivas. Umas mais analíticas, outras mais descritivas. Esta pluralidade terminológica deve-se ao facto destes termos estarem associados, de forma mais ou menos directa, a sistemas de pensamento alternativos e, portanto, a diferentes formas de conceber as sociedades contemporâneas. Por conseguinte, falar de «sociedade pós-industrial» (Daniel Bell), de «sociedade de risco» (Ulrich Beck), de «modernidade tardia» (Anthony Giddens), de «pós-modernidade» (Jean François Lyotard), de «modernidade ambivalente» (Zygmunt Bauman), de «sociedade programada», (Alain Touraine), de «sobremodernidade» (Marc Augé), de «capitalismo desorganizado» (Claus Offe, Scott Lash e John Urry), de «sociedade em rede» (Manuel Castells) ou de «fim da história» (Francis Fukuyama) não é irrelevante e remete, muitas vezes, para universos de referência distintos, debates diferenciados e filiações epistemológicas descoincidentes. Curioso é que apenas algumas destas expressões sejam alvo do efeito da dupla-hermenêutica (isto daria um estudo socio-antropológico delicioso). Ademais, a popularidade de alguns destes termos deve-se, entre outras coisas, à sua «vacuidade». Já o sublinhava Claude Grignon, sociólogo especialista nas questões alimentares. Dizia o autor que:

“Les concepts «lourds», comme «mutation», «modernisation», «industrialisation» ou «urbanisation», auxquels on fait souvent appel pour rendre compte des tendances lourdes, déblaient si énergiquement le terrain vague où ils font se rencontrer la sociologie, l’économie et l’histoire qu’il serait bien étonnant qu’on puisse encore distinguer quelque chose après leur passage.” (Grignon, 1986: 132). [esta passagem notável de Grignon, obscura e pouco conhecida, devo-a ao labor «arqueológico» de Luis Soares, meu amigo, colega de faculdade e companheiro de viagens sociológicas]

Fica o reparo.

Giddens, Anthony (1992), As Consequências da Modernidade, Oeiras: Celta
Giddens, Anthony (1994), Modernidade e Identidade Pessoal, Oeiras: Celta (a tradução para o português desta obra foi feita pelo antropólogo-blogger Miguel Vale de Almeida)
Grignon, Claude (1986), «Les Modes Gastronomiques a la Française», L’Histoire, Nº 85.

A Corrosão do Carácter 

Com a recente decisão do Tribunal Constitucional relativa ao novel código do trabalho, o tema voltou a surgir em força nos órgãos de informação. O debate em torno desse assunto tem sido, até agora, algo vazio, confrontacional (o último «Expresso da Meia Noite» foi disso um bom exemplo) mas, sobretudo, incompleto. Sociologicamente, considero peculiar que as mudanças na esfera do trabalho (que as há, com ou sem legislação a acompanha-las) não encontrem correspondência nos discursos dos intervenientes (autoridades, empregadores e sindicatos), ainda demasiado apegados às velhas categorias de pensamento. Acho ainda curioso que nesse debate pouco se fale da emergência de novas modelos a substituir as formas modernas de trabalho, das mudanças na ética de trabalho, da consolidação de uma nova cultura profissional, da reestruturação dos tempos, e, sobretudo, dos impactes, efeitos e consequências pessoais introduzidos por essas mudanças. Com efeito, estes temas derivados, incontornáveis, têm sido sistematicamente - cronicamente - negligenciados ou secundarizados. A sociologia, e restantes ciências sociais, também têm a sua quota parte de culpas, pois mesmo aí estes temas têm sido pouco explorados. Há, contudo, excepções. Parte significativa destas questões é explorada por Richard Sennett, o reputado sociólogo norte-americano (actualmente na London School of Economics), no ensaio 'A Corrosão do Carácter: As Consequências Pessoais do Trabalho no Novo Capitalismo' (2001), (notavelmente) prefaciado pelo consagrado Carlos Fortuna. Sennett fornece-nos, com lucidez e perspicácia, pistas fundamentais para a compreensão das mudanças, sociais e culturais, na esfera do trabalho e, sobretudo, os seus impactes sobre os sujeitos. Fica a sugestão.

