sexta-feira, julho 04, 2003

Gestão de Impressão, Festinger e a Teoria da Comparação Social 

Isabel Tilly (Monólogo) enviou-me um contributo inestimável para a interdisciplinarização do debate em torno da questão da «gestão de impressões». Ela propõe repensarmos o que até agora foi escrito à luz do trabalho do psicólogo social Leon Festinger (1919-1987) e, em particular, da sua teoria da comparação social. De acordo com ela, essa teoria “apesar de datada (tem sido reformulada e desenvolvida no quadro das relações intergrupais) parece-me manter pertinência, já que quando pensamos nos blogs, é impossível não pensar no carácter opinativo que esta forma de comunicação assume”. Ocorreu-lhe o trabalho de Festinger quando começou a pensar “se a necessidade de recebermos feedbacks, não teria a ver com esta necessidade, que Festinger operacionaliza, de validarmos socialmente as nossas opiniões e aptidões. ” Aqui fica um trecho textual da autoria de Doise, Deschamps e Mugny (1980), reproduzido pela Isabel, sobre Festinger e a teoria da comparação social.

Se, para as nossas opiniões, atitudes, crenças, não possuímos a base objectiva (física) que lhes determine a validade, dependemos das outras pessoas para as validar. (…) Perante uma superfície, um indivíduo pode pensar que ela é quebrável ou não; pode dar uma martelada nessa superfície e convencer-se de que a opinião que tinha era certa ou errada. Se uma pessoa lhe diz que a superfície é inquebrável depois de ele a ter quebrado, isso pouco efeito terá sobre a sua opinião.
Inversamente, tomemos o exemplo duma pessoa que julga que se as eleições tivessem sido ganhas pela oposição no seu país, a vida seria bem melhor: se esta opinião é partilhada, então é válida, se não, não é. "Assim, onde a dependência da realidade física é baixa, a dependência da realidade social é, de modo correspondente, alta" (Festinger, 1971). Mas para validar a opinião de um indivíduo, não é necessário que toda a gente pense como ele; basta que as pessoas do grupo a que ele se refere partilhem a sua opinião. Na óptica de Festinger, quanto mais fraco é o poder da realidade física na validade das opiniões, mais aumentem importância do grupo e a pressão para comunicar.
Festinger alargou a sua teoria, em 1954, integrando-lhe a avaliação das aptidões ou capacidades do indivíduo. Com efeito, as opiniões referem-se à situação em que se encontram os sujeitos e também à avaliação da sua capacidade de acção nessa situação, portanto, às suas aptidões. As aptidões de uma pessoa manifestam-se através da suas performances. Mas há casos em que não há qualquer critério objectivo de avaliação das performances. Nessas condições, a ideia que o indivíduo faz da sua aptidão depende dos outros: a ideia que um uma pessoa tem “do seu talento para escrever poesia” depende, em larga medida, da ideia que têm os outros acerca disso. Pelo contrário, a avaliação da aptidão para correr, faz-se comparando o tempo que levam várias pessoas a percorrer a distância. As principais proposições referentes às opiniões e às capacidades na teoria da comparação social, são as seguintes:
1. Existe em todos as pessoas uma tendência para avaliar as suas opiniões e as suas aptidões pessoais.
2. Na ausência de meios objectivos não sociais, as opiniões e aptidões próprias, são avaliadas, comparando-as com as opiniões e aptidões dos outros.
3. A tendência para se comparar com o outro, diminui à medida que aumenta a diferença entre o próprio e o outro, tanto nas opiniões como nas aptidões. Portanto, no interior de um determinado campo de comparação, escolhe-se de preferência, como termos de comparação, aqueles cuja aptidão ou opinião estão mais próximos.


Retirado de: Doise, W., Deschamps, J., Mugny, G. (1980). Psicologia Social Experimental. Lisboa: Moraes Editores. (trad. port)



quinta-feira, julho 03, 2003

Objecções à Gestão de Impressão (act.) 

«Tyler Durden» (EpiCurtas), alter-ego de outro blogueiro de formação sociológica, numa pequena nota, abordou a questão que anteriormente aflorei das particularidades da «gestão de impressão» no mundo dos blogues. Partindo do trabalho de Chris Argyris e Donald A. Schön, «Durden» propõe uma revisão e reformulação do meu argumento com recurso às noções de «presunções não testadas» e «ilusão do controlo». Quem desejar dissecar e aprofundar a questão encontra ali alguns pontos de problematização interessantes.

