domingo, julho 06, 2003

«L’Écriture Éthopoiétique» e as Entrevistas Imaginárias 

Algures entre os seus trabalhos em torno da emergência histórica do cuidado de si (“le souci de soi”), Foucault debruçou-se, num pequeno texto sombrio e pouco conhecido, sobre a «l´écriture de soi», a escrita de si mesmo, na cultura greco-romana dos séculos I e II D.C.. A escrita de si mesmo caracteriza-se pela meditação, a reflexão, o pensar sobre si mesmo. Enfim, pela elaboração de um discurso sobre o eu. É por isso que Foucault lhe chama uma “écriture éthopoiétique” (2001: 1237): escrita etho-poiética significa que essa escrita é, também, uma forma de constituição do «eu». O «eu» nasce da escrita e do que se diz. São, sobretudo, duas as formas que a escrita de si mesmo assume na cultura greco-romana: a «correspondência» e os «hupomnêmata» (cadernos pessoais que servem de «aide-mémoire», contendo citações, fragmentos de obras, exemplos morais, pequenos pensamentos e reflexões, etc.).

É, aliás, curioso notar como os blogues parecem ser uma combinação dessas duas formas de escrita etho-poiética, articulando elementos da escrita para o outro e da escrita para si mesmo. Veja-se, por exemplo, como a descrição que Foucault faz da correspondência se encontra muito próxima de algumas coisas aqui discutidas a propósito da gestão de impressão e da preocupação em redor do modo como somos percepcionados pelo outro:
Écrire, c’est donc «se montrer», se faire voir, faire apparaître son propre visage auprès de l’autre. Et, par là, il faut comprendre que la lettre est à la fois un regard qu’on porte sur le destinataire (par la missive qu’il reçoit, il se sent regardé) et une manière de se donner à son ragard par ce qu’on lui dit de soi-même.” (Foucault, 2001: 1244)

Mas porquê retomar Foucault? Uma das coisas mais fascinantes no mundo dos blogues é o seu estilo retórico prevalecente, o tipo predominante de escrita etho-poiética (isto só se aplica, evidentemente, a blogues onde há um discurso sobre o eu; os fotoblogues ou os blogues de humor possuem lógicas próprias). Ler alguns blogues, não todos, lembra-me um estilo retórico característico quer dos relatos auto-biográficos, quer das entrevistas de história de vida. Quase como se estivéssemos a assistir a entrevistas imaginárias com interlocutores imaginários (o que foi, aliás, já mencionado pelo Bruno Sena Martins). As pessoas projectam interrogações que gostariam que lhes fossem feitas sobre si e ensaiam respostas, mais ou menos elaboradas, a essas questões imaginárias ou projectadas.

Mas o que estará por trás deste estilo discursivo? O que o justifica? Como interpretá-lo? Julgo que essa forma de escrever se deve, em parte, ao facto de existir, nas sociedades ocidentais contemporâneas, uma grande reflexividade das pessoas face ao seu «eu». E essa reflexividade tem sido muito marcada pela entrevista de cariz biográfico. Com efeito, o ser-se entrevistado hoje é um indicador muito forte de sucesso: de êxito. Secretamente, ou não, parte signiificativa dos blogueiros gostaria de ser entrevistada. Embora seja um fenómeno de interpretação complexa, não é difícil compreender este fascínio pela entrevista. Hodiernamente, as pessoas lêem e vêem muitas entrevistas. E, naturalmente, imaginam-se entrevistadas, projectam-se nos entrevistados e elaboram discursos sobre si mesmas nessas projecções. Há, obviamente, variações: há quem se imagine a conversar com a Ana Sousa Dias, com a Bárbara Guimarães, com a Judite de Sousa ou num confessionário com a Teresa Guilherme. Mas, de um modo geral, as pessoas gostam de falar de si e possuem discursos muito elaborados sobre si mesmas: o que são, o que gostam, as suas experiências de vida, os momentos marcantes, etc... O problema é que há um hiato, uma dissociação, entre os discursos que se elaboram e os meios para os exprimir ou comunicar. Nem todos têm acesso aos meios de comunicação. Nem todos possuem formas de explicitar os discursos elaborados. Parece-me, porventura erroneamente, que o sucesso dos blogues também estará relacionado com esse aspecto: as pessoas possuem, por meio de um blogue, a oportunidade de revelar os seus discursos sobre si mesmas... ou, pelo menos, sobre algo relacionado consigo mesmas.