Sennett, Richard (2001), A Corrosão do Carácter: As Consequências Pessoais do Trabalho no Novo Capitalismo, Lisboa: Terramar.

sábado, junho 21, 2003

Cunhal, Prisões e Solidão 

Na sequência do meu comentário-objecção ao argumento dos «dois tempos» de José Pacheco Pereira. O autor desenvolveu esse argumento nos blogues Abrupto e Estudos Sobre o Comunismo. Vale a pena ler, com atenção, o que diz. E vale a pena, também, explorar alguns dos eixos de debate induzidos por esta discussão.

"O meu problema é que lido com um caso individual, não generalizável, de um preso político, altamente motivado, numa cadeia de presos comuns, numa situação de isolamento sui generis, que tem que ser analisado como político, mas também como homem que está preso, sujeito aos efeitos e perversões da vida carcerária. Tento fazê-lo em dois capítulos do livro, um dos quais intitulado provisoriamente ?estratégias contra a solidão?. Quando li a literatura sobre o encarceramento e os seus efeitos, era para mim claro que alguns dos efeitos de interiorização do regime prisional aí descritos, alguns inclusive de identificação com a instituição prisional, não se verificavam dada a força de resistência psicológica do preso, fruto da sua personalidade e da motivação política e ideológica. Mas, nem tudo era assim tão simples.

No entanto, mesmo aqui, tive que me defrontar com a diferença entra a situação dos presos políticos numa cadeia onde só há presos políticos (Peniche ou o Tarrafal por exemplo) e em que estes se defendem da institucionalização criando uma ?contra-sociedade? na prisão (aulas, estudo em comum, caixa de solidariedade, actividades partidárias, direcção política das actividades, hierarquia própria ), com o caso de Cunhal que permaneceu longos períodos de prisão isolado. Aí não há esse efeito de ?contra-sociedade? limitando os efeitos da ?instituição total?.

Por último, a percepção do tempo vivido, sendo psicológica, é também neste caso, afectada pela importância de uma filosofia individual da acção, impregnada pela história, que corre ? cá fora.
"

Com efeito, de acordo com os pormenores que avança, é notório que o caso de Cunhal constitui um caso singular. Mais: um caso invulgar. E, por isso, como sugere, suponho também que este será um dos raros casos em que não se observa o processo clássico de «transformação do 'eu individual' no 'eu institucional'» (Goffman) associado a instituições totais. O que este caso tem de apaixonante, sociologicamente, é precisamente a forma como mostra como determinantes específicas condicionam, decisivamente, a experiência de reclusão (neste caso, o que Pacheco Pereira designa de «filosofia individual da acção», «resistência psicológica» e «motivação política e ideológica»). Por conseguinte, constituiria uma oportunidade sociológica ímpar para o campo da sociologia das prisões e do encarceramento poder aplicar boa parte do arsenal de análises de conteúdo disponíveis no instrumentário das ciências sociais (análises categoriais, análises avaliativas, análises de co-ocorrências, análises da expressão, análises de enunciação, etc...) a materiais etnográficos/ históricos como diários, correspondência ou textos de Cunhal onde fosse mencionada, explicitamente, a experiência de reclusão.

Acresce que, neste contexto, parece poder justificar-se o argumento inicial de Pacheco Pereira onde era sustentada a existência de dois tempos diversos (o dentro e o fora). Esse argumento vai, aliás, de encontro ao que, por exemplo, sustenta J. J. Semedo Moreira quando preconiza que "[a] condição de preso, ateando embora emoções diferentes, é redutível a um mínimo denominador comum de paragem do tempo, durante a qual [os reclusos] se sentem do outro lado da vida e das transformações sociais que mais tarde, quando saírem, virão a encontrar" (Moreira, 1994: 121). Nessa situação, parece então verificar-se a tal sensação recorrente de um tempo lento (senão mesmo parado ou inerte), atribuível ao facto de haver uma dissociação, parcial ou total, face à realidade exterior e de não haver uma vivência ou experiência das transformações sociais no mundo exógeno. Como diria Jean Marc Varaut: "Le monde change et on ne le voit pas changer." (Varaut in Moreira, 1994: 122). Conseguintemente, a julgar pelo material que JPP aparenta ter já analisado, parece justificar-se a intuição inicial de JPP e, portanto, as possibilidades alternativas que levanto na minha objecção parecem não se aplicar neste caso em concreto.

