sábado, julho 12, 2003

A Indústria Cultural do Livro e o Campo da Edição (act.) 

Nelson de Matos (Textos de Contracapa) e Manuel Alberto Valente (Oceanos), ambos editores, trocaram recentemente algumas observações insuspeitamente contundentes sobre a «indústria editorial». Ou melhor, sobre o estado da «indústria editorial» em Portugal. No contexto da análise sociológica, o tema está longe de ser recente e desenvolveu-se, sobretudo, a partir do trabalho seminal de Walter Benjamin em torno da "obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica" e das investigações de Theodor Adorno e Max Horkheimer em redor da questão das "indústrias culturais". Na actualidade, o tema tem sido abundantemente trabalhado no campo da Sociologia da Cultura e, mais especificamente, em três dos seus sub-campos: a Sociologia do Livro e da Leitura, a Sociologia da Literatura e a Sociologia da Edição (esferas, entre nós, representadas por autores como Maria de Lourdes Lima dos Santos, Eduardo de Freitas, José Afonso Furtado ou Jorge M. Martins).

Nesses estudos e investigações tem-se tratado, entre outros fenómenos, das transformações no «campo da edição» tenderem para a transição da hegemonia de um «mercado da oferta» para o predomínio de um «mercado da procura». Com efeito, como notava Fabrice Piault, com estas mudanças "[c]orremos o risco de passar de um «mercado da oferta», em que o espaço da criação se encontra cada vez mais reduzido pelas lógicas de mercado, para um «mercado da procura», que não significa exactamente que o mercado é comandado por uma «lógica» de necessidades efectivas da clientela, mas antes que os constrangimentos próprios dos circuitos comerciais se impõem cada vez mais aos produtores e criadores" (Piault in Furtado, 1995: 83). De facto, se a ênfase na edição tradicional se encontrava no domínio da produção, hoje ela encontra-se claramente na esfera do consumo: a distribuição, a comercialização, o marketing, a promoção, a publicidade, etc. (cf. Martins, 1999; Furtado, 1995). Adicionalmente, convirá sublinhar que os impactes desse fenómeno sobre a própria actividade quotidiana de editores e escritores não são, obviamente, negligenciáveis.

Nelson de Matos e Manuel Alberto Valente parecem viver, com apreensão, estas transformações que fazem com que o livro não seja já (apenas) uma forma de arte, mas também (ou sobretudo) uma mercadoria. É por isso que se referem, com insistência, à necessidade de corresponder às novas "regras da indústria editorial", sustentando economicamente, através da venda de best-sellers e/ou livros mediáticos, a publicação de obras mais «arriscadas» ou previsivelmente «menos rentáveis». "Publica-se o que dá", diz Manuel Alberto Valente com indisfarçável desencanto e desilusão, "para poder publicar-se o que não dá". Dinheiro, entenda-se. E, decerto, não será fácil conciliar uma linha editorial consistente, por um lado, com a exigência de rentabilidade, por outro (para uma compreensão das transformações no campo da edição, consultem-se os Nº126-127 de Março de 1999 e Nº130 de Dezembro de 1999 da revista «Actes de la recherche en sciences sociales», inteiramente consagrados a essa temática).