São, primacialmente, três os argumentos que avança: (1) segundo diz, parto do pressuposto que é “possível controlar a impressão que os outros constroem sobre o «eu»”, acrescenta também ao meu argumento que “[o] que temos é menos uma gestão (mensurável e, consequentemente, controlável) da impressão dos outros sobre o «eu», mas apenas mais uma – entre tantas… -manifestação da «ilusão do controlo»”, na medida em que os indivíduos partem de “uma análise subjectiva, assente em premissas sobre o “outro” não testadas”; (2) questiona ainda o facto de eu classificar este fenómeno como preocupante e não apenas interessante (crítica já implícita num comentário anterior do Mário do Retorta – se o interpretei correctamente –onde ele dizia que a dependência dos blogues não é diferentes de outras formas de dependência); (3) por último, e sem conexão directa com o argumento, preconiza que ao indicar existirem outros aspectos (além do receio de dar passos em falso e da ansiedade do feedback), sem os indicar, deixo o texto em aberto por razões «tácticas».

1. [gestão de impressão e premissas não testadas] Boa parte do que diz parece-me ser clarificador, de um ponto de vista conceptual, para o que escrevi. A clarificação que propõe, sendo pertinente, não me parece entrar em contradição com o conceito de gestão de impressão. E isso na medida em que a gestão de impressão é sempre um «esforço» ou uma «tentativa» (da parte de quem a tenta) e, por conseguinte, é também um "comportamento a partir de uma análise subjectiva, assente em premissas sobre o “outro” não testadas". Parece-me que as objecções que levanta se dirigem mais à designação do conceito (questão da nomenclatura goffmaniana: gestão de impressão ou administração de impressão), do que ao seu conteúdo. E discordar da designação de um conceito, parece-me, não é sinónimo de discordar do seu conteúdo. Logo, parece-me ser uma questão a um nível epistemológico diferente da que coloca. Conseguintemente, lendo o que escreveu fez-me colocar a questão da pertinência da designação seleccionada por Goffman. E, no que a isso diz respeito, julgo que, de facto, justificar-se-ía uma outra solução.

2. [interesse e preocupação] À questão de eu considerar o fenómeno em causa tanto interessante, de um ponto de vista sociológico, como preocupante, julgo, como disse, já ter respondido anteriormente em resposta a um comentário do Mário. Penso que o fenómeno é, sem dúvida, interessante de um ponto de vista sociológico. O seu interesse não é, todavia, exclusivamente sociológico. Em pessoas com sintomatologias depressivas (ou mesmo perturbações comportamentais e psicopatias), vulneráveis ao que em psicologia clínica se designa de “crises de ansiedade”, a ansiedade do feedback pode ter efeitos nefastos, por amplificar os sintomas a ela associados. Mas, como também sublinhei nesse comentário, essa questão diz respeito à psicologia clínica (e, quiçá, à psiquiatria). Não à sociologia (quer dizer, poderá ser de interesse para algumas formas de sociologia clínica ou aplicada).

3. [tácticas e estratégias] Quando disse existirem outros aspectos além do receio de dar passos em falso e da ansiedade do feedback, estava a pensar designadamente naquilo que Goffman apelida de «perturbações de desempenho» (ele enumera os gestos involuntários, as intromissões inoportunas, as cenas, entre outros). Achei desnecessário mencioná-los, não por uma questão táctica (deixar «pontos de fuga» em aberto), mas para não perturbar a clareza e coerência do argumento. Por conseguinte, esse expediente foi mais uma estratégia de simplificação, do que uma táctica de defesa, por meio da colocação de eventuais «pontos de fuga argumentativos».

Só me resta agradecer ao T. Durden pelos contributos interessantes e construtivos para o debate.

