quinta-feira, julho 17, 2003

Os Anormais, o Humor e os Estados-de-Espírito: Apontamentos Breves 

Um pouco por toda a blogosfera têm ecoado, nos últimos dias, rumores de indignação, mais ou menos enfáticos, devido à aparição de um deficiente mental no programa televisivo Herman SIC. Até agora, o que se disse sobre o tema tem secundarizado - e frequentemente omitido - duas questões de relevo.

1. Nos discursos de parte significativa das pessoas que se referiram ao tema é curioso encontrar, com uma frequência surpreendente, referências à existência, no passado, de episódios análogos a esse. Importa questionar, face a este paradoxo aparente, porque é que a indignação anteriormente sentida não foi (então) suficientemente forte para despoletar as reacções agora exteriorizadas?

No campo da Sociologia, há em Portugal um investigador que tem procurado explorar estes «sobressaltos inesperados de indignação» e estas «alterações súbitas dos estados emocionais colectivos». Falo, designadamente, de António Pedro Dores, investigador do CIES/ ISCTE, e da sua tentativa de desenvolver um quadro de referência teórico-conceptual para enquadrar e interpretar estes fenómenos singulares. Com esse propósito, o autor tem vindo a elaborar, com base nas suas pesquisas sobre a questão prisional, uma proposta em torno do conceito de «estados-de-espírito». Segundo o autor, "[e]stados-de-espírito são sistemas de disposições alternativos e abstractos, ao mesmo tempo independentes e imanentes de pessoas, povoações e instituições (com os seus hábitos sociais particulares) adoptáveis temporariamente por qualquer dessas instâncias sociais, conscientemente ou não, intencionalmente ou não, em associação com sistemas de razões mais ou menos desenvolvidas, sólidas e abertas a novos desenvolvimentos." (nota: esta definição é provisória e, por isso, deve ser entendida como um «work-in-progress»; ela encontra-se num trabalho não publicado do autor, provisoriamente intitulado «Espírito Proibicionista»).

Do confronto entre o problema referido e a conceptualização de António Pedro Dores resulta a colocação de algumas interrogações: Como compreender que estas ondas de indignação surjam apenas agora? De que modo interpretar a dissociação entre o silêncio pretérito e a actual explosão de interesse no tema? O que justifica a alteração súbita dos «estados emocionais colectivos» face a esta interrogação? Estas questões permanecem, por enquanto, sem respostas convincentes. É, decerto, possível encontrar alguns factores que justificam, ainda que de uma forma parcial, a modificação do estado-de-espírito dominante (a moralização do tema; a formação de um dinamismo de «pack mentality»; a inversão da imagem pública da pessoa em causa; etc.). Mais difícil, bem mais difícil, é explicar porque é que estes factores não surgiram antes.

2. Além do episódio relatado ser interessante do ponto de vista da formação súbita de «estados emocionais colectivos», ele possui também indícios, não negligenciáveis, dos discursos sobre a deficiência e as pessoas deficientes nas sociedades contemporâneas. Michel Foucault explorou esse tópico, ainda que de uma forma marginal, num dos seus famosos cursos no Collège de France: «Les Anormaux (1974-1975)» [Esses textos notáveis têm sido paulatinamente publicados nos últimos anos pela Gallimard/Seuil. Até agora foram editados três volumes: «Les Anormaux»; «L'Hermeneutique du Sujet» e «Il Faut Défendre la Société». Estes textos têm sido traduzidos para português pela editora brasileira Martins Fontes.] Na sua «archéologie de l'anormalité» (1975, 1999), Foucault havia já exposto a heterogeneidade e variabilidade histórica nas representações e discursos sobre a «anormalidade», as «doenças mentais» e as «deficiências» (embora - frise-se - isso ocupe um lugar relativamente marginal no seu argumento). Extrapolando o trabalho seminal de Foucault, é possível notar, na contemporaneidade, a coexistência de duas imagens ou representações da «anormalidade» diversas. Por um lado, a figura do deficiente é «desumanizada» (associada a uma imagem desagradável, ímpia e pérfida). E, por isso, alvo de escárnio, troça ou hostilidade. Por outro lado, subsiste a imagem inversa, assente numa representação vitimizada e infantilizada das pessoas deficientes (a que se associa uma imagem de inocência, inculpabilidade, ingenuidade, integridade e pureza). E, por conseguinte, alvos de pena, enternecimento e compaixão.