As palavras de Nelson de Matos e de Manuel Alberto Valente parecem ser, simultaneamente, indicadores de numerosos aspectos: de uma tensão entre uma «cultura cultivada» e uma «cultura de massas»; da reorganização da esfera editorial; da pericialização do campo da edição; do desaparecimento do papel tradicional do editor (hoje, o seu «métier» encontra-se disperso e desagregado por uma rede de actores especializados e há, além do mais, um pequeno conjunto dos chamados «novos intermediários culturais» - penso, designadamente, nos agentes). Parece-me, contudo, que há um aspecto singular - inadvertidamente escondido por detrás desse nostálgico «desencanto» - que tem sido algo negligenciado pela sociologia. Refiro-me ao «declínio da imagem tradicional da profissão de editor». Há não muitas gerações atrás, o trabalho da edição era representado quase como uma forma de arte pelos próprios editores, por leitores e por escritores. De facto, o trabalho laborioso da construção de uma «linha editorial» ou de um «projecto de edição», por meio de um esforço diligente, escrupuloso e minucioso de selecção de obras e de constituição de catálogos era, também, uma arte «nobre». De prestígio. Uma das consequências das transformações no campo da edição foi o declínio dessa representação da «edição-como-uma-arte» e a sua concomitante e progressiva «substituição» pela imagem da «edição-como-um-negócio». Será, talvez, algo abusivo falar de substituição, na medida em que a referida transição esteve, e está, longe de ser linear e absoluta. Na verdade, ambas as imagens co-existem. Mas parece, ainda assim, ser incontroverso constatar a consolidação dessa imagem da «edição-como-um-negócio» (imagem que envolve uma menor «distinção» a nível das representações colectivas, por aparentemente contaminar e poluir o ideal da arte pela arte). E, assim, essa transição parece ter retirado, de alguma forma, parte do «fascínio» e «sedução» usualmente associados à actividade editorial. Quando Nelson de Matos e Manuel Alberto Valente falam do estado da «indústria editorial» em Portugal é também nisso que parecem pensar. E, creio eu, é também disso que gostariam de falar.

Martins, Jorge M. (1999), Marketing do Livro: Materiais para uma Sociologia do Editor Português, Oeiras: Celta
Furtado, José Afonso (1995), O que é o Livro?, Lisboa: Difusão Cultural
«Édition, Éditeurs» (1), Actes de la recherche en sciences sociales, Nº126-127, Março de 1999
«Édition, Éditeurs» (2), Actes de la recherche en sciences sociales, Nº130, Dezembro de 1999

Nota Adicional 1: Jorge Martins, docente do Instituto Politécnico de Tomar e investigador do CIES, encontra-se em fase de conclusão da sua tese de doutoramento no ISCTE, sob a orientação de António Firmino da Costa. "Sociologia do Livro: o Campo da Mediação na Era Digital" é o título provisório da mesma. Será, indubitavelmente, uma obra fundamental para a compreensão do campo da edição na era digital.

Nota Adicional 2: Em reacção a este texto, Manuel Alberto Valente publicou uma nota no Oceanos sobre o assunto. A essa nota seguiu-se um curioso diálogo entre o escritor Franciso José Viegas (Aviz) e o editor Nelson de Matos (Textos de Contracapa), precisamente, sobre as relações entre autores e editores. O diálogo é, de um ponto de vista sociológico, extremamente interessante, na medida em que permite ter uma visão prismática do «art world» literário (a noção de «art world» foi desenvolvida por Howard S. Becker, um dos incontornáveis da análise sociológica). Isto é, permite ter alguma noção das representações, disposições e redes relacionais entre a heterogénea constelação de agentes do campo literário: entre outros, editores, autores, agentes, livreiros (veja-se, já agora, o blogue do livreiro Vincent Bengelsdorf, Bicho Escala Estantes). Entre as mensagens de correio electrónico que recebi a propósito deste texto, quero destacar um comentário atencioso de um dos autores citados no mesmo: José Afonso Furtado, um dos principais investigadores em Portugal no(s) campo(s) em questão (e, actualmente, Director da Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian e docente do Curso de Especialização para Técnicos Editoriais da Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa). Para além de algumas observações, de carácter sociológico, sobre o texto que produzi, o autor menciona os posteriores desenvolvimentos ao seu trabalho na obra «Os Livros e as Leituras. Novas Ecologias da Informação» (Lisboa: Livros e Leituras, 2000) e o seu trabalho mais recente em torno da "temática da edição em ambiente digital, a questão da edição electrónica, os problemas levantados pelas novas formas de relação com o texto e a com a leitura tradicional (...) e pelos novos suportes de leitura.". Existem dois artigos disponíveis online da sua autoria onde estas questões são desenvolvidas: «Livro e Leitura no novo Ambiente Digital» [PDF (302Kb)] e «O Papel e o Pixel» [PDF (3305Kb)] - este último desenvolvido no quadro do projecto ciberscopio.net. Para os interessados em aprofundar o tema e em compreender melhor as ameaças, oportunidades e desafios da edição na era digital são excelentes pontos de partida. Fica a sugestão.



sexta-feira, julho 11, 2003

Observatório: «O que é a INTERNET» (Gustavo Cardoso) 