Nota Adicional: Inês Amaral (Conversas de Café) menciona uma notícia sobre um estudo de carácter médico-psiquiátrico em torno do problema do «uso compulsivo da Internet» e da «dependência motivada pela rede». As categorias bio-médicas são sempre de desconfiar... ainda para mais com a crescente «medicalização» das sociedades contemporâneas. Porém, é sempre interessante saber se o nosso comportamento pode ser classificado, ou não, enquanto patológico. E, não obstante a «desconfiança e cepticismo sociológicos», fica a preocupação, já reiterada, com os efeitos potencialmente disruptores da «ansiedade do feedback»...



terça-feira, julho 01, 2003

A Gestão de Impressão e os Blogues (act.) 

Lembro-me de ouvir António Lobo Antunes - julgo que em entrevista com Ana Sousa Dias - dizer que não devíamos acreditar no que dizia nas suas entrevistas, na medida em que estas propiciavam, de uma forma geral, que o autor “posasse para a eternidade” (versão literária, sofisticada e erudita do “posar para a fotografia” futebolístico). “É uma vaidade”, dizia, “a que poucos conseguem escapar”. Há todavia, formas muito díspares de «posar». Lobo Antunes falava, claro, da «gestão de impressão»: conceito desenvolvido por Erving Goffman (1993) para se referir aos esforços das pessoas para gerirem a imagem que os outros têm de si, por meio do controlo das impressões que projectam no(s) outro(s). A premissa fundamental desta noção é, como sugere o psicólogo social Barry Schlenker, a de que “conscientemente ou inconscientemente, as pessoas tentam controlar as imagens que projectam para as audiências, reais ou imaginadas” (Schlenker, 1980: 304).

Julgo ser cada vez mais evidente a presença na blogosfera de dois fenómenos habitualmente associados à gestão de impressão. Falo, designadamente, da «ansiedade do feedback» e do receio de «faux pas». A «a ansiedade do feedback» refere-se ao facto das pessoas mostrarem alguma ansiedade, por vezes obsessiva, com o feedback que recebem dos outros. Não deixa de ser sintomático que não existam - eu, pelo menos, não encontro - blogues sem mecanismos de «feedback» ou «interacção»: os contadores, os sistemas de comentários, os endereços de correio electrónico, os message boards, etc. Aliás, seria interessante poder analisar quantas vezes por dia é que os bloggers verificam as suas caixas de correio, os comentários recebidos ou os contadores. Por sua vez, o receio de «faux pas» reporta-se a um temor face à possibilidade de projectar uma imagem de inconsistência e incongruência (receio de cometer gaffes, de denunciar falta de cultura, etc.) que coloque a própria pessoa em causa. Estes aspectos não são, evidentemente, exclusivos do mundo dos blogues. Pelo contrário. São aspectos habitualmente associados às relações interpessoais e à interacção. O que parece estar a tornar-se característico da blogosfera é a sua amplificação. Este fenómeno é tão interessante, de um ponto de vista sociológico, como preocupante.

Goffman, Erving (1993), A Apresentação do Eu na Vida de Todos os Dias, Lisboa: Relógio D’Água

Schlenker, Barry R. (1980), Impression management, California: Brooks-Cole



Walter Benjamin, a História dos Vencidos e a Guerra Civil Espanhola 

Walter Benjamin (1892-1940) constitui, certamente, um dos expoentes máximos do pensamento germânico do século XX. Personagem central no seio da Escola de Frankfurt, Benjamin foi, seguramente, uma das figuras mais obscuras e enigmáticas da história da filosofia continental. Filósofo singular, ensaísta exímio, critico literário inovador, tradutor de Proust e Baudelaire, escritor e sonetista sombrio, coleccionador e bibliófilo apaixonado, historiador idiossincrático, pensador fragmentário e críptico, crítico de arte e cultura seminal, alegorista melancólico, narrador notável das guerras e revoluções do século XX, Benjamin acabaria por suicidar-se em 1940, na fronteira franco-espanhola, perseguido pela polícia hitleriana, com 48 anos e virtualmente desconhecido. Apenas anos mais tarde viria a transformar-se em ‘figura de culto intelectual’ – venerado por linguistas, críticos culturais, historiadores de arte, poetas e escritores, pensadores pós-modernistas e sociólogos. Esse reconhecimento é devido, sobretudo, aos esforços dos seus amigos Theodor W. Adorno, Hannah Arendt, e Gershom Scholem. Entre as suas inestimáveis contribuições para o pensamento contemporâneo encontra-se uma noção seminal que viria a assumir uma importância ímpar na historiografia moderna: a história dos vencidos.