Ademais, no decurso da sua argumentação, JPP refere, ainda, um objecto de estudo apaixonante: a solidão no processo de encarceramento. No caso em causa, solidão forçada... Mas há muitos casos de solidão desejada. Aqui, mais uma vez, as reacções ao «fechamento» são muito diversificadas. Se muitos reclusos parecem manifestar uma preferência pelos espaços colectivos (de trabalho, convívio e recreio), falando em entrevistas, com visível consternação, da solidão, isolamento e sofrimento decorrentes do encarceramento celular; já outros revelam uma preferência por um dos poucos espaços (muitas vezes o único) que podem pessoalizar, personalizar e individuar no meio prisional: a cela. Por exemplo, um dos ex-reclusos que inquiri confessava que, para si, "a cela era um espaço de liberdade", logo acrescentando que "às vezes era um alívio quando se fechava" (Ex-recluso). Um companheiro seu, com uma atitude não muito distante, dizia: "Eu queria era estar fechado na minha cela: 'Esqueçam-me. Deixem-me ficar.' Eu não queria ver ninguém. (...) Ali estava no meu mundo com as minhas coisas: 'Quero dormir, quero comer, quero ler, quero escrever, quero descansar, quero ver televisão'. A minha cela era o meu espaço de liberdade." (Ex-recluso). [atente-se, nestes casos, ao peculiar e paradoxal facto da cela constituir, para muitos reclusos, um espaço de liberdade]. Estas constatações, remetem-nos para uma série de questões que seria pertinente explorar, de um ponto de vista sociológico, no caso particular de Cunhal. Em que medida o isolamento imposto, correspondia a uma solidão desejada? Será que o isolamento correspondia, necessariamente, a um sentimento de solidão? Será que «estratégias contra o isolamento» e «estratégias contra a solidão» podem ser tomadas como equivalentes? Que emoções surgiram, neste caso, associadas ao isolamento (angústia, melancolia, rancor, raiva, indiferença, impassibilidade, frieza, tensão, desânimo, apatia, tédio, medo, etc...)? Como é que evoluiram, no decurso do processo de encarceramento, as emoções associadas ao isolamento? Que variações apresentam? Essas questões, resultando do cruzamento de uma sociologia das emoções com uma sociologia das prisões e do encarceramento, parecem constituir bons portos de ancoragem para uma análise sociológica. Fica a proposta.

Moreira, J. J. Semedo (1994), Vidas Encarceradas. Estudo Sociológico de uma Prisão Masculina, Lisboa: Centro de Estudos Judiciários.

Obrigado Abrupto! Obrigado Ponto Media! 

O Socio[B]logue foi alvo de comentários atenciosos por parte de José Pacheco Pereira no Abrupto e de António Granado no Ponto Media. Perdoe-se o «umbiguismo» das transcrições:

" MAIS UM que não fala sempre do mesmo: o Socio[B]logue do João Nogueira, meu interlocutor sobre prisões, solidões, e tempos árduos. (...) O Socio[B]logue contribui, em conjunto com muitos dos blogues aparecidos no último mês e com os melhores dos pioneiros que já cá estavam, para que a blogosfera não tenha centro e funcione pela lei dos grandes números, oscilando num e noutro sentido, exercendo o seu efeito nos que nela entram de muitas e variadas maneiras. Cintilando." (Abrupto)

"O Socio[B]logue nasceu hoje e promete..." (Ponto Media)

Obrigado José Pacheco Pereira e António Granado, pelos comentários simpáticos.