A colecção «O que é» da Quimera Editores tem publicado alguns pequenos livros introdutórios de cientistas sociais: «Sociologia» de António Firmino da Costa (sociólogo), «Globalização» de Mário Murteira (economista), «Arte» e «Globalização Cultural» de Alexandre Melo (sociólogo), «Psicologia» de Jorge Correia Jesuino (psicólogo social). Foi agora publicado «O que é a Internet» do sociólogo Gustavo Cardoso - porventura, o sociológo que em Portugal mais se tem dedicado à questão do ciberespaço. Assim reza o texto de contracapa: "Neste livro, ensaia-se uma aproximação a alguns dos principais conceitos e realizações criados pela/na Internet, mediante uma abordagem que se propõe problematizar determinadas questões que se colocam quando se fala deste canal de comunicação. Procura-se assim contribuir para uma reflexão mais geral que "à luz da sociologia da informação e da comunicação, bem como da economia dos media" possa debater e assimilar convenientemente os efeitos que a Internet operou nas sociedades do mundo inteiro.". Na obra anterior do autor sublinhem-se o livro «Para uma Sociologia do Ciberespaço» (Oeiras: Celta Editora, 1998) e os artigos «Contributos para uma sociologia do ciberespaço» (Sociologia - Problemas e Práticas, Nº25, 1998) e «As causas das questões ou o Estado à Beira da Sociedade de Informação» (Sociologia - Problemas e Práticas, Nº30, 1999). Fica o apontamento.



quarta-feira, julho 09, 2003

A «Auto-Poiesis» (act.) 

As dificuldades de transformação e a resistência à mudança estão ligadas a uma das propriedades habitualmente associadas à evolução dos sistemas sociais: a «auto-poiesis» (cf. Luhmann, 1995). O conceito «auto-poiesis» (proveniente do grego: «auto», por si mesmo; «poiesis», fazer) foi primeiramente trabalhado pelos biólogos chilenos H. Maturana e F. Varela e posteriormente aplicado aos sistemas sociais através da teoria dos sistemas de Niklas Luhmann (1995). Refere-se, sobretudo, às dinâmicas geradas num sistema que conduzem à sua circularidade, auto-produção, auto-sustentabilidade ou auto-referencialidade. Isto é, de acordo com o autor germânico, os sistemas sociais tendem a fechar-se sobre si, a criar e manter uma lógica de funcionamento virada para o interior e a reproduzir-se continuamente. Este é um problema que inúmeras organizações enfrentam. Muitas vezes, na prossecução das suas actividades uma organização desenvolve uma ritualização de práticas, uma reificação de processos, uma cristalização de procedimentos. Isso conduz, em última instância, a uma sobreposição dos «meios» face aos «fins». A organização existe com o fim de existir: a sua própria existência transforma-se no seu objectivo. Desse modo, num sistema auto-poiético «ser» e «fazer» tornam-se inseparáveis. O sistema tende a organizar-se de forma a que o seu produto seja ele mesmo. Isso não significa que esse fenómeno seja intencional, propositado ou desejado por alguns indivíduos ou grupos, embora o possa ser. Significa, apenas, que a lógica do seu funcionamento tende a sobrepor-se aos fins enunciados.

A administração pública – leia-se a nossa administração pública – é a ilustração típica de um sistema auto-poiético. Os discursos prevalecentes no debate in curso em redor do tema, mais ou menos elaborados e sofisticados, são disso um bom exemplo. Do lado dos apologistas da reforma proposta, a ênfase é colocada a nível da «racionalidade dos serviços». Do lado dos seus detractores, nota-se um centramento na questão dos «direitos dos trabalhadores». Poucos, quase nenhuns, enquadram nos seus discursos o problema dos utilizadores dos serviços públicos. Afinal, a razão destes existirem em primeiro lugar. Sintomático.