De acordo com o filósofo germânico, na sua célebre obra ‘Teses sobre a Filosofia da História’ (‘Über den Begriff der Geschichte’) (Benjamin, 1940), tanto o historicismo como a vulgata ortodoxa do marxismo partilham uma concepção linear de história. Assim, diz-nos Benjamin, as historiografias oficiais tendem a evocar o passado, fazendo despertar recordações dominadas por uma temporalidade ordenada e linear e alinhando, desse modo, os acontecimentos de um forma particular. Uma forma que apenas permite que as pessoas se lembrem de uma sucessão distorcida e pré-determinada de eventos passados. A história oficial, segundo Benjamin, não é mais que ficção: uma montagem selectiva de acontecimentos passados num encadeamento linear significante.

Esse argumento do autor teutónico – de que a história oficial constitui uma versão deformada do passado construída no presente – vem de encontro ao trabalho um número crescente e multifacetado de estudiosos que se foram debruçando sobre a problemática da memória (individual e colectiva) e da percepção do tempo. Dessas reflexões resultou a constatação da influência decisiva do presente sobre a percepção do passado, desfigurando-o e distorcendo-o. O sociólogo francês Maurice Halbwachs, na sua célebre obra póstuma ‘La Mémoire Collective’, diria a esse respeito que “a lembrança é em larga medida uma reconstrução do passado com a ajuda de dados emprestados do presente, e além disso, preparada por outras reconstruções feitas em épocas anteriores e de onde a imagem de outrora manifestou-se já bem alterada” (1950: 70). Reflexões mais recentes ampliam essas conclusões sugerindo que não só as condições presentes influem a percepção do passado, mas a própria vivência do presente é influenciada pelos acontecimentos passados e pela percepção desses eventos passados (Connerton, 1993).

Essas propostas vêm, aliás, corroborar a argumentação de Benjamin, no sentido em que tornam evidente a ligação entre a transmissão e conservação da memória social e o poder. Como sustenta Paul Connerton, “não há dúvida de que o controlo da memória de uma sociedade condiciona largamente a hierarquia do poder” (1993: 2), pois, como acrescenta pouco adiante, “as nossas experiências do presente dependem em grande medida do conhecimento que temos do passado e (...) as nossas imagens desse passado servem normalmente para legitimar a ordem social presente.” (1993: 4). Os silêncios da história são, neste sentido, reveladores dos mecanismos e dispositivos de construção social do passado e, portanto, de manipulação da memória colectiva; o esquecimento constitui uma vala comum onde repousam actores e personagens anónimos e episódios e acções marginais, suprimidos e eliminados pelas narrativas históricas ortodoxas e convencionais. E se a memória histórica do passado influencia o presente, o controlo sobre essa memória histórica torna-se um sólido instrumento de dominação. Daí se explicam as violentas lutas, ao longo da história, pelo controlo sobre a memória colectiva e pelo monopólio da «verdade histórica». George Orwell, (1903-1950), conspícuo jornalista e novelista de origem britânica, sintetizou na novela ‘1984’, de forma exemplar, essa complexa relação entre o presente, a percepção do passado e o poder reduzindo-a a um notável axioma: “Who controls the past controls the future: who controls the present controls the past”.

Deste modo, a História, de acordo com Walter Benjamin, reduz-se a uma história enviesada ou, mais concretamente, a uma escritura histórica triunfalista: a uma história dos vencedores, ou melhor, a uma estória dos grupos dominantes. E isto porque a historiografia tendeu, ao longo do tempo, a entrar em intropatia com os vencedores. Neste contexto, o papel do historiógrafo é, de acordo com Benjamin, o de desafiar as representações da história vulgarmente aceites e estabelecidas. A historiografia, nesta perspectiva, deve ser necessariamente crítica e contra-hegemónica: a história, mais do que um facto, deve ser entendida como um problema. Daí que Benjamin apele a que se erga uma outra história, incitando a “escovar a História a contrapelo” (1940: 161), e reiterando a inexorável necessidade de não confundir a História com a narrativa histórica dos grupos dominantes. O perigo, como sublinha o filósofo germânico, é o esquecimento, a deslembrança, o silenciamento da memória, pois “toda a imagem do passado (...) corre o risco de desaparecer com cada instante presente que nela não se reconheceu” (1940: 159).

