sexta-feira, junho 27, 2003

Ana, Schutz e a Pluralidade dos «Genderlects» (act.) 

A tentação da simplificação poder-nos-ía levar a conceber o «genderlect» feminino como internamente homogéneo. Perante essa perspectiva convém esclarecer que não é. Com efeito, existe uma plêiade heterogénea de dialectos de género femininos. Embora, claro está, existam algumas características comuns e partilhadas entre si. O melhor exemplo disso é, porventura, a Ana Teles (como eu, estudante de sociologia e minha conhecida de outras andanças sociológicas). Analisar, judiciosamente, as diferenças entre os dois blogues que mantém, revela-nos, pelo menos, duas formas distintas do dialecto de género feminino e, por isso, duas formas diversas de «mostração» e de «presentação» do eu. O Lua apresenta um estilo confessional-poético. A Girl's Thoughts tem características mais descritivas-etnográficas, mais próximas do diário ou da auto-etnografia. Apresentando ambos as características que Tannen atribui ao dialecto de género tipicamente feminino, os blogues em causa revelam diferenças, no mínimo, assinaláveis.

Assim, ler a(s) Ana(s), remete-me para um conhecido conceito de um dos founding fathers da fenomenologia, Alfred Schutz. Falo da noção de «finite provinces of meaning» (noção que José Machado Pais tem traduzido como «âmbitos de significado finito»). Os âmbitos de significado finito referem-se a mundos de percepção ou âmbitos de realidade (como, por exemplo, cada pessoa tem um mundo do trabalho, um mundo familiar e um mundo individual, em esferas mais ou menos isoladas entre si). Neste caso, cada blogue da Ana constitui um âmbito de significado finito; um mundo de vida com a uma «lógica interna», uma «identidade» e um «ethos». Passar de um blogue para outro implica, então, uma ruptura: um salto de descontinuidade de uma «realidade» para outra. De um âmbito de significado finito para outro. É engraçado observar a transformação ontológica entre o tom confessional-etnográfico da «Ana-A Girl's Thouhgts» e o estilo confessional-poético da «Ana-Lua». Este caso levanta-nos, assim, interrogações sociológicas importantes quanto à questão da identidade. De facto, além de haver potencialmente uma cisão entre um «online self» e um «offline self», podemos ter ainda «online selves» diversos: um «eu digital» múltiplo. Abrem-se, assim, novas perspectivas quanto à recorrente questão fragmentação do eu na tardo-modernidade.

Voltando à Ana, esta constatação parece significar que numa mesma pessoa podem estar contidas formas diversas de ser feminina e de exprimir a feminilidade. A Ana dava um estudo sociológico interessante. Ou dois.




quinta-feira, junho 26, 2003

«Genderlects» e a Blogosfera 

Em alguma literatura sociológica e sociolinguística fala-se, por vezes, da existência de «genderlects», «genderlect styles» ou «gender specific dialects» (dialectos de género) – penso designadamente na linguista Deborah Tannen da Georgetown University. Esse conceito remete, segundo Tannen, para a existência de modos de comunicação muito diferentes entre géneros. Os dialectos de género manifestam-se de muitas formas: pessoas do sexo feminino tendem a utilizar, profusamente, mecanismos linguísticos como o uso do condicional, circunlóquios protocolares («será que é possível», «seria possível», etc.), signos de deferência, um discurso confessional e intimista, uma estética da vulnerabilidade, etc... Isso deve-se, ainda de acordo com Tannen, ao facto da comunicação feminina ser despoletada por um desejo de proximidade, intimidade, comunhão (numa palavra: compreensão); e a masculina por um desejo de status, respeito, concretização (numa palavra: admiração). Daí que «as mulheres» se foquem mais na esfera privada e «os homens» na esfera pública. Apesar das limitações da perspectiva da autora (porventura, os estereótipos de género não são adequadamente desmontados e as generalizações pouco rigorosas), o conceito é interessante. Eu acrescentaria, ao que a autora afirma, que o processo de construção social do género envolve, não só dialectos de género, mas a constituição de gramáticas emocionais distintas, de vocabulários «gendrificados» e de léxicos emocionais particulares.