Nos tempos que correm, a representação pública da anormalidade tende a oscilar entre estes dois pólos antagónicos. Essa tensão entre as duas extremidades tem sido explorada por uma série de autores que têm trabalhado a relação entre o humor e a deficiência, mostrando a tensão entre o cómico e o trágico. Veja-se, por exemplo, o número especial da revista Body & Society - publicação notável, editada por Mike Featherstone e Bryan S. Turner - dedicado ao tema da relação entre humor e deficiência (Vol.5, Nº4, 1995). Consultem-se, a este respeito, os textos de Ian Stronach e Julie Allan (1995), de Tom Shakespeare (1995), de Albert Robillard (1995), de Gary L. Albrecht (1995) e de Marian Corker (1995). Dessa dualização das imagens da deficiência são exemplificativas as palavras contundentes de Tom Shakespeare: "There is a tension, in the history of disability and comedy, between open amusement at the predicament of the physically different, and a civilizing process which would banish such voyeurism and prejudice." (1995: 48).

O caso em causa é, talvez, o melhor exemplo desta coexistência tensa entre as duas imagens. O deficiente mental em questão possuiu, nos últimos meses, a imagem pública de um «perfeito anormal» (que lhe valeu o epíteto de «emplastro», um website, aparições em programas televisivos, um número dificilmente contabilizável de montagens fotográficas, etc.). A participação no Herman SIC parece ter invertido essa imagem, tornando-o, extemporânea e inesperadamente, uma vítima inocente - alvo incauto de aproveitamentos alheios (note-se a súbita alteração do logotipo do Blogue dos Marretas). Esta transformação abrupta da imagem pública da pessoa em causa, não deixa de ser curiosa de um ponto de vista sociológico.

Há, todavia, um nexo comum entre as duas posições (a cómica e a trágica): ambas objectificam o deficiente. Ou seja, a pessoa deficiente é claramente definida como um Outro. Ela não é como nós e, portanto, ela não é um de nós. O que parece ir, de alguma forma, ao encontro do argumento de Tom Shakespeare: "The comic stereotype of the disabled fool or clown is part of a pattern of cultural representation which always maintains physically different people as other, as alien, as the object of curiosity or hostility or pity, rather than as part of the group. "We" are always laughing at "them" or "him/her" or even "it"." (Shakespeare, 1995: 49) [o argumento de Shakespeare dirige-se a deficientes físicos, mas o que diz pode ser alargado também a deficientes mentais]. Com efeito, quer seja alvo de troça ou de pena, a pessoa deficiente está, quase sempre, do outro lado.

Albrecht, Gary L. (1995), «Disability Humor: What's in a Joke?», Body & Society, Vol.5, Nº4, pp. 67-74 [ PDF (135Kb)]
Corker, Marian (1995), «'Disability' - The Unwelcome Ghost at the Banquet ... and the Conspiracy of 'Normality'», Body & Society, Vol.5, Nº4, pp. 74- [PDF (141Kb)]
Dores, António Pedro (2003), Espírito Proibicionista, (não publicado)
Foucault, Michel (1975 [2001]), «Les Anormaux», Dits et Écrits, 1954-1988, Volume I (1954-1975) , Paris: Gallimard, pp. 1690-1696
Foucault, Michel (1999), Les Anormaux: Cours au Collège de France, 1974-1975, Paris: Gallimard/Seuil.
Robillard, Albert B. (1995), «Wild Phenomena and Disability Jokes», Body & Society, Vol.5, Nº4, pp. 61-66 [PDF (95Kb)]
Shakespeare, Tom (1995), «Joking a Part», Body & Society, Vol.5, Nº4, pp. 47-53 [ PDF (104Kb)]
Stronach, Ian e Julie Allan (1995), «Joking with Disability: What's the Difference between the Comic and the Tragic in Disability Discourses? », Body & Society, Vol.5, Nº4, pp. 31-46 [PDF (201Kb)]

Nota Adicional 1: Embora não esteja directamente relacionado com o tema em questão, Guerra e Pas produziu uma nota muito interessante sobre a romantização da doença mental e a estetização da loucura. Vale a pena ler com atenção.