A salvadora redenção está então, de acordo com Benjamim, em escavar pacientemente o amontoado de ruínas e escombros do passado, recolhendo indícios historiográficos, não para reencontrar o passado como ele foi, mas sim para buscarmos o que nele foi esquecido e abafado: os vestígios que o tempo sufocou, isto é, as personagens e os episódios que foram asfixiados e colocados nas notas de rodapé da história oficial. Os relatos e as memórias recorrentemente negligenciados, omitidos e esquecidos; os pormenores secundários; os detalhes acessórios; as minudências anódinas. É indispensável, diz-nos o autor alemão, reconstruir o passado dos silenciados, dos esquecidos, enfim, dos espoliados da história. É fundamental preservar a memória daqueles que não têm lugar nos manuais de história; salvaguardar os seus testemunhos e depoimentos. É essencial conservar as experiências que narram, os episódios que descrevem, as estorietas que relatam. Benjamin aproxima-se assim de toda uma geração de historiadores, maioritariamente marxistas, que julgaram encontrar na prática da história oral a possibilidade de salvaguardar do esquecimento, a história e a cultura dos grupos dominados. Daí a relevância que atribuía à história oral e à narrativa. Daí a importância que concedia à memória, às lembranças, à recordação, à rememoração, à anamnese. Por conseguinte, os propósitos da filosofia benjaminiana são claros; ela ambiciona ‘fazer a história dos sem história’, ‘dar voz aos sem voz’; ela deseja reescrever a narrativa histórica, erguendo uma contra-história: a ‘história dos vencidos’.

A evocação de Walter Benjamin poderá parecer, à primeira vista, desprovida de pertinência, algo deslocada e, porventura, um tanto ou quanto questionável. Todavia, apesar das fragilidades e limitações da argumentação do autor alemão, é possível extrair de Benjamin um princípio de valor inestimável: juntamente com a história, narrativas e memórias oficiais, coabitam outras histórias, contra-narrativas e contra-memórias que não devem ser elididas sob o risco de desperdiçar a compreensão histórica de determinadas figuras, grupos, sociedades, eventos ou períodos. A melhor ilustração desse valioso princípio encontra-se, quiçá, nas palavras de um velho combatente anónimo da guerra civil espanhola, desconhecido para a historiografia, durante a realização da sua história de vida:

“...no sé yo cuanto le puede importar a usted ésto que le estoy diciendo, no sé si ésto le puede importar a alguien, porque éstas cosas no las cuentan los libros, esto no sale nunca en la historia, pero sabe lo que le digo, ésta es mi verdad.” (Anónimo citado em Santamaria e Marinas, 1999: 257).

Bem vindo Tiago Barbosa Ribeiro (Estudos sobre a Guerra Civil Espanhola).

Benjamin, Walter (1940 [1992]), «Teses sobre a Filosofia da História», Sobre Arte, Técnica, Linguagem e Política, Lisboa: Relógio D’Água, pp. 157-170
Connerton, Paul (1993), Como as Sociedades Recordam, Oeiras: Celta Editora
Halbwachs, Maurice (1950 [1990]), A Memória Coletiva, São Paulo: Vértice
Santamarina, Cristina e José Miguel Marinas (1999), «Historias de Vida e Historia Oral», in Juan Manuel Delgado e Juan Gutiérrez (coord.) (1999), Métodos y Técnicas Cualitativas de Investigación en Ciencias Sociales, Madrid: Sintesis, pp. 257-285

Nota Adicional: Após a publicação deste apontamento, Tiago Barbosa Ribeiro (Estudos sobre a Guerra Civil Espanhola) e José Fernando Guimarães (Incógnito QB) deram sequência ao que aqui foi escrito.



segunda-feira, junho 30, 2003

À Margem: O Saber Sociológico de Jorge Luís Borges 

Nas minhas viagens «arqueológicas» pelos arquivos de alguns blogues, apareceu-me um intrigante axioma: «o blog é o blogueiro» (Luis N., Ene Coisas). Esse apotegma lembrou-me uma passagem notável de Borges:

«Un hombre se propone la tarea de dibujar el mundo. A lo largo de los años puebla un espacio con imágenes de provincias, de reinos, de montañas, de bahías, de naves, de islas, de peces, de habitaciones, de instrumentos, de astros, de caballos y de personas. Poco antes de morir, descubre que ese paciente laberinto de líneas, traza la imagen de su cara.» (Jorge Luis Borges, El Hacedor).