Lembrei-me dos dialectos de género ontem, depois de ter recebido uma mensagem de correio electrónico deveras atenciosa da autora de um dos blogues mais bonitos da blogosfera, a Isabel Tilly do Monólogo, significativamente sub-intitulado «acontecimentos significativos do meu dia a dia». É um espaço sublime: confessional, intimista, frágil, familiar, reservado, delicado, sensível, terno e afectuoso. Enfim, «feminino». Ela ontem escreveu o seguinte: "quem ler o meu blog percebe que pertenço ao "género feminino". tenho pena que a pertença me molde o discurso (e o pensamento). alguma vez o abrupto escreveria sobre sentimentos de desamparo, falta de auto-confiança, alterações de humor? não creio...". Eu também não. O problema, na blogosfera, é que há um claro predomínio de um dialecto de género masculino. O tema por cá não tem tido impacte, mas lá fora muito se tem falado do «blog gender gap», do «gender gap in Blogville» ou do «Venus-Mars divide in Blogville» como lhe chama a jornalista-blogger Lisa Guernsey (Lisa Guernsey's Weblog) – autora de um artigo no The New York Times sobre o assunto intitulado «Telling all online: it's a man's world (isn't it?)» (tomei a liberdade de o disponibilizar online: vale a pena ler na totalidade). Diz a autora que: “Women want to talk about their personal lives. Men want to talk about anything but. So far the people who have received the most publicity (often courtesy of male journalists) appear to be the latter.” Por isso, segundo Guernsey, as mulheres tendem a escrever diários e os homens a falar de temas menos pessoais (de política, economia, literatura... e sociologia; não sendo generalizável, parece ser evidente que isto acontece, em grande medida, na lusosfera). Lisa Guernsey não é socióloga. Mas podia ser. Deambular pela blogosfera permite-nos dar conta desta ser um espaço predominantemente masculino (Socio[B]logue incluído). Com efeito, o dialecto de género prevalecente (e hegemónico) na blogosfera está mais perto dos «Sopranos» do que do «Once and Again». Esse facto, não sendo surpreendente, não deixa – ainda assim – de ser curioso.

Obrigado Isabel. Pela mensagem atenciosa e pelo Monólogo.

Guernsey, Lisa (2002, 28 de Novembro), Telling all online: it's a man's world (isn't it?), The New York Times. [html]





quarta-feira, junho 25, 2003

A sociologia criativa e o humor sociológico de Machado Pais 

Em celebração do prémio atribuído a Machado Pais resolvi transcrever um dos pedaços mais engraçados do seu livro ‘Ganchos, Tachos e Biscates’ (e uma das passagens mais originais do mesmo). É um trecho retirado do capítulo intitulado «Jovens Acompanhantes: ‘Puta de Vida que me Fez Puta’», e fala da experiência do autor aquando de uma visita a uma casa de prostituição. É um exercício notável de sociologia criativa e de humor sociológico. Vale mesmo a pena ler:

“Os sociólogos raramente se perdem nessas ruelas do aleatório em que se corre o risco de se perder não apenas a identidade como também o futuro. Mas um dia passei pela Columbano Bordalo Pinheiro e procurei a casa. Vi homens impacientes, rondando as proximidades do edifício. Movido pela força da curiosidade decidi entrar. Mas, quando já estava defronte da porta da casa ladeei-a e segui em frente, acelerando o passo. Era a primeira vez, em toda a minha vida, que rondava uma casa de prostituição. Depois de ter caminhado uns largos metros, voltei para trás, decidido a entrar e a vencer minha própria impaciência. E entrei.

