domingo, julho 27, 2003

A Ciência e o Poder 

Foram recentemente publicitados os resultados do Estudo Global do Futebol Português realizado pela D&T (Deloitte & Touch) por encomenda da Liga de Clubes (como noticiado por vários órgãos de imprensa durante a semana e ontem no Expresso numa peça intitulada Futebol com Novo Guião). Segundo se diz, o estudo é particularmente exaustivo e, embora não adiante nada que já não se saiba, estabelece-se como uma referência para a reorganização do mundo do futebol. O diagnóstico aponta para os problemas do costume: desequilíbrio financeiro; sistemas de controlo e gestão deficientes; desalinhamento entre as políticas salariais e a capacidade financeira dos clubes; hiato entre receitas e encargos; recorrentes incumprimentos salariais e fiscais; etc. A solução integrada proposta pela equipa de consultores da D&T passa pela potenciação de novas fontes de receitas; a reformulação do modelo desportivo; a adopção de políticas desportivas mais racionais; a adopção de tectos para as despesas; a aposta na formação; o investimento na especialização dos agentes; entre outros. Num exercício hermenêutico notável, Valentim Loureiro, presidente da Liga de Clubes, veio ontem dizer a público que em virtude das "conclusões" apontadas no estudo (peso do futebol no PIB, no mercado de emprego e enquanto produto-bandeira nacional) era necessário que o Estado satisfizesse uma extensa lista de reinvindicações.

Neste caso trata-se de uma empresa de consultoria e auditoria, mas episódios análogos ou similares são frequentes em estudos de carácter científico. O episódio em questão parece irrelevante: inócuo. Não é. O episódio relatado é sintomático de uma determinada atitude face ao conhecimento produzido pelos «especialistas». Uma atitude - frise-se - particularmente frequente entre nós. Os sistemas abstractos como os saberes especializados e a ciência possuem, apesar de tudo, uma capacidade de legitimação considerável nas sociedades contemporâneas. Veja-se, a título exemplificativo, o próprio caso do Socio[B]logue na blogosfera e o modo como existe, por parte de algumas pessoas, alguma deferência face ao que aqui é escrito, apesar de todas as indicações face às suas limitações e carácter não científico. Apesar da presença de uma atitude ambivalente face à ciência nas sociedades contemporâneas - entre a reverência e a dúvida, como dizia Maria Eduarda Gonçalves (2002) -, os consultores científicos ocupam, ainda, uma posição priviligiada quando se trata de legitimar decisões e posições de índole política [para um entendimento da posição da ciência na contemporaneidade, consultar os volumes colectivos organizados por Maria Eduarda Gonçalves (1993, 1996, 2000, 2002) e João Arriscado Nunes e Maria Eduarda Gonçalves (2001)]. Mas não é a questão da legitimação de que me quero ocupar. É da atitude. Pela sua representação simbólica enquanto um saber independente, autónomo e neutral axiologicamente (resquícios positivistas), a ciência emerge como o parceiro ideal no processo de legitimação de decisões políticas. Isso faz com que existam, frequentemente, tentativas de apropriação abusivas desse conhecimento por parte de agentes políticos. A forma como Valentim Loureiro descartou o núcleo central da proposta da D&T para a reorganização da esfera do futebol e aproveitou alguns dados dispersos apresentados no estudo para apresentar as suas reinvidicações como se fossem esses os primaciais resultados do estudo é uma atitude comum entre nós. Excessivamente comum. Mas, de longe, o mais interessante sociologicamente é constatar como é frequente o silêncio dos «especialistas» face a essas apropriações abusivas e indevidas. Trata-se, porventura, um dos efeitos da dependência económica, bem o sei. E, levando isso em consideração, não é irrelevante que sempre que surgem estas «apropriações criativas», geralmente, pouco ou nada se ouve dos «especialistas» - e isto apesar do assinalável volume de produção no campo da sociologia da ciência, onde algumas destas questões são afloradas, com maior ou menor profundidade (cf. Gonçalves, 1993, 1996, 2000, 2002; Nunes e Gonçalves, 2001). É mais um daqueles silêncios ensurdecedores.