Mas, claro, isto é apenas uma hipótese. E, como tal, especulativa, pouco consistente e discutível.

Foucault, Michel (2001), «L´Écriture de Soi», Dits et Écrits, 1954-1988, Volume II (1976-1988), Paris: Gallimard, pp. 1234-1249



sexta-feira, julho 04, 2003

Gestão de Impressão, Festinger e a Teoria da Comparação Social 

Isabel Tilly (Monólogo) enviou-me um contributo inestimável para a interdisciplinarização do debate em torno da questão da «gestão de impressões». Ela propõe repensarmos o que até agora foi escrito à luz do trabalho do psicólogo social Leon Festinger (1919-1987) e, em particular, da sua teoria da comparação social. De acordo com ela, essa teoria “apesar de datada (tem sido reformulada e desenvolvida no quadro das relações intergrupais) parece-me manter pertinência, já que quando pensamos nos blogs, é impossível não pensar no carácter opinativo que esta forma de comunicação assume”. Ocorreu-lhe o trabalho de Festinger quando começou a pensar “se a necessidade de recebermos feedbacks, não teria a ver com esta necessidade, que Festinger operacionaliza, de validarmos socialmente as nossas opiniões e aptidões. ” Aqui fica um trecho textual da autoria de Doise, Deschamps e Mugny (1980), reproduzido pela Isabel, sobre Festinger e a teoria da comparação social.

Se, para as nossas opiniões, atitudes, crenças, não possuímos a base objectiva (física) que lhes determine a validade, dependemos das outras pessoas para as validar. (…) Perante uma superfície, um indivíduo pode pensar que ela é quebrável ou não; pode dar uma martelada nessa superfície e convencer-se de que a opinião que tinha era certa ou errada. Se uma pessoa lhe diz que a superfície é inquebrável depois de ele a ter quebrado, isso pouco efeito terá sobre a sua opinião.
Inversamente, tomemos o exemplo duma pessoa que julga que se as eleições tivessem sido ganhas pela oposição no seu país, a vida seria bem melhor: se esta opinião é partilhada, então é válida, se não, não é. "Assim, onde a dependência da realidade física é baixa, a dependência da realidade social é, de modo correspondente, alta" (Festinger, 1971). Mas para validar a opinião de um indivíduo, não é necessário que toda a gente pense como ele; basta que as pessoas do grupo a que ele se refere partilhem a sua opinião. Na óptica de Festinger, quanto mais fraco é o poder da realidade física na validade das opiniões, mais aumentem importância do grupo e a pressão para comunicar.
Festinger alargou a sua teoria, em 1954, integrando-lhe a avaliação das aptidões ou capacidades do indivíduo. Com efeito, as opiniões referem-se à situação em que se encontram os sujeitos e também à avaliação da sua capacidade de acção nessa situação, portanto, às suas aptidões. As aptidões de uma pessoa manifestam-se através da suas performances. Mas há casos em que não há qualquer critério objectivo de avaliação das performances. Nessas condições, a ideia que o indivíduo faz da sua aptidão depende dos outros: a ideia que um uma pessoa tem “do seu talento para escrever poesia” depende, em larga medida, da ideia que têm os outros acerca disso. Pelo contrário, a avaliação da aptidão para correr, faz-se comparando o tempo que levam várias pessoas a percorrer a distância. As principais proposições referentes às opiniões e às capacidades na teoria da comparação social, são as seguintes:
1. Existe em todos as pessoas uma tendência para avaliar as suas opiniões e as suas aptidões pessoais.
2. Na ausência de meios objectivos não sociais, as opiniões e aptidões próprias, são avaliadas, comparando-as com as opiniões e aptidões dos outros.
3. A tendência para se comparar com o outro, diminui à medida que aumenta a diferença entre o próprio e o outro, tanto nas opiniões como nas aptidões. Portanto, no interior de um determinado campo de comparação, escolhe-se de preferência, como termos de comparação, aqueles cuja aptidão ou opinião estão mais próximos.


Retirado de: Doise, W., Deschamps, J., Mugny, G. (1980). Psicologia Social Experimental. Lisboa: Moraes Editores. (trad. port)



quinta-feira, julho 03, 2003

Objecções à Gestão de Impressão (act.) 