Eles Vivem! 

O debate em torno do Fórum Social Português (FSP) veio, entre outras coisas, levantar uma (interessante) discussão onde têm vindo a intervir no espaço público alguns dos «pesos pesados» das ciências sociais em Portugal. Ao repto inicial de Boaventura Sousa Santos («O Fórum Social Português», Visão, 12 de Junho de 2003), seguiu-se Maria Filomena Mónica («Eles São Perigosos», O Público, 13 de Junho de 2003) e, agora, Manuel Villaverde Cabral («Fantasias e Fantasmas», Diário de Notícias, 20 de Junho de 2003). Aguardam-se novos desenvolvimentos.

sexta-feira, junho 20, 2003

Marcelo e o «Zapping Cultural» 

Anda meio mundo na blogosfera fascinado com a intrigante «capacidade de leitura» do professor Marcelo Rebelo de Sousa (questiono-me se seleccionei o adjectivo adequado). Não constituo excepção. Depois de Ricardo de Araújo Pereira, José Pacheco Pereira, Francisco José Viegas, Nelson de Matos, Fernando Gouveia, quero também retomar o tema. Proponho, todavia, um ponto de vista diverso do que têm prevalecido. Considero que estamos perante um «facto sociológico» de relevo. MRS constitui, porventura, o ponto paroxal dos tempos de «zapping cultural» que estamos a viver (a expressão, segundo sei, é da socióloga Idalina Conde). Alguns sociólogos têm chamado a atenção para o facto da multiplicação das referências e a explosão da informação ter gerado um desconcertante efeito de «info-overload», cujas consequências imediatas seriam uma espécie, mais ou menos profunda, de «zapping cultural». Qualquer cientista social já o sentiu na pele. Com um número cada vez mais elevado de publicações disponíveis, a construção de quadros (teórico-conceptuais) de referência e a revisão do «state of the art» da literatura sobre um determinado tema, têm-se caracterizado por uma crescente diminuição da profundidade analítica, em detrimento da necessidade de cobrir a extensa pluralidade de referências e debates (a qualidade cede à quantidade, a extensividade sobrepõe-se à intensidade). A sociologia não é excepção. Neste caso, poder-se-ía mesmo arriscar dizer que a «sociologia» está a ser crescentemente substuída por uma «sociografia» (no sentido da perda de profundidade). Conseguintemente, o tempo ameaça transformar-se de «condição» num «problema». Não me desejo arvorar num crítico social (ao jeito de um «zeitdiagnostiker» alemão: Simmel, Benjamin, Adorno, Horkheimer, Marcuse, Bauman...), nem num fazedor de «sociologia espôntanea», mas essa questão merece, pelo menos, alguma atenção sociológica. Ray Bradbury quando escreveu a sua notável obra distópica «Fahrenheit 451» não antecipou este problema: um mundo com livros demais para que cada «resistente» pudesse decorá-lo. Não será, quiçá, despiciendo dizer que a cultura de massas está a dar lugar a uma cultura em massa.

Qual a relação deste fenómeno com MRS? Bem, MRS leva esta lógica às suas últimas consequências. Ele reduz as referências às obras ao título e a uma ou outra palavra (quando é generoso)... além de denunciar o tique (pós-modernista??) de indicar obras sem um nexo de ligação entre elas (aguardo com impaciência o dia em que iremos ser presenteados pelo desconcertante professor com listas de manuais escolares, livretes de aforismas, catálogos da «La Redoute», mapas, manuais de instruções e afins publicações). Num mundo tão cheio de informação, torna-se fundamental a «selecção» da informação... MRS limita-se a bombardear-nos com dados. É pena. Uma lista, uma boa lista (criteriosa e judiciosa), pode ser um «objecto» mobilizador. MRS não é, apenas, um (des)leitor famigerado. É, antes, uma imagem daquilo em que poderemos transformar-nos. Fica a preocupação.