Luhmann, Niklas (1995), Social Systems, Stanford: Stanford University Press

Nota Adicional 1: Esta observação em torno da «auto-poiesis» despertou alguns apontamentos críticos de interesse sobre a questão. Tyler Durden, um dos cientistas sociais não praticantes no mundo dos blogues, avançou com uma nota empírica sobre o papel das fantasias de grupo em contexto de resistência à mudança organizacional [texto]. Por seu turno, Carlos de Abreu Amorim (Mata-Mouros) avança com uma análise de algumas características particulares da administração pública em Portugal à luz dos conceitos luhmannianos de “clausura organizacional” e de “lógica auto-referencial” [texto]. São dois pontos interessantes para a prossecução do debate (e vale a pena ler na medida em que são dois textos com uma profundidade analítica admirável).

Nota Adicional 2: Acabou de ser publicada uma colectânea de boas práticas e de estratégias de desenvolvimento e e-Government.
Nazaré, Luís (coord.) (2003), Mudar a Máquina: A Administração Pública na Sociedade de Informação, Lisboa: Associação para a Promoção e Desenvolvimento da Sociedade da Informação [PDF (2,6Mb)]



terça-feira, julho 08, 2003

McLuhan, o Meio e a Mensagem 

Caderno A6, num texto caracterizado por uma sobriedade analítica invejável, chama a atenção para o facto da discussão em torno dos blogues ser, em seu entender, excessivamente prematura. O autor atribui essa «volúpia reflexiva» ao período de euforia que parece caracterizar, tradicionalmente, a introdução e consolidação das inovações tecnológicas. Prematura, segundo o que sugere, devido ao facto de "estarmos em plena época de blogomania". E, como acrescenta, "a blogomania, pouco diz sobre os blogs". O problema deste debate - problema, aliás, ao qual o Socio[B]logue não será alheio - não é apenas o facto de ser algo prematuro. Mas o facto de se concentrar - em excesso - na forma, obnubilando, parcial ou totalmente, o conteúdo. Ou seja, parece haver, neste momento, uma preocupação maior com os blogues, enquanto forma, o que com aquilo de que os blogues falam. Há alguns dias atrás, Torill Elvira Mortensen (Thinking With My Fingers), num contexto diverso do nosso (europa do norte; onde existe uma comunidade de blogues de investigação impressionante), parecia reportar-se à mesma questão. Evocando McLuhan, manifestava alguma preocupação "about the focus being too much turned to the form itself. As if the fact that a message is communicated by way of a blog is more important than the message." [texto]. Relembremo-nos que foi o incontornável Marshall McLuhan quem, ainda em 1964, cunhou a expressão "the medium is the message", naquele que é, sem dúvida, um dos maiores textos clássicos no campo da sociologia da comunicação. Se é evidente que é importante compreender as características deste novo meio e os impactes pessoais e sociais associados à sua utilização, parece ser igualmente óbvio que isso não justifica a sobreposição da forma ao conteúdo. Fica, portanto, a nota de culpa.

McLuhan, Marshall (1964 [1994]), Understanding Media: The Extensions of Man, London: The MIT Press



segunda-feira, julho 07, 2003

Os constrangimentos das linhas editoriais dos blogues (act.) 

Guerra e Pas disse também: “Ocorre-me que podemos mudar de pele. Deixar este e criar outro. Start all over.”. Ler o que escreveu remeteu-me, automaticamente, para um pensamento que me acompanha há algum tempo. Já aqui mencionei as palavras de Ted Nelson quando este preconiza que somos prisioneiros das aplicações que usamos. Mas serão essas as únicas limitações? Creio que não.