Aquilo que se escolhe mostrar ou elidir, aquilo que queremos ser, é sempre um indicador, uma pista, daquilo que somos. Fica o apontamento.




domingo, junho 29, 2003

A Sobre-Consciência do Eu: Divagações Sócio-Antropológicas 

Num post anterior produzi algumas observações em redor da sobre-consciência do eu no mundo dos blogues. Essas observações suscitaram o interesse do Bruno Sena Martins (Avatares de um Desejo), meu interlocutor para as questões antropológicas. O Bruno, partindo de um quadro de referência fenomenológico, questiona algumas das minhas reflexões e reformula alguns dos argumentos que avancei. Reproduzo aqui o que diz:

"Em relação à introdução em que o João reflecte sobre o corpo, gostaria apenas de acrescentar que essa «heightened self awareness» do corpo que temos/somos, não resulta apenas de processos de escrutínio por «outros relevantes» produtores de olhares passíveis de resgatar o corpo à sua costumeira infra-consciência. Na realidade, e numa perspectiva eminentemente fenomenológica, importa que o corpo possa ser analiticamente acolhido fora dos processos de apresentação do self. É nesse sentido que faço notar que, ao falarmos de eventos fomentadores de uma consciência do corpo (ou sobre-consciência), não estaremos necessariamente (ou apenas) perante uma sobre-consciência de si. Parece- me também instigante que possamos dar conta da centralidade que o corpo adquire em experiências de dor/sofrimento somático, prazer, ou experiências de privação corporal, que colocam questões que vão muito para além das construções identitárias. (Haveria ainda a considerar, como refere Miguel Vale de Almeida (1996), as evidências etnográficas em relação às distinções entre corpo e pessoa). Mas, como a introdução se dirigia para o fenómeno da apresentação do eu nos blogs em face das expectativas que sobre alguns recaem (figuras públicas), vamos a isso! Concordo quando assinalas a tensão entre um olhar do outro que é simultaneamente desejado e receado, e dos mecanismos de defesa que se concretizam em algumas expressões recorrentes. Eu apenas acrescentaria que esses mecanismos de defesa não poderão ser entendidos fora de uma articulação com aquilo que eu chamaria de Écriture blogiste. Refiro-me a um discurso dominante de matriz falocêntrica (como tu já referiste), em que um distanciamento crítico com o mundo da vida, a ironia e a auto-ironia (a que se acrescenta uma pujante e selectiva intertextualidade, que, também ela, fomenta alguma auto-referencialidade na blogoesfera ) emergem como estratégias privilegiadas. Daí, em meu ver, decorre o facto dos discursos de direita, menos comprometidos com a transformação social, se sentirem mais em casa no registo/regime dominante na blogoesfera. Um discurso distanciado e irónico é já um discurso que cria as condições da sua própria defesa.

Recomenda, ainda, para os interessados em explorar estas questões as seguintes obras:

Good, Mary-Jo e Brodwin, Paul e Good, Byron e Kleinman, Arthur, 1992, Pain as Human Experience: An Anthropological Perspective, University of California Press, Berkeley.

Lakoff, George e Johnson, Mark, 1999, Philosophy in the Flesh: The Embodied Mind and its Challenge to Western Tthought, Basic Books, Nova Iorque.

Almeida, Miguel Vale de, 1996, Corpo presente: Antropologia do Corpo e da Incorporação, in Almeida, Miguel Vale de (org.), Corpo Presente: Treze Reflexões Antropológicas Sobre o Corpo, Celta, Oeiras.




A Reclusão Feminina e Manuela Ivone Cunha 

Saiu hoje no jornal «O Público» um artigo da jornalista Ana Cristina Pereira sobre a reclusão feminina. Intitula-se «Portugal É o País da União Europeia Que Mais Encarcera Mulheres». O artigo contém, entre outras coisas, menções à antropóloga Manuela Ivone Cunha (Universidade do Minho) e à socióloga Anália Cardoso Torres (CIES/ISCTE).