Apesar do apontamento sociológico não resisto a reproduzir dois comentários hilariantes sobre MRS. O primeiro é de Ricardo de Araújo Pereira (Gato Fedorento), e o segundo de José Pacheco Pereira (Abrupto).

Ricardo de Araújo Pereira
"Seja qual for a remuneração que o prof. Marcelo Rebelo de Sousa aufere pela coluna «Li e Gostei», que escreve na revista «Os Meus Livros», esse é o dinheiro mais bem ganho da imprensa portuguesa. E é uma quantia que, tenho a certeza, enfurece o pobre estagiário que passa a limpo a lista de títulos a lançar no mês em curso ? aliás apropriadamente publicada ao lado da coluna do prof. Marcelo ? e que é tão estimulante como o texto do professor.
Na coluna deste mês (referente, portanto, às leituras que fez no mês passado), ficamos a saber que, nos 28 dias de Fevereiro último, o prof. Marcelo leu e gostou de (eu contei) 57 livros, uma revista e um calendário. E da coluna não constam, como se percebe pelo título, as obras que o professor leu e não gostou. (Ideias para crónicas do prof. Marcelo em futuros números da «Os Meus Livros»: "Li e Não Gostei", "Li Até Meio e Depois Acendi a Lareira Com Eles", "Vi na Livraria e Até Me Interessou Mas Não Me Dava Jeito Comprar Nessa Altura de Maneiras Que Ficou Para Uma Próxima".)
Apesar das duas páginas a que tem direito, os títulos são tantos que o professor quase não diz uma palavra sobre os livros. E, quando diz, é mesmo só isso: uma palavra. Que, normalmente, tanto pode ser aplicada ao livro em causa como a outra coisa qualquer, tal como um vinho ou um frasco de perfume. São observações do género: «De Eça de Queirós, li "Os Maias" (excepcional); de Camilo, "O Esqueleto" (inebriante); e de Aquilino, "O Romance da Raposa" (fresquinho).»
Um mérito ninguém tira ao professor: valoriza o trabalho das pequenas editoras, com particular destaque, é certo, para a editorial Minerva (arrisco dizer que o professor lê tudo o que esta editora publica), mas sem deixar de estar atento à actividade de uma Editorial Maresias, da O Mirante, da Liga dos Amigos de Sesimbra e da Paróquia da Maia (juro que é verdade).
Mas nem tudo é aborrecido e inútil na coluna: no número de Setembro de 2002, o prof. Marcelo fez, na minha opinião, a sua melhor sugestão de leitura de sempre e, como assim era, dedicou, não uma, mas três palavras entre parêntesis à obra em apreço: «de Maria de Lourdes Brázio Tavares Monteiro, "A Mais Honrada Aldeia do Reino" (o Fundão intimista)». Já farto (como a generalidade dos leitores, suponho) de livros sobre a dimensão mais pública e mediática do Fundão, precipitei-me para as livrarias para adquirir a obra que dá a conhecer o lado mais intimista da localidade, antes que esgotasse. E depois, evidentemente, li e gostei."


José Pacheco Pereira.
"Só agora reparei que a coluna habitual de Marcelo Rebelo de Sousa na revista se chama "Li e gostei". Na lista dos "lidos" deste mês estão sessenta e cinco livros, mais de dois por dia, incluindo o Dicionário Prático para o Estudo do Português e Gestão de Serviços. A Avaliação de Qualidade. Isso é que é "ler"! A coluna devia era chamar-se "Faço listas de livros e gosto". Ele e Os Meus Livros. Depois queixem-se da banalização da leitura."