«Tyler Durden» (EpiCurtas), alter-ego de outro blogueiro de formação sociológica, numa pequena nota, abordou a questão que anteriormente aflorei das particularidades da «gestão de impressão» no mundo dos blogues. Partindo do trabalho de Chris Argyris e Donald A. Schön, «Durden» propõe uma revisão e reformulação do meu argumento com recurso às noções de «presunções não testadas» e «ilusão do controlo». Quem desejar dissecar e aprofundar a questão encontra ali alguns pontos de problematização interessantes.

São, primacialmente, três os argumentos que avança: (1) segundo diz, parto do pressuposto que é “possível controlar a impressão que os outros constroem sobre o «eu»”, acrescenta também ao meu argumento que “[o] que temos é menos uma gestão (mensurável e, consequentemente, controlável) da impressão dos outros sobre o «eu», mas apenas mais uma – entre tantas… -manifestação da «ilusão do controlo»”, na medida em que os indivíduos partem de “uma análise subjectiva, assente em premissas sobre o “outro” não testadas”; (2) questiona ainda o facto de eu classificar este fenómeno como preocupante e não apenas interessante (crítica já implícita num comentário anterior do Mário do Retorta – se o interpretei correctamente –onde ele dizia que a dependência dos blogues não é diferentes de outras formas de dependência); (3) por último, e sem conexão directa com o argumento, preconiza que ao indicar existirem outros aspectos (além do receio de dar passos em falso e da ansiedade do feedback), sem os indicar, deixo o texto em aberto por razões «tácticas».

1. [gestão de impressão e premissas não testadas] Boa parte do que diz parece-me ser clarificador, de um ponto de vista conceptual, para o que escrevi. A clarificação que propõe, sendo pertinente, não me parece entrar em contradição com o conceito de gestão de impressão. E isso na medida em que a gestão de impressão é sempre um «esforço» ou uma «tentativa» (da parte de quem a tenta) e, por conseguinte, é também um "comportamento a partir de uma análise subjectiva, assente em premissas sobre o “outro” não testadas". Parece-me que as objecções que levanta se dirigem mais à designação do conceito (questão da nomenclatura goffmaniana: gestão de impressão ou administração de impressão), do que ao seu conteúdo. E discordar da designação de um conceito, parece-me, não é sinónimo de discordar do seu conteúdo. Logo, parece-me ser uma questão a um nível epistemológico diferente da que coloca. Conseguintemente, lendo o que escreveu fez-me colocar a questão da pertinência da designação seleccionada por Goffman. E, no que a isso diz respeito, julgo que, de facto, justificar-se-ía uma outra solução.

2. [interesse e preocupação] À questão de eu considerar o fenómeno em causa tanto interessante, de um ponto de vista sociológico, como preocupante, julgo, como disse, já ter respondido anteriormente em resposta a um comentário do Mário. Penso que o fenómeno é, sem dúvida, interessante de um ponto de vista sociológico. O seu interesse não é, todavia, exclusivamente sociológico. Em pessoas com sintomatologias depressivas (ou mesmo perturbações comportamentais e psicopatias), vulneráveis ao que em psicologia clínica se designa de “crises de ansiedade”, a ansiedade do feedback pode ter efeitos nefastos, por amplificar os sintomas a ela associados. Mas, como também sublinhei nesse comentário, essa questão diz respeito à psicologia clínica (e, quiçá, à psiquiatria). Não à sociologia (quer dizer, poderá ser de interesse para algumas formas de sociologia clínica ou aplicada).

3. [tácticas e estratégias] Quando disse existirem outros aspectos além do receio de dar passos em falso e da ansiedade do feedback, estava a pensar designadamente naquilo que Goffman apelida de «perturbações de desempenho» (ele enumera os gestos involuntários, as intromissões inoportunas, as cenas, entre outros). Achei desnecessário mencioná-los, não por uma questão táctica (deixar «pontos de fuga» em aberto), mas para não perturbar a clareza e coerência do argumento. Por conseguinte, esse expediente foi mais uma estratégia de simplificação, do que uma táctica de defesa, por meio da colocação de eventuais «pontos de fuga argumentativos».

Só me resta agradecer ao T. Durden pelos contributos interessantes e construtivos para o debate.