A dona da casa recebeu-me e apresentou-me algumas raparigas. Fixei-me numa que fazia tranças com o cabelo, como se fizesse tranças no entrançamento que a vida é. Fazendo tranças, o pensamento é livre e todos os príncipes encantados podem passear no pensamento: Mas de que serve sonhar com príncipes, quando o que conta é o entreabrir da porta que deixa entrever um cliente qualquer, cujo único encanto é a sua predisposição a pagar? A Gabriela das tranças depressa descobriu a minha timidez e, para me desinibir, calculo, disse-me que a «comesse toda», que estava com «tusa» e outras coisas obtusas. Mais inibido fiquei ao não saber como reprimir-lhe um gesto que parecia insinuar afecto. Excessos tais baralharam as minhas convicções sociológicas. Provavelmente, no universo imaginário masculino, as prostitutas mostram-se famintas de sexo e, por isso, elas não se fazem rogadas a mostrar a sua fome. Puro equívoco. A prostituta dá-se a comer apenas por ter fome de dinheiro. A Gabriela das tranças – se a história contada não foi inventada – é mãe solteira, confessou-me, abotoando dois botões da blusa desabotoados por engano. De nacionalidade brasileira, tinha um namorado português com quem pretendia «ajuntar-se» logo que juntassem algum dinheiro. Com nostalgia recordou-me tardes em bancos do Jardim da Estrela e evocou corações e setas que inscreveram em algumas árvores do jardim, inscrições que procuravam eternizar uma relação cujo destino ali ficava traçado, nos troncos da árvore. Mas quis o destino que o destino fosse outro. E o que ficou da relação foi uma gravidez e um filho para criar, sem saber com que meios, pois todos a abandonaram, incluindo o pai do filho.” (Pais, 2001: 262-263)


Pais, José Machado (2001), Ganchos, Tachos e Biscates: Jovens, Trabalho e Futuro, Porto: Âmbar




Socioblogosfera: Um Retrato Singular (act.) 

Apesar do pensamento e teoria sociais (ainda) ocuparem um espaço diminuto na blogosfera, regozijo com algumas das menções que por aí se fazem. João Gonçalves (Portugal dos Pequeninos) fala em Roland Barthes; Almocreve das Petas em Michel Maffesolli, Pierre Bourdieu, Mike Featherstone (e tem ligações para materiais de e sobre Jean Baudrillard e Jürgen Habermas); Pedro Mexia (Dicionário do Diabo) refere Max Weber; Bruno Sena Martins (Avatares de um Desejo) e Tiago de Oliveira Cavaco (Voz do Deserto) mencionam Michel Foucault; Rui Grilo (5minutos) alude a Richard Sennett; Francisco José Viegas (Aviz) aflora George Steiner, Jürgen Habermas e Michel Foucault. Além de não faltarem, também por aí, pessoas associadas à esfera (campo, sistema ou arena, dependendo da escola de pensamento) das ciências sociais: investigadores, professores e estudantes (de história, psicologia social, sociologia e antropologia). Falo, designadamente, de Nuno Jerónimo (sociologia, Diário Interior, Blogue dos Marretas), Miguel Vale de Almeida (antropologia, Os Tempos que Correm), José Pacheco Pereira (história, Abrupto, Estudos sobre o Comunismo), Rui Branco (história, País Relativo), Pedro Adão e Silva (sociologia, País Relativo), Miguel Cabrita (sociologia, País Relativo), Filipe Nunes (sociologia, País Relativo), Bruno Sena Martins (antropologia, Avatares de um Desejo), Ana Teles (sociologia, A Girl’s Thoughts, Lua), Isabel Tilly (psicologia social, Monólogo). O pensamento e teoria sociais não são uma ausência na esfera, são uma «ausência presente». Melhor: uma (des)presença. O fenómeno intriga-me. Talvez Jill Walker e Torill Mortensen, gestores de dois dos mais relevantes blogues de investigação (respectivamente o jill/txt e o thinking through my fingers), tenham razão quando sugerem que “[academics] are so used to studying new technologies as exotic objects that they fail to see that they could be useful within academia itself” (2002: 263) [eu substituiria o termo académicos por investigadores, que podem não o ser]. Ou, porventura, estarei, de facto, a cometer as ingenuidades que o Almocreve das Petas me parece apontar. Recordando o incontornável Herberto Hélder, não será despeciendo dizer que "talvez o senhor seja mais inteligente do que eu" (Os Passos em Volta, p.12).