A Prisão e a Percepção da Passagem do Tempo 

Ontem, José Pacheco Pereira escreveu, no seu blogue Abrupto, o seguinte:
"Estou a escrever um livro (talvez acabe estas férias) que tem um problema complicado a resolver. É um livro sobre um homem que está preso onze anos, cuja vida no mundo carcerário é controlada ao milímetro, e cujos gestos possíveis e permitidos representam uma rotina imposta à força. Apitos, acender e apagar de luz, horários impiedosos. A prisão é, nos primeiros anos, uma materialização arquitectónica de uma ideia filosófica: o Panopticon de Bentham. Feita para tudo ser visto a partir de um olho central, o local último do poder. A "estrela de seis pontas". Depois de quase um ano, em que não foi autorizado a fazer nada, o homem lê, estuda, escreve, desenha e pinta. Cá fora há uma guerra, fria , mas guerra. Acontece tudo. O tempo é solto, é rápido, é o tempo da modernidade, acelerado. Como juntar num mesmo movimento tanta imobilidade e tanta rapidez?"

Comentário:
Tenho estado a conduzir um estudo sociológico, nos últimos dois anos, sobre prisões e encarceramento. Permita-me, pois, caro JPP, que levante uma pequena objecção à dualidade temporal que evoca (entre o dentro e o fora). O tempo «dentro» não é «linear» (ou, se quisermos, «linearmente lento»), quando se procura fazer uma «fenomenologia da vida prisional». Com efeito, em boa parte das etnografias prisionais que li até hoje é notória a existência de diversas fases na percepção da passagem do tempo por parte de reclusos (sobretudo, em reclusos com penas de longa duração). Vejam-se, por exemplo, algumas breves passagens sobre o assunto nas etnografias prisionais clássicas ‘The Prison Community’ (1940) de Donald Clemmer, ‘The Society of Captives’ (1958) de Gresham Sykes, ‘The Felon’ (1970) de John Irwin e ‘Stateville’ (1977) de James B. Jacobs. Entre nós, consulte-se o trabalho de Moreira (1994) e de Cunha (1996, 2002). E veja-se, a título exemplificativo, o que me dizia um ex-recluso condenado a uma pena relativamente extensa (9 anos) em sede de uma «entrevista biográfica» (história de vida/ estória de vida). Segundo a sua «experiência vivida» afirmava existirem três fases distintas na percepção da passagem do tempo:

"O tempo na cadeia tem três fases. Tem a fase inicial que custa muito... de adaptação. O tempo custa muito a passar. Depois o do meio, passa-se num instante: 'O quê já passaram quatro anos...' Depois no final é a ansiedade,
quando se aproxima a saída. Aí o tempo volta a ser muito lento. Mas na fase do meio nem se dá por ela passar. Não se vive, vegeta-se... A entrada custa a aceitar... A adaptação áquele ambiente, os problemas, a vida cá fora, o
que se deixou, os crimes, as perspectivas de vida... às vezes pensa-se na evasão. Depois pensamos: 'Isto é uma fase de passagem... vamos lá ver se me aguento cá dentro'. É a parte mais difícil. Depois uma pessoa mentaliza-se... Passa muito rápido. Depois vem a ânsia de viver. A ânsia da liberdade." (Ex-recluso)


Assim, de acordo com este ex-recluso, no período inicial, de adaptação à prisão, de assimilação da cultura penitenciária e de internalização dos tempos institucionais, o tempo custa muito a passar ["Você não imagina como é acordar a noite inteira, olhar para o relógio e ver que só passou uma hora, às vezes meia... uma pessoa pode enlouquecer à espera do dia seguinte. É um tempo muito lento... muito lento. E custoso, obviamente." (Ex-recluso)]. Na fase que se segue, pontifica o sentimento do tempo parado e inerte, onde os rituais quotidianos são incorporados e os dias passam sem se dar conta. Na última etapa, regressa o tempo que custa muito a passar, devido à enorme ansiedade provocada pela proximidade da libertação. Ademais, esta percepção do tempo não é universal (e é, na verdade, algo teleológico argumentar que todos os reclusos passam por estas três fases) e muitos reclusos, apresentam diferentes maneiras de experienciar a passagem do tempo. As tempografias da experiência de reclusão são, por conseguinte, muito heterogéneas. Assim questiono-me porque tentar dar uma noção de imobilidade «lá dentro». Porque não dar uma noção menos linear da evolução da percepção do tempo lá dentro, com as suas flutuações, mutações, hesitações, etc...? Fica a sugestão.