Nota Adicional: Inês Amaral (Conversas de Café) menciona uma notícia sobre um estudo de carácter médico-psiquiátrico em torno do problema do «uso compulsivo da Internet» e da «dependência motivada pela rede». As categorias bio-médicas são sempre de desconfiar... ainda para mais com a crescente «medicalização» das sociedades contemporâneas. Porém, é sempre interessante saber se o nosso comportamento pode ser classificado, ou não, enquanto patológico. E, não obstante a «desconfiança e cepticismo sociológicos», fica a preocupação, já reiterada, com os efeitos potencialmente disruptores da «ansiedade do feedback»...



terça-feira, julho 01, 2003

A Gestão de Impressão e os Blogues (act.) 

Lembro-me de ouvir António Lobo Antunes - julgo que em entrevista com Ana Sousa Dias - dizer que não devíamos acreditar no que dizia nas suas entrevistas, na medida em que estas propiciavam, de uma forma geral, que o autor “posasse para a eternidade” (versão literária, sofisticada e erudita do “posar para a fotografia” futebolístico). “É uma vaidade”, dizia, “a que poucos conseguem escapar”. Há todavia, formas muito díspares de «posar». Lobo Antunes falava, claro, da «gestão de impressão»: conceito desenvolvido por Erving Goffman (1993) para se referir aos esforços das pessoas para gerirem a imagem que os outros têm de si, por meio do controlo das impressões que projectam no(s) outro(s). A premissa fundamental desta noção é, como sugere o psicólogo social Barry Schlenker, a de que “conscientemente ou inconscientemente, as pessoas tentam controlar as imagens que projectam para as audiências, reais ou imaginadas” (Schlenker, 1980: 304).

Julgo ser cada vez mais evidente a presença na blogosfera de dois fenómenos habitualmente associados à gestão de impressão. Falo, designadamente, da «ansiedade do feedback» e do receio de «faux pas». A «a ansiedade do feedback» refere-se ao facto das pessoas mostrarem alguma ansiedade, por vezes obsessiva, com o feedback que recebem dos outros. Não deixa de ser sintomático que não existam - eu, pelo menos, não encontro - blogues sem mecanismos de «feedback» ou «interacção»: os contadores, os sistemas de comentários, os endereços de correio electrónico, os message boards, etc. Aliás, seria interessante poder analisar quantas vezes por dia é que os bloggers verificam as suas caixas de correio, os comentários recebidos ou os contadores. Por sua vez, o receio de «faux pas» reporta-se a um temor face à possibilidade de projectar uma imagem de inconsistência e incongruência (receio de cometer gaffes, de denunciar falta de cultura, etc.) que coloque a própria pessoa em causa. Estes aspectos não são, evidentemente, exclusivos do mundo dos blogues. Pelo contrário. São aspectos habitualmente associados às relações interpessoais e à interacção. O que parece estar a tornar-se característico da blogosfera é a sua amplificação. Este fenómeno é tão interessante, de um ponto de vista sociológico, como preocupante.

Goffman, Erving (1993), A Apresentação do Eu na Vida de Todos os Dias, Lisboa: Relógio D’Água

Schlenker, Barry R. (1980), Impression management, California: Brooks-Cole



Walter Benjamin, a História dos Vencidos e a Guerra Civil Espanhola 

Walter Benjamin (1892-1940) constitui, certamente, um dos expoentes máximos do pensamento germânico do século XX. Personagem central no seio da Escola de Frankfurt, Benjamin foi, seguramente, uma das figuras mais obscuras e enigmáticas da história da filosofia continental. Filósofo singular, ensaísta exímio, critico literário inovador, tradutor de Proust e Baudelaire, escritor e sonetista sombrio, coleccionador e bibliófilo apaixonado, historiador idiossincrático, pensador fragmentário e críptico, crítico de arte e cultura seminal, alegorista melancólico, narrador notável das guerras e revoluções do século XX, Benjamin acabaria por suicidar-se em 1940, na fronteira franco-espanhola, perseguido pela polícia hitleriana, com 48 anos e virtualmente desconhecido. Apenas anos mais tarde viria a transformar-se em ‘figura de culto intelectual’ – venerado por linguistas, críticos culturais, historiadores de arte, poetas e escritores, pensadores pós-modernistas e sociólogos. Esse reconhecimento é devido, sobretudo, aos esforços dos seus amigos Theodor W. Adorno, Hannah Arendt, e Gershom Scholem. Entre as suas inestimáveis contribuições para o pensamento contemporâneo encontra-se uma noção seminal que viria a assumir uma importância ímpar na historiografia moderna: a história dos vencidos.