Mortensen, Torill e Jill Walker (2002), «Blogging thoughts: personal publication as an online research tool», in Andrew Morrison (ed.) (2002), Researching ICTs in Context, Oslo: InterMedia Report, 3/2002 [disponível online em pdf]




terça-feira, junho 24, 2003

Prémio Gulbenkian atribuído a José Machado Pais 

Foi atribuído a José Machado Pais, sociólogo fascinante (investigador principal do Instituto de Ciências Sociais [ICS] e professor convidado do Instituto Superior das Ciências do Trabalho e da Empresa [ISCTE]), o Prémio Ciência Gulbenkian 2003. O prémio foi atribuído devido à obra «Ganchos, Tachos e Biscates: Jovens, Trabalho e Futuro», uma das obras de sociologia mais originais e notáveis dos últimos anos, onde o autor articula os seus dois principais campos de especialização: a Sociologia da Juventude e a Sociologia da Vida Quotidiana [consultar O Público e o Diário Digital].




segunda-feira, junho 23, 2003

Confissões Sociológicas: O Síndroma Robinson Crusoe e Eu (self-note) 

Das primeiras vezes que entrevistei ex-reclusos deparei-me com aquilo a que chamei nas minhas notas de «síndroma Robinson Crusoe»: quando lhes é dada a oportunidade para falarem (e, mais concretamente, para falarem sobre si) é, geralmente, difícil «travá-los», na medida em que os seus discursos fluem de uma forma deveras impressionante. Sucedem-se, então, os episódios anódinos e as historietas (estorietas?) prisionais. Isso deve-se, segundo António Pedro Dores (sociólogo especializado nas questões da reclusão), ao estarem demasiado confinados às mesmas pessoas e às mesmas histórias e, por isso, quando encontram gente exótica que se interessa pelo que dizem (como eu), tendem a auto-tematizar-se e a desmultiplicar-se em palavras até terminarem. Normalmente por exaustão (do investigador ou dos próprios). É interessante constatar a presença do síndroma Robinson Crusoe na blogosfera desde as suas variantes mais simples («a minha vida dava um poste» [se blog é blogue, post é poste, não?] e «a minha vida dava um blogue»), até às suas variantes mais sofisticadas («a minha vida dava um estudo sociológico»). Não refiro, sequer, as variantes mais especializadas, desde as mais populares («a minha vida dava um canal de televisão da sic na tvcabo», «a minha vida dava um bar de alterne»), às mais eruditas («a minha vida dava uma peça de Schönberg», «a minha vida dava um filme de Bergman», «a minha vida dava uma obra de Beckett», «a minha vida dava um ensaio de Steiner», etc.). Fazendo uma autoscopia é forçoso reconhecer que eu próprio, nos primeiros dias (que ainda não terminaram) – e apesar do meu esforço deliberado de contenção – pareço ter sucumbido à tentação. Com efeito, julgo não ter resistido (suficientemente) ao inusitado fenómeno. Por conseguinte, interrogo-me: será que estive até agora encarcerado no meu «self offline»? Fica a pergunta.




Blogues: «The Dark Side of the Moon» 

Anne Galloway do «Purse Lip Square Jaw» - o blogue de investigação que já aqui mencionei - comentou o Socio[B]logue levantando algumas questões quanto aos limites da utilização dos blogues como instrumentos de pesquisa. Vale a pena ler o que diz com atenção, na medida em que apresenta algumas limitações técnicas associadas aos blogues (que ainda não tinha visto exploradas na blogosfera), mencionando outras ferramentas de potencial interesse, designadamente wikis, twikis, blikis ou plone [consultar os websites http://www.snipsnap.org, http://www.wiki.org e http://www.wikipedia.org].