Cada blogue, cada bom blogue, parece caracterizar-se, também, por uma coerência (que pode assumir muitas formas: uma «linha editorial», um «conceito», uma «lógica interna», um «modelo», uma «identidade», um «ethos», um «projecto», um «estilo» ou uma «estilização»). Daí que alguns bloggers, como José Pacheco Pereira (Abrupto; Estudos Sobre O Comunismo), Ana Teles (Lua; A Girl’s Thoughts) ou o incansável Pedro Fonseca (Contra Factos & Argumentos; Bolas; Tecnosfera – além do Blogs em pt, em período conturbado de existência) sintam a necessidade de se dividir (ou multiplicar) em dois, ou mais, preferindo várias linhas editoriais, complementares ou alternativas, mas coerentes, a uma única linha pouco consistente. Daí, também, que Jorge Candeias (Trilha de Möbius; Lâmpada Mágica) ou Nuno Jerónimo (Blogue dos Marretas; Diário Interior) possuam, além de um blogues colectivo, um pessoal. Essas opções relativas às linhas editoriais, feitas conscientemente ou não, circunscrevem-nos também a determinados limites. Poderão os blogues de humor sair das suas linhas humorísticas ou sentir-se-ão na obrigação de as respeitar? Poderão os espaços de ciberjornalismo sair dos seus limites auto-impostos? Será que os lugares confessionais e intimistas podem quebrar a sua lógica? Poderão os eruditos, diletantes e os que buscam o prazer da sabedoria (e, portanto, também a sabedoria do prazer), romper a sua coerência? E os fotoblogues? E os blogues literários? Enfim, poderei eu, fazer do Socio[B]logue algo mais que um blogue de observações, reflexões e interrogações sociológicas? Questiono-me, então, se não seremos também coarctados pelas nossas linhas editoriais e, portanto, «prisioneiros» dos limites que nós próprios impusemos aos nossos blogues? É aqui que se joga a ambivalência: se a tecnologia nos oferece oportunidades, também nos estabelece restrições; se o fechamento do ethos do nosso blogue nos abre possibilidades, também nos determina limites.

A questão pode parecer anódina, todavia, esses limites parecem condicionar, de forma decisiva, a forma como nos relacionamos com os nossos blogues (e, portanto, as «ansiedades» a isso associadas).

Nota adicional:
O conhecimento científico é, por natureza, «precário» e «provisório». Existem, porém, situações onde essa precareidade é amplificada. O texto aqui apresentado é disso um bom exemplo. Estamos a caminhar em terreno pouco explorado e, por isso, os «recursos conceptuais interpretativos» são escassos, senão inexistentes. Devido a essa inusitada escassez, o texto acima reproduzido não passa, possivelmente, de uma "especulação sociologicamente informada". Em sociologia é utilizado um pequeno conjunto de expressões depreciativas para designar esse tipo de incursões sociológicas pouco fundamentadas: "sociologia de bolso", "sociologia espontânea", "street corner sociology", etc. O apontamento apresentado parece, então, ser ainda mais «precário» que as reflexões e observações sociológicas que aqui têm sido habitualmente produzidas. Mas, muitas vezes, a precareidade parece ser a única opção. Como agora.

Contudo, essa precareidade inicial parece ter sido mitigada pelo debate que foi tendo lugar nos comentários a este texto. Nesse espaço foram-se discutindo algumas questões que corrigem e completam o argumento acima apresentado. No quadro deste debate deveras produtivo, Jorge Candeias notou que "um blogue acaba por construir-se um pouco como uma história, ou um livro. Um livro deve ter uma qualquer coerência interna para resultar, e nem todas as ideias que o autor tem enquanto escreve podem ser utilizadas na sua construção.". Clara M. pareceu corroborar essa argumentação ao indicar que "[u]m blogue acaba por construir-se um pouco como uma história e, mesmo inconscientemente (em alguns casos, pelo menos), vamos "seleccionando" o que pensamos pertencer-lhe". Foi adicionalmente constatado, por parte do Bruno Sena Martins, que "a disposição dos links de outros blogs por temas poderá contribuir para operar uma cristalização identitária daqilo que venha a ser a sua produção". Luis N., por sua vez, fez notar que "a criatividade exerce-se melhor em limites estritos".

Em suma, de acordo com os resultados provisórios do debate, é necessário notar que a «identidade» de um blogue não é um estado, mas um processo (vai-se constituindo aos poucos). Ademais, essa constituição depende tanto do blogueiro, como da imagem que o blogueiro julga que o «outro» tem de si (nesse sentido, a categorização do outro pode influenciar a auto-classificação do eu). E essa identidade-processo (constituída na dialéctica entre o eu e o outro) constitui tanto uma limitação (por circunscrever aquilo que é afixável e o que não o é), como uma oportunidade (por poder estimular a criatividade). O «esforço colectivo» para aqui chegar foi, a meu ver, entusiasmante.



O Medo (act.) 