De acordo com o filósofo germânico, na sua célebre obra ‘Teses sobre a Filosofia da História’ (‘Über den Begriff der Geschichte’) (Benjamin, 1940), tanto o historicismo como a vulgata ortodoxa do marxismo partilham uma concepção linear de história. Assim, diz-nos Benjamin, as historiografias oficiais tendem a evocar o passado, fazendo despertar recordações dominadas por uma temporalidade ordenada e linear e alinhando, desse modo, os acontecimentos de um forma particular. Uma forma que apenas permite que as pessoas se lembrem de uma sucessão distorcida e pré-determinada de eventos passados. A história oficial, segundo Benjamin, não é mais que ficção: uma montagem selectiva de acontecimentos passados num encadeamento linear significante.

Esse argumento do autor teutónico – de que a história oficial constitui uma versão deformada do passado construída no presente – vem de encontro ao trabalho um número crescente e multifacetado de estudiosos que se foram debruçando sobre a problemática da memória (individual e colectiva) e da percepção do tempo. Dessas reflexões resultou a constatação da influência decisiva do presente sobre a percepção do passado, desfigurando-o e distorcendo-o. O sociólogo francês Maurice Halbwachs, na sua célebre obra póstuma ‘La Mémoire Collective’, diria a esse respeito que “a lembrança é em larga medida uma reconstrução do passado com a ajuda de dados emprestados do presente, e além disso, preparada por outras reconstruções feitas em épocas anteriores e de onde a imagem de outrora manifestou-se já bem alterada” (1950: 70). Reflexões mais recentes ampliam essas conclusões sugerindo que não só as condições presentes influem a percepção do passado, mas a própria vivência do presente é influenciada pelos acontecimentos passados e pela percepção desses eventos passados (Connerton, 1993).

Essas propostas vêm, aliás, corroborar a argumentação de Benjamin, no sentido em que tornam evidente a ligação entre a transmissão e conservação da memória social e o poder. Como sustenta Paul Connerton, “não há dúvida de que o controlo da memória de uma sociedade condiciona largamente a hierarquia do poder” (1993: 2), pois, como acrescenta pouco adiante, “as nossas experiências do presente dependem em grande medida do conhecimento que temos do passado e (...) as nossas imagens desse passado servem normalmente para legitimar a ordem social presente.” (1993: 4). Os silêncios da história são, neste sentido, reveladores dos mecanismos e dispositivos de construção social do passado e, portanto, de manipulação da memória colectiva; o esquecimento constitui uma vala comum onde repousam actores e personagens anónimos e episódios e acções marginais, suprimidos e eliminados pelas narrativas históricas ortodoxas e convencionais. E se a memória histórica do passado influencia o presente, o controlo sobre essa memória histórica torna-se um sólido instrumento de dominação. Daí se explicam as violentas lutas, ao longo da história, pelo controlo sobre a memória colectiva e pelo monopólio da «verdade histórica». George Orwell, (1903-1950), conspícuo jornalista e novelista de origem britânica, sintetizou na novela ‘1984’, de forma exemplar, essa complexa relação entre o presente, a percepção do passado e o poder reduzindo-a a um notável axioma: “Who controls the past controls the future: who controls the present controls the past”.

Deste modo, a História, de acordo com Walter Benjamin, reduz-se a uma história enviesada ou, mais concretamente, a uma escritura histórica triunfalista: a uma história dos vencedores, ou melhor, a uma estória dos grupos dominantes. E isto porque a historiografia tendeu, ao longo do tempo, a entrar em intropatia com os vencedores. Neste contexto, o papel do historiógrafo é, de acordo com Benjamin, o de desafiar as representações da história vulgarmente aceites e estabelecidas. A historiografia, nesta perspectiva, deve ser necessariamente crítica e contra-hegemónica: a história, mais do que um facto, deve ser entendida como um problema. Daí que Benjamin apele a que se erga uma outra história, incitando a “escovar a História a contrapelo” (1940: 161), e reiterando a inexorável necessidade de não confundir a História com a narrativa histórica dos grupos dominantes. O perigo, como sublinha o filósofo germânico, é o esquecimento, a deslembrança, o silenciamento da memória, pois “toda a imagem do passado (...) corre o risco de desaparecer com cada instante presente que nela não se reconheceu” (1940: 159).