Moreira, J. J. Semedo (1994), Vidas Encarceradas. Estudo Sociológico de uma Prisão Masculina, Lisboa: Centro de Estudos Judiciários
Cunha, Manuela Ivone (1996), Malhas que a Reclusão Tece: Questões de Identidade numa Prisão Feminina, Lisboa: Centro de Estudos Judiciários
Cunha, Manuela Ivone (2002), Entre o Bairro e a Prisão: Tráfico e Trajectos, Lisboa: Fim de Século

Nota Adicional: Mas, claro, isto trata-se (apenas) de um trabalho exploratório de um estudante de sociologia e, por isso, os resultados que dele provém devem ser tratados com algumas reservas.



Foucault e a Solidão do Acrobata 

A «humildade científica» é, porventura, dos atributos mais difíceis de encontrar (e, reconheça-se, de concretizar). Há, todavia, excepções. Excepções notáveis. Num lendário artigo do repórter do jornal ‘Nouvel Observateur’, Gérard Petitjean (publicado a 7 de Abril de 1975), o jornalista apresentava um pequeno (e notável) episódio sobre os concorridos cursos de Michel Foucault (1926-1984) no Collége de France:

“Quando Foucault entra na arena, rápido, dinâmico, como alguém que se lança na água, passa por cima dos corpos para atingir sua cátedra, repele os gravadores para colocar os seus papéis, retira o paletó, acende uma lâmpada e começa, a cem por hora. Voz forte, eficaz, retransmitida por alto-falantes, única concessão ao modernismo de uma sala mal iluminada por uma luz que sobe por arandelas de estuque. Há trezentos lugares e quinhentas pessoas apinhadas, tapando o menor espaço livre [...] Nenhum efeito oratório. É límpido e terrivelmente eficaz. Sem a menor concessão à improvisação. Foucault tem doze horas por ano para explicar, em curso público, a direcção de sua pesquisa durante o ano que acabou de findar. Então, comprime ao máximo e preenche as margens como os correspondentes que ainda têm muito o que dizer quando chegaram ao fim de sua folha. 19:45. Foucault pára. Os estudantes correm para a sua escrivaninha. Não para falar-lhe, mas para desligar os gravadores. Sem perguntas. Na confusão, Foucault está sozinho.” E Foucault comenta: “Seria preciso poder discutir o que propus. Algumas vezes, quando o curso não foi bom, seria preciso pouca coisa, uma pergunta, para reordenar tudo. Mas essa pergunta nunca vem. Na França, o efeito de grupo torna qualquer discussão real impossível. E, como não há canal de retorno, o curso fica teatral. Tenho uma relação de ator ou de acrobata com as pessoas que estão presentes. E, quando acabei de falar, uma sensação de solidão total...” (Petitjean in Foucault, 2000: xi).

Goste-se, ou não, do autor francês é difícil não reconhecer a humildade das suas palavras. Fica o exemplo.

Foucault, Michel (2000), Em Defesa da Sociedade, São Paulo: Martins Fontes




Socio[B]logue: Apresentação 

Num dos seus mais conhecidos ensaios, ‘Marginalia’, E. A. Poe (1809-1849), debruçava-se, de forma eloquente, sobre o seu fascínio pelas anotações, apontamentos e comentários com que coloria abundantemente as margens dos seus livros. Essas notas anódinas – nas suas palavras ‘scribblings’, ‘pencillings’ e ‘marginal jottings’ – constituíam, em sua opinião, lembretes imprescindíveis na reconstituição do texto; embora se tornassem desprovidos de significado e ininteligíveis se separados, isolados ou subtraídos do seu contexto original. Este blogue é, também, ou sobretudo, de alguma forma, uma compilação desses ‘scribblings’, ‘pencillings’ e ‘marginal jottings’ que tanto fascinavam Poe. Sociológicos, claro.