(título roubado de Al Berto)
Há uns dias atrás, (Guerra e Pas), um dos espaços mais notáveis da blogosfera, produziu um dos posts mais honestos e bonitos que tive o prazer de ler. Intitulava-se «O Temor». Falava, entre outras coisas, das angústias recorrentes dos blogueiros, daquilo que chamava de “malaise dos blogs” e do facto da “imediatez dos Posts faz[er] dos dias séculos”. Também o Luis N. (ENE Coisas) se referiu ao tema num post recente, ao dizer o seguinte: “não é fácil manter um blogue, e todos os blogueiros o sabem, os que continuam, e os que desistem”. Argumento também reproduzido por José Xavier (Satyricon) ao dizer: "depois de algumas semanas na blogosfera, que parecem anos, o cansaço torna-se evidente" [post]. Apesar da sua raridade, existem alguns artigos científicos onde as mesmas questões são abordadas, no que respeita ao trabalho científico. Entre nós, lembro-me, por exemplo, de um texto notável da antropóloga Maria Cardeira da Silva (1991), justamente intitulado «A angústia do antropólogo no momento do trabalho de campo». E qualquer pessoa que já tenha realizado exercícios etnográficos, mais ou menos complexos e mais ou menos prolongados, sabe do que a autora fala: as hesitações, as incertezas, as dúvidas, as flutuações, as oscilações, etc. No caso do mundo dos blogues, a fenomenologia da experiência quotidiana de um blogueiro passa por questões como a ansiedade do feedback, a ansiedade do post seguinte, a ansiedade provocada pela sensação de incapacidade para exprimir uma determinada imagem imagem do «eu», entre outros.

Estes comentários deixam entrever a existência de uma psicodinâmica particular em determinados tipos de blogues (aparentemente, aqueles mais sujeitos à «ansiedade do post seguinte»). Isto é, parece ser possível determinar a existência de algumas regularidades na evolução das atitudes dos blogueiros face aos seus blogues. Ao entusiasmo inicial, parece suceder uma fase onde é visível uma maior ansiedade do post seguinte (devido quer às próprias expectativas, quer à internalização das expectativas do «outro» - ou atribuídas ao «outro»). É, aliás, curiosa a menção, nestes casos, ao facto do tempo passar «a voar» (os dias, de acordo com os posts referidos, parecem «anos» ou «séculos»).

Apesar desta temática, por si só, merecer uma análise mais aprofundada, há um outro aspecto - menos evidente - que intriga a minha curiosidade sociológica. De facto, há, neste contexto, uma questão que é sociologicamente interessante, mas que parece passar despercebida. Não é curioso que, ao contrário de outras formas de comunicação mediada por computador (CMC), exista uma enorme reflexividade («pensar sobre si próprio») no mundo dos blogues? Isto é, na generalidade das outras formas de CMC não encontramos tanta discussão e reflexão sobre essas formas. Com efeito, nem em CMCs imediatas (IRC, ICQ, Messenger, Chat-Rooms, etc.) nem em CMCs diferidas (Mailing-Lists, Discussion Groups, etc.), encontramos uma reflexividade tão grande. Por vezes, ela nem sequer existe. Ou seja, não é frequente encontrarmos em mailing-lists, discursos sobre as suas potencialidades e limites, sobre os «temores» associados a essas formas, etc. Por conseguinte, resta explicitar que a menção à reflexão da antropóloga Maria Cardeira da Silva não foi arbitrária: aparentemente, a reflexividade nos blogues é de tal forma profunda que se aproxima mais da reflexividade científica do que de outras CMCs. Mas que particularidades terão os blogues, no quadro das CMCs, que justifiquem esta reflexividade? O fenómeno intriga-me.

Cardeira da Silva, Maria (1991), «A angústia do antropólogo no momento do trabalho de campo», Ethnologica, Nº5.



domingo, julho 06, 2003

«L’Écriture Éthopoiétique» e as Entrevistas Imaginárias 

Algures entre os seus trabalhos em torno da emergência histórica do cuidado de si (“le souci de soi”), Foucault debruçou-se, num pequeno texto sombrio e pouco conhecido, sobre a «l´écriture de soi», a escrita de si mesmo, na cultura greco-romana dos séculos I e II D.C.. A escrita de si mesmo caracteriza-se pela meditação, a reflexão, o pensar sobre si mesmo. Enfim, pela elaboração de um discurso sobre o eu. É por isso que Foucault lhe chama uma “écriture éthopoiétique” (2001: 1237): escrita etho-poiética significa que essa escrita é, também, uma forma de constituição do «eu». O «eu» nasce da escrita e do que se diz. São, sobretudo, duas as formas que a escrita de si mesmo assume na cultura greco-romana: a «correspondência» e os «hupomnêmata» (cadernos pessoais que servem de «aide-mémoire», contendo citações, fragmentos de obras, exemplos morais, pequenos pensamentos e reflexões, etc.).