Nota Adicional 2: Leiam o que escreve o Pedro (icosaedro) numa nota sobre este assunto. Sublinhe-se, primacialmente, a coragem do mea culpa. A sua observação é também interessante no sentido em que mostra como o programa Herman SIC e as reacções que provocou fizeram alterar publicamente a «natureza» da pessoa em causa - que de "deficiente" passou a deficiente (tópico abordado na segunda parte deste texto).

Nota Adicional 3: José Pacheco Pereira (Abrupto) interpela-me no sentido de mostrar como algumas formas de problematização sociológica, como a que ensaiei, podem ser desarmantes. E, neste caso, tem razão. Porém, gostaria de frisar que estamos a falar de «algumas formas de problematização sociológica» e não mais do que isso. Mas saindo do plano meta-discursivo para o plano ético ou político (em sentido abrangente), eu penso o seguinte: é lamentável o que aconteceu. Embora este caso tenha sido, por muitas pessoas, comparado com casos anteriores, julgo que é de natureza diferente. E por uma razão simples: nesses casos anteriores houve uma utilização recíproca (uma economia de bens simbólicos, um sistema social de dádiva/ contra-dádiva). Ou seja, as pessoas em causa (Linda Reis, José Esteves, Alexandrino, etc.) foram tão usadas pelo programa, como se aproveitaram dele. Há uma consciência evidente da troca. No caso em questão isso não acontece, na medida em que o deficiente mental em causa não parece ter noção da «troca» que lhe propõem. E isso deve ser, obviamente, condenado. Veementemente condenado. Mas não basta fazer de Herman José e do Herman SIC os bodes expiatórios da nossa indignação, quando o que ali aconteceu é a expressão pública, amplificada e distorcida, daquilo que se passa dentro de nós, de todos nós, e da ambivalência com que tratamos a «anormalidade». Sem uma auto-condenação pela objectificação e coisificação dos deficientes em geral (por via da troça ou da pena, as duas faces da moeda), de nada vale condenar um programa televisivo. Neste sentido o Pedro (icosaedro) foi a pessoa mais corajosa, pois não apenas condenou o outro, mas a si próprio. Ademais, convém notar que há uma linha muito ténue a separar o respeito e a pena. O respeito é desejável. A pena não. E pior: em casos como este constitui uma tarefa hercúlea evitar a pena (eu, pelo menos, acho que nunca o consegui fazer devidamente). Por conseguinte, fica a condenação... e a auto-condenação.

Nota Adicional 4: O meu amigo Bruno (Avatares de um Desejo) desenvolveu este tema num texto intitulado «Para além do "emplastro"», onde tece algumas considerações sobre a problemática geral da deficiência nas sociedades contemporâneas. Entre outros aspectos o Bruno faz notar que "[a] alusão à invisibilidade não equivale a dizer que as pessoas com deficiência não são evocadas na cultura mediática, mas sim que, quando são, ocupam o lugar de signos, de mensagens que tomam a forma de estereótipos culturalmente sedimentados". Ademais, o Bruno mostra como o complexo encadeamento de efeitos resultantes desses estereótipos resultam numa espécie de auto-fechamento das pessoas deficientes. Como explica, a "projecção de tragédia e a sistemática asserção de incapacidade, de mãos dadas com a letra morta da igualdade de oportunidades, produzem uma meta-narrativa na vida da pessoa com deficiência, sujeitando-as ao fechamento da “narrativa da tragédia pessoal”. Vale a pena ler.