A salvadora redenção está então, de acordo com Benjamim, em escavar pacientemente o amontoado de ruínas e escombros do passado, recolhendo indícios historiográficos, não para reencontrar o passado como ele foi, mas sim para buscarmos o que nele foi esquecido e abafado: os vestígios que o tempo sufocou, isto é, as personagens e os episódios que foram asfixiados e colocados nas notas de rodapé da história oficial. Os relatos e as memórias recorrentemente negligenciados, omitidos e esquecidos; os pormenores secundários; os detalhes acessórios; as minudências anódinas. É indispensável, diz-nos o autor alemão, reconstruir o passado dos silenciados, dos esquecidos, enfim, dos espoliados da história. É fundamental preservar a memória daqueles que não têm lugar nos manuais de história; salvaguardar os seus testemunhos e depoimentos. É essencial conservar as experiências que narram, os episódios que descrevem, as estorietas que relatam. Benjamin aproxima-se assim de toda uma geração de historiadores, maioritariamente marxistas, que julgaram encontrar na prática da história oral a possibilidade de salvaguardar do esquecimento, a história e a cultura dos grupos dominados. Daí a relevância que atribuía à história oral e à narrativa. Daí a importância que concedia à memória, às lembranças, à recordação, à rememoração, à anamnese. Por conseguinte, os propósitos da filosofia benjaminiana são claros; ela ambiciona ‘fazer a história dos sem história’, ‘dar voz aos sem voz’; ela deseja reescrever a narrativa histórica, erguendo uma contra-história: a ‘história dos vencidos’.

A evocação de Walter Benjamin poderá parecer, à primeira vista, desprovida de pertinência, algo deslocada e, porventura, um tanto ou quanto questionável. Todavia, apesar das fragilidades e limitações da argumentação do autor alemão, é possível extrair de Benjamin um princípio de valor inestimável: juntamente com a história, narrativas e memórias oficiais, coabitam outras histórias, contra-narrativas e contra-memórias que não devem ser elididas sob o risco de desperdiçar a compreensão histórica de determinadas figuras, grupos, sociedades, eventos ou períodos. A melhor ilustração desse valioso princípio encontra-se, quiçá, nas palavras de um velho combatente anónimo da guerra civil espanhola, desconhecido para a historiografia, durante a realização da sua história de vida:

“...no sé yo cuanto le puede importar a usted ésto que le estoy diciendo, no sé si ésto le puede importar a alguien, porque éstas cosas no las cuentan los libros, esto no sale nunca en la historia, pero sabe lo que le digo, ésta es mi verdad.” (Anónimo citado em Santamaria e Marinas, 1999: 257).

Bem vindo Tiago Barbosa Ribeiro (Estudos sobre a Guerra Civil Espanhola).

Benjamin, Walter (1940 [1992]), «Teses sobre a Filosofia da História», Sobre Arte, Técnica, Linguagem e Política, Lisboa: Relógio D’Água, pp. 157-170
Connerton, Paul (1993), Como as Sociedades Recordam, Oeiras: Celta Editora
Halbwachs, Maurice (1950 [1990]), A Memória Coletiva, São Paulo: Vértice
Santamarina, Cristina e José Miguel Marinas (1999), «Historias de Vida e Historia Oral», in Juan Manuel Delgado e Juan Gutiérrez (coord.) (1999), Métodos y Técnicas Cualitativas de Investigación en Ciencias Sociales, Madrid: Sintesis, pp. 257-285

Nota Adicional: Após a publicação deste apontamento, Tiago Barbosa Ribeiro (Estudos sobre a Guerra Civil Espanhola) e José Fernando Guimarães (Incógnito QB) deram sequência ao que aqui foi escrito.



segunda-feira, junho 30, 2003

À Margem: O Saber Sociológico de Jorge Luís Borges 

Nas minhas viagens «arqueológicas» pelos arquivos de alguns blogues, apareceu-me um intrigante axioma: «o blog é o blogueiro» (Luis N., Ene Coisas). Esse apotegma lembrou-me uma passagem notável de Borges:

«Un hombre se propone la tarea de dibujar el mundo. A lo largo de los años puebla un espacio con imágenes de provincias, de reinos, de montañas, de bahías, de naves, de islas, de peces, de habitaciones, de instrumentos, de astros, de caballos y de personas. Poco antes de morir, descubre que ese paciente laberinto de líneas, traza la imagen de su cara.» (Jorge Luis Borges, El Hacedor).

Aquilo que se escolhe mostrar ou elidir, aquilo que queremos ser, é sempre um indicador, uma pista, daquilo que somos. Fica o apontamento.