“Since João Nogueira's very interesting Socio[B]logue showed up in my referrer logs, I have been thinking about the use of weblogs for research purposes. Like PLSJ, his blog serves as a type of field diary: "Observaçoes, Reflexoes e Interrogaçoes Sociologicas." And I would agree with him that the possibilities for blogging in social research remain underexplored. But I think that there are a few technical features built into common weblog applications that limit exploration, connection, expression and communication - all of which are integral to research. For example, Blogger doesn't offer the ability to organise posts into categories like Movable Type, but even so, that type of archiving does nothing to connect posts across boundaries. I'm with Ted Nelson on this one, we are prisoners of our applications and hypertext was originally conceived as something much more flexible and beautiful. Blogs make it difficult to understand connections that are not based on discrete categories, and I also fail to see the ability of temporally linear posting to forge new connections. And so I am going to experiment. Inspired by Kurzweil - never thought I'd say that! - when I have some free time next month, I plan to install The Brain here, and have it act as a means of connecting posts to each other, and to outside pages. We'll just have to see how it works ...”

Enfim, parece haver um mundo por explorar - parafraseando Huxley, um admirável mundo novo - no que respeita à utilização de inovações tecnológicas como ferramentas de trabalho.

Obrigado Anne.

domingo, junho 22, 2003

Blogosfera e Ciências Sociais: Um Exercício de Blogwatch ou Blogspotting 

As potencialidades de fertilização mútua entre blogues e as ciências sociais são animadoras. Direi mais: excitantes. Por um lado, os blogues constituem um objecto de estudo interessante no que respeita à chamada CMC (comunicação mediada por computador) no quadro da Sociologia da Comunicação (e, mais concretamente, naquilo que se vem designando de Sociologia dos Espaços Virtuais ou Sociologia do Ciberespaço). Daí se explica o surgimento de alguns blogues dedicados ao estudo sociológico e antropológico do fenómeno. Explore-se o PhD Weblogs para se aceder a alguns desses interessantes blogues. Destaco, a este respeito, o «Purse Lip Square Jaw» de Anne Galloway e «Life's A Blog» de Nurul Asyikin - este último já deu, inclusivamente, origem à tese
«Blogging Life - An Inquiry into the Role of Weblogs in Community Building (pdf)».

Mas os blogues não constituem apenas um objecto de investigação interessante, eles abrem também oportunidades e possibilidades animadoras para investigadores: falo, claro, dos os chamados «blogues de investigação» (research weblogs). Possibilidades animadoras, em primeiro lugar, para o debate científico (quer dentro de cada disciplina, quer multidisciplinar) e para a divulgação científica. Servem, ainda, como espaços de reflexão para lançar observações e pistas de pesquisa (normalmente perdidas em notas de rodapé ou em escritos de gaveta). Finalmente, abrem possibilidades - frise-se: ainda insuficientemente exploradas - enqaunto instrumentos de suporte ou apoio à pesquisa (fico deveras estimulado de pensar, por exemplo, na possibilidade de conduzir um exercício etnográfico, com recurso ao trabalho de campo ou metodologias contíguas utilizando, embora com algumas reservas, um blogue enquanto diário de campo). No campo dos blogues de investigação quero destacar, nas áreas da história, o «Estudos sobre o comunismo» (José Pacheco Pereira), da geografia, o «UrbanGeoBlog» (W. Scott Whitlock), da sociologia, o «Purse Lip Square Jaw» (Anne Galloway) da antropologia, o «Anthroblog» (R. S. P.) e o «Os Tempos Que Correm» (Miguel Vale de Almeida) (não sendo, propriamente, um blogue de investigação, estou certo que o autor não nos deixará de presentear esporadicamente com alguns apontamentos antropológicos). Uma palavra de apreço adicional para o projecto visionário PhD Weblogs gerido pelo atencioso António Granado, projecto que procura servir de espaço de referência para os «blogues de investigação».

Nota: No contexto científico, não quero deixar de mencionar adicionalmente o ABC - Arquivo Bibliográfico para publicações Científicas : que, não sendo um blogue, é um espaço virtual com... virtualidades assinaláveis (perdoe-se a redundância).