É, aliás, curioso notar como os blogues parecem ser uma combinação dessas duas formas de escrita etho-poiética, articulando elementos da escrita para o outro e da escrita para si mesmo. Veja-se, por exemplo, como a descrição que Foucault faz da correspondência se encontra muito próxima de algumas coisas aqui discutidas a propósito da gestão de impressão e da preocupação em redor do modo como somos percepcionados pelo outro:
Écrire, c’est donc «se montrer», se faire voir, faire apparaître son propre visage auprès de l’autre. Et, par là, il faut comprendre que la lettre est à la fois un regard qu’on porte sur le destinataire (par la missive qu’il reçoit, il se sent regardé) et une manière de se donner à son ragard par ce qu’on lui dit de soi-même.” (Foucault, 2001: 1244)

Mas porquê retomar Foucault? Uma das coisas mais fascinantes no mundo dos blogues é o seu estilo retórico prevalecente, o tipo predominante de escrita etho-poiética (isto só se aplica, evidentemente, a blogues onde há um discurso sobre o eu; os fotoblogues ou os blogues de humor possuem lógicas próprias). Ler alguns blogues, não todos, lembra-me um estilo retórico característico quer dos relatos auto-biográficos, quer das entrevistas de história de vida. Quase como se estivéssemos a assistir a entrevistas imaginárias com interlocutores imaginários (o que foi, aliás, já mencionado pelo Bruno Sena Martins). As pessoas projectam interrogações que gostariam que lhes fossem feitas sobre si e ensaiam respostas, mais ou menos elaboradas, a essas questões imaginárias ou projectadas.

Mas o que estará por trás deste estilo discursivo? O que o justifica? Como interpretá-lo? Julgo que essa forma de escrever se deve, em parte, ao facto de existir, nas sociedades ocidentais contemporâneas, uma grande reflexividade das pessoas face ao seu «eu». E essa reflexividade tem sido muito marcada pela entrevista de cariz biográfico. Com efeito, o ser-se entrevistado hoje é um indicador muito forte de sucesso: de êxito. Secretamente, ou não, parte signiificativa dos blogueiros gostaria de ser entrevistada. Embora seja um fenómeno de interpretação complexa, não é difícil compreender este fascínio pela entrevista. Hodiernamente, as pessoas lêem e vêem muitas entrevistas. E, naturalmente, imaginam-se entrevistadas, projectam-se nos entrevistados e elaboram discursos sobre si mesmas nessas projecções. Há, obviamente, variações: há quem se imagine a conversar com a Ana Sousa Dias, com a Bárbara Guimarães, com a Judite de Sousa ou num confessionário com a Teresa Guilherme. Mas, de um modo geral, as pessoas gostam de falar de si e possuem discursos muito elaborados sobre si mesmas: o que são, o que gostam, as suas experiências de vida, os momentos marcantes, etc... O problema é que há um hiato, uma dissociação, entre os discursos que se elaboram e os meios para os exprimir ou comunicar. Nem todos têm acesso aos meios de comunicação. Nem todos possuem formas de explicitar os discursos elaborados. Parece-me, porventura erroneamente, que o sucesso dos blogues também estará relacionado com esse aspecto: as pessoas possuem, por meio de um blogue, a oportunidade de revelar os seus discursos sobre si mesmas... ou, pelo menos, sobre algo relacionado consigo mesmas.

Mas, claro, isto é apenas uma hipótese. E, como tal, especulativa, pouco consistente e discutível.

Foucault, Michel (2001), «L´Écriture de Soi», Dits et Écrits, 1954-1988, Volume II (1976-1988), Paris: Gallimard, pp. 1234-1249