Gonçalves, Maria Eduarda (coord.) (1993), Comunidade Científica e Poder, Lisboa: Edições 70.
Gonçalves, Maria Eduarda (org.) (1996), Ciência e Democracia, Venda Nova, Bertrand
Gonçalves, Maria Eduarda (org.) (2000), Cultura Científica e Participação Pública, Oeiras, Celta
Gonçalves, Maria Eduarda (org.) (2002), Os Portugueses e a Ciência: Entre a Reverência e a Dúvida, Lisboa: Dom Quixote.
Nunes, João Arriscado e Maria Eduarda Gonçalves (org.) (2001), Enteados de Galileu?: A Semiperiferia no Sistema Mundial da Ciência, Porto: Edições Afrontamento

sexta-feira, julho 25, 2003

GLO: Intradução 

Intradução. Os livros, como outros produtos culturais, podem ser exportados ou importados. Essa importação ou exportação pode ser feita por meio de originais ou através de tradução. Intradução refere-se à importação literária sob a forma de tradução. Inversamente, a extradução reporta-se à exportação sob a forma de tradução. Portugal, por exemplo, é, tradicionalmente, um país com uma elevada taxa de intradução, por oposição a países cujas taxas de intradução são exíguas como, por exemplo, o Reino Unido ou os Estados Unidos da América. Este termo é aplicado nos campos da sociologia da edição, do livro e da literatura e foi desenvolvido por autores como Pascale Casanova ou Joseph Jurt, entre outros.

As Caixas de Ferramentas e os Operários 

José Bragança de Miranda (Reflexos de Azul Eléctrico), autor consagrado no campo da Sociologia da Comunicação e blogger proeminente (e prolixo), dedicou, recentemente, algumas linhas esparsas a Michel Foucault. Mais especificamente, o autor debruçou-se sobre a conhecida analogia onde Foucault compara o seu trabalho com a construção de uma pequena «caixa de ferramentas» [texto]. Bragança de Miranda parece reportar-se a uma mítica entrevista do autor francês com R.-P. Droit, publicada no diário francês Le Monde, a 21 de Fevereiro de 1975. Foucault concluiu então essa entrevista sugerindo que "un livre est fait pour servir à des usages non définis par celui qui l'a écrit". Logo acrescentou: "tous mes livres (...) sont, si vous voulez, de petites boîtes à outils", exortando de seguida os seus leitores a "les ouvrir, se servir de telle phrase, telle idée, telle analyse" (Foucault, 1975: 1588).

Bragança de Miranda promove, a partir de Foucault, um exercício reflexivo onde explora essa analogia da relação entre as ferramentas (os instrumentos conceptuais ou as formulações teóricas) e os operários (os investigadores). E, como sublinha o autor, incisivamente, "há operários e operários". Concretizando:

"Aqueles que estão de mãos à obra e têm a intuição suficiente para ir buscar a ferramenta certa na caixa que têm ao lado, e ao longo do trabalho vão desarrumando a caixa sem nunca perderem o sentido da ferramenta, indo com mão segura buscá-la, tacteando com certeza, sem precisar de olhar para ela. No fim do dia a caixa está toda desarrumada, e o servente de operário vai arrumar as ferramentas por espécies, tamanhos e funções, de modo a se poder continuar a trabalhar. Existem ainda outro tipo de operários que gastam o tempo a arrumar a caixa, são contra a desordem que baralha todas as ferramentas e criam sistemas para que o desarrumar seja controlado ou seja impossível. A caixa está bem arrumada... mas a obra não chega a começar. São operários... teóricos.".

As palavras de Bragança de Miranda não são somente significativas do ponto de vista da análise do trabalho dos investigadores. Com efeito, elas exemplificam, também, uma atitude que foi emergindo, sensivelmente, no último quarto de século do século XX. O que passou. Entre nós, o expoente máximo dessa atitude é, talvez, José Machado Pais, devido - primacialmente - à forma inovadora e original como utiliza as formulações teóricas e conceptuais de forma criativa enquanto instrumentos heurísticos de pesquisa. Assim, o autor contrapõe à convencional "cultura de finalidade" uma "cultura de recriação", isto é, ele suplanta a utilização da teoria numa "lógica demonstrativa (finalista)" por meio do seu uso numa "lógica de descoberta (criativa)" (Pais, 2001: 103). Essa postura «criativa» não é, todavia, pacífica. Longe disso. De facto, muitos autores olham com desconfiança para «apropriações excessivamente criativas» dos produtos do seu labor. Curiosamente, ou não, encontramos em Foucault o inverso dessa atitude. Disso é emblemática a sua célebre abertura do curso de 1976 no Collége de France, "Il Faut Defendre la Sociétè". Dizia então aos seus numerosos ouvintes:

"...considero-os inteiramente livres para fazer, com o que eu digo, o que quiserem. São pistas de pesquisa, idéias, esquemas, pontilhados, instrumentos: façam com isso o que quiserem. No limite, isso me interessa, e isso não me diz respeito. Isso não me diz respeito, na medida em que não tenho de estabelecer leis para a utilização que vocês lhes dão. E isso não me interessa, na medida em que, de uma maneira ou de outra, isso se relaciona, isso está ligado ao que eu faço." (Foucault, 2000: 4)

Bragança de Miranda, na sua análise dos «tipos de operários», esqueceu-se de mencionar aqueles que gostam de partilhar as suas caixas de ferramentas. Não é, porventura, difícil de perceber porquê. Não há muitos.

Foucault, Michel (1975), «Des supplices aux cellules» (Entrevista com R.-P. Droit), in Michel Foucault (2001), Dits et Écrits, 1954-1988, Volume I (1954-1975), Paris: Gallimard, pp. 1584-1588.
Foucault, Michel (2000), Em Defesa da Sociedade, São Paulo: Martins Fontes.
Pais, José Machado (2001), Ganchos, Tachos e Biscates: Jovens, Trabalho e Futuro, Porto: Âmbar.

Nota Adicional 1: Bragança de Miranda (Reflexos de Azul Eléctrico) desenvolveu já o argumento que antes produzira. Voltando à caixa faz notar como esta "é ainda uma ilusão de coerência, pois a ter sentido acaba por se confundir com a totalidade da existência". Conclui dizendo: "Os que pensam poder compartilhar a caixa são teóricos da «caixa», sempre demasiado lentos quando a ocasião irrompe. Aqueles que, nesse preciso instante, estiverem juntos encontrarão as ferramentas de que estão precisados. Ou não...". É perante palavras como estas que o Socio[B]logue se sente pequenino. Minúsculo.

Nota Adicional 2: Saiu agora o terceiro número da revista Surveillance & Society. É um número temático intitulado «Foucault and Panopticism Revisited». Quem se interessa pelas questões do «controlo social», do «panopticismo» e da «vigilância» encontra ali alguns artigos interessantes.

quinta-feira, julho 24, 2003

GLO: Sociologia 

Sociologia. "[Sociologia é] o que fazem os sociólogos" (Costa, 1992: 9).
Costa, António Firmino da (1992), Sociologia, Lisboa: Difusão Cultural.

À Margem: Socio[B]logue - Começar de Novo (act) 

O Socio[B]logue, depois de um breve interregno introspectivo, está de volta aos textos regulares. Regressa, também, com uma imagem renovada, uma nova filosofia e uma nóvel lógica de funcionamento. Além das reflexões e observações habituais, o Socio[B]logue inaugura, também, espaços novos. Regulares.

Antes, porém, das novidades impõe-se uma clarificação daquilo que o Socio[B]logue é (ou melhor, daquilo que tem vindo a ser), na medida em que parece subsistir, em algumas das mensagens que recebo, alguma nebulosidade face aos propósitos deste blogue. O Socio[B]logue não é um espaço "científico". Está, na realidade, longe de o ser. A ciência rege-se por métodos, procedimentos e protocolos bem definidos que não se compadecem com imediatismos (neste caso não existem mecanismos de controlo metodológicos, o «peer review», etc.). O Socio[B]logue é, apenas, um espaço que procura produzir observações sociologicamente informadas sobre determinados fenómenos à medida das suas limitações. As minhas, entenda-se. O seu primacial propósito é, portanto, o de funcionar enquanto uma espécie de laboratório de experimentação sociológica. E não tem pretensões de ser algo mais do que isso. Essa opção implica, evidentemente, algumas reservas face ao que aqui é escrito, devido, primacialmente, à precareidade do conhecimento aqui produzido e apresentado. Por conseguinte, este espaço é apenas um albúm heterogéneo e assiduamente desordenado de reflexões, notas, apontamentos, notações, observações, considerações, impressões, comentários, indicações, pistas de pesquisa, interrogações, questões, problemas, curiosidades, informações, esboços, fragmentos, experiências, experimentações e escritos de gaveta sociológicos. Isto é, sociologicamente informados. Francisco José Viegas, em tempos, referiu-se a isso como «fazer sociologia em directo» [texto]. Em sociologia designamo-lo por «street corner sociology», «sociologia de bolso», «sociologia espontânea» (Pierre Bourdieu) ou «sociologia portátil» (Claude Javeau). A produção de conhecimento sociológico, científico, encontra-se nos antípodas do que aqui se faz. Demora, geralmente, longos meses ou anos a ser preparada e levada a cabo. Implica, por isso, um trabalho meticuloso, moroso, contínuo e aprofundado. Árduo. Envolve, também, um conhecimento muito especializado e extensivo sobre um determinado tema, um campo de saber e/ou um objecto de estudo. Todavia, no decurso desses longos processos de investigação vão sendo produzidas inúmeras observações sobre outros temas (contíguos, análogos, transversais, paralelos, marginais, etc.) que assumem a forma de pistas de pesquisa para projectos posteriores; observações esporádicas de interesse; curiosidades; etc. Essas impressões ficam, quase invariavelmente, perdidas na espuma dos dias, escondidas em gavetas sombrias ou relegadas para as margens e notas de pé de página das nossas vidas de todos os dias. Quase tudo o que publico no Socio[B]logue são observações dessa natureza - marginais e periféricas às minhas próprias preocupações sociológicas. Assim, quase tudo o que está contido no blogue são temas sobre os quais possuo um conhecimento algo limitado, tanto em termos de fundamentação teórica, como de conhecimento empírico. E essas limitações são devidas não somente à minha condição de aprendiz de sociólogo, mas também às próprias características deste espaço. Fica a clarificação.