À Margem: Obrigado Pedro Mexia! Obrigado Statler! 

Depois de José Pacheco Pereira no Abrupto e de António Granado no Ponto Media, o Socio[B]logue foi agora alvo de um simpático comentário do celebrado blogger Pedro Mexia no Dicionário do Diabo:
"Blogs novos, imensos blogs novos. Destaco, pela consistência intelectual, este [Socio[B]logue]."

E também de Statler, o marreta sociológico, do blogue dos marretas.

"SOCIOLOJINHAS
Para esclarecer dúvidas como a do poste anterior, existe agora o Socio[B]logue, um blogue de reflexões sociológicas. Eu também queria reflectir sociologicamente de vez em quando, mas a Direcção de Recursos Humanos da Administração do Império não aceita. Aqui nada de reflexões, só reflexos. Por isso, caro João, serei visita regular ao teu Blogue de Observações, Reflexões e Interrogações. E não digo isto por solidariedade corporativa, acredita."


Saudações sociológicas!

[Perdoe-se, mais uma vez, o umbiguismo da transcrição.]

À Margem: Vasco Pulido Valente 

Seguindo João Gonçalves (Portugal dos Pequeninos) quero, também, manifestar o meu apreço pelas crónicas de Vasco Pulido Valente no Diário de Notícias. Concorde-se, ou não, com o autor, a escrita judiciosa de VPV é, porventura, o que mais se aproxima de uma «crónica sociológica». E, julgo eu, daria um blogue interessante. A julgar pela sua actividade de cronistas, seria interessante lêr blogues de outros cientistas sociais como António Barreto, Manuel Villaverde Cabral, Paquete de Oliveira ou Boaventura de Sousa Santos, não?

As Sociedades Contemporâneas 

Anthony Giddens tem proposto insistentemente o conceito de «dupla-hermenêutica» (cf. Giddens, 1992, 1994) para se referir à forma como o conhecimento proveniente das ciências sociais é apropriado pelos actores sociais, modificando as suas representações, disposições e práticas (e como, por sua vez, tais modificações precisam de ser analisadas). Ocorreu-me Giddens quando me deparei pela blogosfera (ou blogolândia segundo Guerra e Pas) com expressões como «sociedade pós-moderna» ou «modernidade» descontextualizadas ou desajustadas dos seus sentidos originais, quando se procurava falar das sociedades contemporâneas. Utilizei aqui a expressão «sociedades contemporâneas». Essa designação constitui um artifício semântico que procura não classificar explicitamente a contemporaneidade, fugindo às controvérsias e polémicas associadas a essa categorização. Porém, para além dessa denominação são por vezes utilizados, em alternativa, inúmeros termos, mais ou menos análogos, na sua designação: «sociedade de risco», «sociedade pós-industrial», «sociedade pós-tradicional», «pós-modernidade», «modernidade tardia», «tardo-modernidade», «sociedade pós-moderna», «pós-capitalismo», «sociedade da informação», «sociedade do conhecimento», «sociedade programada», «sociedade em rede», «sociedade global», «segunda modernidade», «modernidade reflexiva», «alta modernidade», «modernidade radicalizada», «hipermodernidade», «sobremodernidade», «modernidade ambivalente», «capitalismo flexível», «capitalismo desorganizado», «capitalismo avançado», «era da descontinuidade», «era dos extremos», «era da informação», «fim da história», «pós-fordismo». É, contudo, óbvio que muitas destas expressões não constituem, propriamente, sinónimos. Na verdade, algumas dessas designações são mais inclusivas, outras mais exclusivas. Umas mais analíticas, outras mais descritivas. Esta pluralidade terminológica deve-se ao facto destes termos estarem associados, de forma mais ou menos directa, a sistemas de pensamento alternativos e, portanto, a diferentes formas de conceber as sociedades contemporâneas. Por conseguinte, falar de «sociedade pós-industrial» (Daniel Bell), de «sociedade de risco» (Ulrich Beck), de «modernidade tardia» (Anthony Giddens), de «pós-modernidade» (Jean François Lyotard), de «modernidade ambivalente» (Zygmunt Bauman), de «sociedade programada», (Alain Touraine), de «sobremodernidade» (Marc Augé), de «capitalismo desorganizado» (Claus Offe, Scott Lash e John Urry), de «sociedade em rede» (Manuel Castells) ou de «fim da história» (Francis Fukuyama) não é irrelevante e remete, muitas vezes, para universos de referência distintos, debates diferenciados e filiações epistemológicas descoincidentes. Curioso é que apenas algumas destas expressões sejam alvo do efeito da dupla-hermenêutica (isto daria um estudo socio-antropológico delicioso). Ademais, a popularidade de alguns destes termos deve-se, entre outras coisas, à sua «vacuidade». Já o sublinhava Claude Grignon, sociólogo especialista nas questões alimentares. Dizia o autor que:

“Les concepts «lourds», comme «mutation», «modernisation», «industrialisation» ou «urbanisation», auxquels on fait souvent appel pour rendre compte des tendances lourdes, déblaient si énergiquement le terrain vague où ils font se rencontrer la sociologie, l’économie et l’histoire qu’il serait bien étonnant qu’on puisse encore distinguer quelque chose après leur passage.” (Grignon, 1986: 132). [esta passagem notável de Grignon, obscura e pouco conhecida, devo-a ao labor «arqueológico» de Luis Soares, meu amigo, colega de faculdade e companheiro de viagens sociológicas]

Fica o reparo.

Giddens, Anthony (1992), As Consequências da Modernidade, Oeiras: Celta
Giddens, Anthony (1994), Modernidade e Identidade Pessoal, Oeiras: Celta (a tradução para o português desta obra foi feita pelo antropólogo-blogger Miguel Vale de Almeida)
Grignon, Claude (1986), «Les Modes Gastronomiques a la Française», L’Histoire, Nº 85.

A Corrosão do Carácter 

Com a recente decisão do Tribunal Constitucional relativa ao novel código do trabalho, o tema voltou a surgir em força nos órgãos de informação. O debate em torno desse assunto tem sido, até agora, algo vazio, confrontacional (o último «Expresso da Meia Noite» foi disso um bom exemplo) mas, sobretudo, incompleto. Sociologicamente, considero peculiar que as mudanças na esfera do trabalho (que as há, com ou sem legislação a acompanha-las) não encontrem correspondência nos discursos dos intervenientes (autoridades, empregadores e sindicatos), ainda demasiado apegados às velhas categorias de pensamento. Acho ainda curioso que nesse debate pouco se fale da emergência de novas modelos a substituir as formas modernas de trabalho, das mudanças na ética de trabalho, da consolidação de uma nova cultura profissional, da reestruturação dos tempos, e, sobretudo, dos impactes, efeitos e consequências pessoais introduzidos por essas mudanças. Com efeito, estes temas derivados, incontornáveis, têm sido sistematicamente - cronicamente - negligenciados ou secundarizados. A sociologia, e restantes ciências sociais, também têm a sua quota parte de culpas, pois mesmo aí estes temas têm sido pouco explorados. Há, contudo, excepções. Parte significativa destas questões é explorada por Richard Sennett, o reputado sociólogo norte-americano (actualmente na London School of Economics), no ensaio 'A Corrosão do Carácter: As Consequências Pessoais do Trabalho no Novo Capitalismo' (2001), (notavelmente) prefaciado pelo consagrado Carlos Fortuna. Sennett fornece-nos, com lucidez e perspicácia, pistas fundamentais para a compreensão das mudanças, sociais e culturais, na esfera do trabalho e, sobretudo, os seus impactes sobre os sujeitos. Fica a sugestão.

Sennett, Richard (2001), A Corrosão do Carácter: As Consequências Pessoais do Trabalho no Novo Capitalismo, Lisboa: Terramar.