"(...)Portugal tem a mais alta taxa de encarceramento de mulheres, a representar 8,5 por cento do sistema prisional. Só Espanha, segundo dados do Conselho da Europa, se lhe aproxima. Os restantes países da União Europeia ficam-se abaixo dos seis por cento. Anália Cardoso Torres, co- autora da obra "Drogas e Prisões em Portugal", do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia, do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, aponta o dedo aos baixos índices de rendimento e de protecção social para justificar esta especificidade dos países do Sul.

A população prisional feminina homogeneizou-se, ao longo da última década. Há uma obesa maioria unida por penas superiores a cinco anos. Não por acaso. Chegam quase todas "por droga". Contudo, "não dependem, na sua larga maioria, e ao contrário dos homens, do consumo de substâncias ilícitas", sublinha Anália Cardoso Torres. No diagnóstico publicado o ano passado, podia ver-se que mais de metade responde por tráfico (53 por cento), um crime severamente sancionado pela moldura penal. Somando os crimes de tráfico e consumo com os de consumo (já despenalizado) obtém-se outros 18, 7 por cento.

O perfil social destas mulheres tem um rosto paupérrimo. Não são baronesas da droga. São mais do género de "esconder a droga no cinto do avental". Fracas qualificações escolares e profissionais desenham o seu perfil, havendo mesmo uma forte incidência de analfabetismo. As baixas habilitações limitam muito as oportunidades de trabalho, motor de inserção. E a actividade ilícita, embora arriscada, lembra Anália Cardoso Torres, surge-lhes como uma saída à miséria.

O grosso das reclusas encerra histórias de vida que parecem ter saído de um livro de Charles Dickens. Vêm de bairros degradados, barracas ou acampamentos, bem batidos pelas rusgas policiais, onde o tráfico surge numa lógica de organização de sobrevivência. E, mais do que estar fechadas, como mostra a condenada por tráfico Maria Augusta, custa-lhes estar longe dos filhos, dos maridos, da família. Custa-lhe estar longe de quem, muitas vezes, desempenhou um papel decisivo na sua entrada para o crime. Identificam-se sempre de uma forma relacional - 81,6 por cento são mães.

O mercado da droga não parece desdenhar das mulheres, como alguns sectores laborais. Elas entram, muitas vezes, em redes de vizinhos e de parentes. Há as que trabalham por conta própria, explica Ivone Cunha, em "Entre o Bairro e a Prisão: Tráfico e Trajectos". Mas também as que são usadas para o corte (em pacotes), para o correio. Ou as que "apanham por tabela" - são apenas cúmplices dos filhos ou companheiros. Mulheres como Maria Augusta que sabia que o filho toxicodependente traficava, mas "não podia pô-lo para fora de casa, não podia".

Romper este emaranhado é tanto mais complicado quando, como foca Ivone Cunha, existe um "círculo vicioso de tráfico" que não tem só a ver com o dinheiro fácil. Os filhos menores podem iniciar-se na venda na "sequência da detenção dos pais, que por sua vez poderão reincidir no tráfico para deles retirar os filhos". E, nos bairros onde moram, as entradas e saídas da cadeia são tão frequentes que se tornaram "normais", logo, pouco recriminadas.(...)"


Aproveite-se a ocasião para recordar o admirável trabalho de Manuela Ivone Cunha no campo dos estudos prisionais em Portugal e, mais concretamente, no estudo da reclusão feminina. Primeiro, ainda enquanto investigadora do Centro de Estudos Judiciários, com a obra «Malhas que a Reclusão Tece: Questões de Identidade numa Prisão Feminina» (1996a); em seguida, com a publicação do ensaio «Corpo Recluído: Controlo e Resistência numa Prisão Feminina» (1996b), inserto na obra colectiva «Corpo Presente», organizada por Miguel Vale de Almeida; por fim, com a obra «Entre o Bairro e a Prisão: Tráfico e Trajectos» (2002), transposição para livro da sua tese de doutoramento, orientada também por Miguel Vale de Almeida. Essa obra é, sem dúvida, uma das obras maiores da antropologia portuguesa contemporânea. Esse facto levou, o próprio Vale de Almeida, a considerar no prefácio ao livro que aquele se tratava de um "ponto de viragem na antropologia portuguesa" (2002: 14). Aliás, não será despiciendo recordar que a autora ganhou com este último livro o «Prémio Sedas Nunes de Ciências Sociais 2002», porventura, o mais importante prémio de Ciências Sociais em Portugal. Fica, portanto, a sugestão.