Como já foi referido, além das reflexões e observações habituais, o Socio[B]logue introduz agora alguns «aperfeiçoamentos».

*Glo [Glossário]: De periodicidade diária. Diariamente será afixada uma breve defiinção de um conceito sociológico ou antropológico. A fonte de inspiração para este espaço encontra-se num dos blogues no qual o Socio[B]logue se fundamentou inicialmente - sem dúvida, um dos melhores e um dos mais citados mundialmente. Falo de How to learn Swedish in 1000 difficult lessons do jornalista norte-americano Francis Strand. Actualmente a residir em Estocolmo na Suécia com o seu companheiro, Strand apresenta sempre, juntamente com os seus textos, a definição de uma palavra ou expressão sueca. Assim, não só reflecte a sua aprendizagem da língua, como vai partilhando esse processo com os seus leitores. Essa ideia parece ser, aliás, um óptimo veículo de aprendizagem (auto e hetero). E, por isso, o Socio[B]logue procura transpô-la para o campo sociológico. As definições apresentadas serão, habitualmente, retiradas de dicionários de sociologia, de glossários existentes ou consistirão em definições originais (sempre que não se tratarem de originais a fonte é, obviamente, indicada).
*Liv [Livro da Semana]: De periodicidade semanal. Será apresentado, todas as semanas, um livro no campo das ciências sociais, juntamente com uma breve recensão sobre o mesmo.
*Bib [Bibliografia]: De periodicidade quinzenal. De quinze em quinze dias será afixada uma pequena bibliografia sobre um tema, um objecto de estudo ou um campo sociológico.
*Bio [Biografia]: De periodicidade mensal. Todos os meses será exposta uma pequena biografia de um autor no campo das ciências sociais.
*De vez em quando existirão semanas temáticas onde se procurará que exista uma consistência e uma temática comum em parte significativa dos posts, livros recomendados, bibliografias e entradas do glossário.

Será inusitado recordar que serão bem vindos quaisquer contributos e/ou sugestões para estes novos espaços.

Nota adicional 1: Joaquim Paulo Nogueira (Respirar o Mesmo Ar) criou agora um blogue intitulado Metablogue. O Metablogue pretende ser um observatório de discursos metabloguistas, ou melhor, uma espécie de arquivo do metabloguismo: um espaço que procurará ir registando e arquivando os textos e os debates sobre a blogosfera e o mundo dos blogues. O autor convidou-me para o ajudar - o que aceitei prontamente. Espera-se que seja uma ferramenta útil para quem deseja pensar sobre o mundo dos blogues.

Nota adicional 2: Nos próximos dias os textos terão uma cadência maior que a habitual de modo a colocar a escrita em dia (estou em dívida para com o Pedro Fonseca, a Isabel Tilly, o Pedro Sanches e o Mário Pires). Tenho, ainda, que desculpar por este período de maior inconstância e descontinuidade.