Cunha, Manuela Ivone (1996a), Malhas que a Reclusão Tece: Questões de Identidade numa Prisão Feminina, Lisboa: Centro de Estudos Judiciários
Cunha, Manuela Ivone (1996b), «Corpo Recluído: Controlo e Resistência numa Prisão Feminina», in Miguel Vale de Almeida (org.) (1996), Corpo Presente. Treze Reflexões Antropológicas Sobre o Corpo, Oeiras: Celta Editora, pp. 72-86
Cunha, Manuela Ivone (2002), Entre o Bairro e a Prisão: Tráfico e Trajectos, Lisboa: Fim de Século



A Sobre-Consciência do Eu e o Mundo dos Blogues 

No campo da sociologia do corpo tem sido produzido, em anos recentes, algum trabalho de análise e reflexão em torno do conceito de «sobre-consciência de si» («heightened self awareness»). Essa expressão foi primeiramente desenvolvida por Drew Leder, autor norte-americano de inspiração fenomenológica, em ‘The Absent Body’ (1990), uma das obras de referência na recente literatura sobre o corpo. A noção de «sobre-consciência de si» refere-se ao facto do corpo deter, geralmente, uma presença invisível ou ausente na nossa vida quotidiana, permanecendo num estado de infraconsciência. Essa despresença, segundo Leder, apenas é suspensa em momentos muito específicos. Mais concretamente, quando o «eu» se sente escrutinado, julgado e avaliado nas suas acções pelo olhar do «Outro». Existem alguns conceitos sociológicos próximos ou contíguos do enunciado: penso, nomeadamente, nas noções de «hiperobjectificação do corpo» (da antropóloga prisional Manuela Ivone Cunha) e de «auto-consciência epidérmica» (do semiólogo italiano Umberto Eco).

Esta referência poderá parecer inusitada e, porventura, um tanto ou quanto irrelevante. Todavia, julgo ser possível entrever um fenómeno não muito dissemelhante no mundo dos blogues (não, obviamente corporal, mas a nível do self). Processo a que podemos chamar «sobre-consciência do eu». Com efeito, entrevê-se em muitos blogues a existência de um estado de consciência psicológico alterado dos seus autores, motivado, talvez, por uma sensação de visibilidade permanente e por estes se sentirem alvo de observação e contemplação (e, em alguns casos, de escrutínio, análise e avaliação). José Xavier escreveu agora no Satyricon que as figuras públicas na blogosfera se sentem “condicionad[a]s a ser aquilo que todos esperam del[a]s”. Se é verdade que as ditas «figuras públicas» revelam uma forma de «sobre-consciência do eu», isso não parece ser um exclusivo delas. Com efeito, se há algo que parece transparecer de boa parte dos discursos presentes na blogosfera é o facto dos bloggers ficarem muito dependentes das expectativas que projectam no outro (isto é, das expectativas que julgam que os outros têm face a si e ao que escrevem). Existem marcas discursivas – aparentemente anódinas, insignificantes ou irrelevantes – que constituem indicadores deste fenómeno. A utilização de expressões como «não sei porque falo isto», «não sou um especialista nesta matéria» e de outras formas de «auto-justificação» representam, de forma mais ou menos directa, «mecanismos de defesa» gerados pela antecipação do olhar do «outro» e constituem, de algum modo, defesas perante o escrutínio esse olhar. Assim, esse olhar é, simultaneamente, «desejado» e «receado». No discurso sociológico estas marcas também existem. São apenas um pouco diferentes: repare-se, inclusivamente aqui no Socio[B]logue, na utilização de expressões como «mas, claro, seria preciso estudar com maior detalhe estas questões» ou «mas, obviamente, os estudos sociológicos nesta área são ainda escassos».

A «sobre-consciência do eu» é, sem dúvida, um dos aspectos sociologicamente mais interessantes no mundo da comunicação mediada por computador, em geral, e no mundo dos blogues, em particular. E, também, dos aspectos menos estudados. ;)

Leder, Drew (1990), The Absent Body, London: Sage