sexta-feira, agosto 01, 2003

Insensatez 

O trabalho sociológico, como o da generalidade das restantes ciências sociais, é esgotante. A adjectivação não é boa, bem sei. Mas justifica-se. É deveras difícil explicar a alguém, sem um grande conhecimento do campo, o investimento necessário para a produção de uma investigação empírica consistente. É necessário um trabalho moroso, persistente e cansativo de exploração bibliográfica; de construção de instrumentos de observação e recolha de informação; de recolha de informação; de análise e interpretação dos materiais recolhidos; de redacção e revisão textual. A isso, juntam-se as inflexões constantes, as reformulações contínuas, as restruturações permanentes. As semanas passam a correr. Depois os meses. Por vezes, vezes demais, os anos. O trabalho sociológico envolve uma disciplina da parte do investigador. Monástica. Austera. Intransigente. Nesse processo, nesse longo processo, vão-se acumulando inúmeras ideias peregrinas, reflexões marginais, observações periféricas, pistas de pesquisa improváveis, escritos de gaveta acidentais. Essas notações permanecem, quase sempre, na obscuridade. Por vezes, a obscuridade é injusta: quando as observações são pertinentes mas desenquadradas, desajustadas ou díssonas do objecto em estudo. Outras vezes, ela é protectora: sempre que elide cogitações insensatas que nunca deveriam sair da sombra. Reli agora alguns dos textos mais antigos do Socio[B]logue. Fico, à vez, envaidecido e embaraçado. Envaidecido com os improvisos acertados. Embaraçado com o pretensiosismo verboso. A adjectivação não é boa, bem sei. Mas justifica-se.

Nota adicional: Este texto vai ser dos embaraçosos. É inevitável.

GLO: Ludismo 

Ludismo. Termo utilizado para classificar a atitude daqueles que estão contra a inovação tecnológica. Essa atitude de resistência à mudança possui diversas motivações. A principal razão invocada é, habitualmente, a ameaça de desumanização que, de acordo com essas pessoas, a inovação tecnológica implica. O termo ludismo reporta-se, originalmente, a um movimento social organizado contra a tecnologia que teve lugar no século XIX, entre 1811 e 1816, em Inglaterra. Deram-se, então, uma série de motins levados a cabo por parte dos membros desse movimento. Essas manifestações eram, usualmente, agressivas e violentas e culminavam, assiduamente, na destruição de maquinaria têxtil. Esses actos hostis eram justificados pela consideração, por parte desses grupos, que a introdução e generalização da maquinaria têxtil iria contribuir, inevitavelmente, para o desemprego em massa. Por vezes, fala-se de neo-luditas e de Neoludismo para falar das atitudes das pessoas e dos grupos sociais que revelam atitudes de grande resistência no que respeita à introdução de novas tecnologias nas sociedades contemporâneas.

quinta-feira, julho 31, 2003

FYI: «Novas Formas de Mobilização Popular» - José Rebelo (coord.) 

Em Outubro de 2001, teve lugar no ISCTE, em Lisboa, um colóquio internacional subordinado ao tema das «Novas Formas de Mobilização Popular». Esse colóquio, organizado pelo sociólogo José Rebelo, reuniu, entre outros, um número assinalável de investigadores no campo das ciências sociais e humanas debruçados em torno da questão dos novos movimentos sociais. Entre os intervenientes pontificavam Michel Wieviorka, Manuel Carvalho da Silva, Muniz Sodré, Vítor Matias Ferreira, Raquel Paiva, Diana Andringa, David Miranda, Mario Diani, Gustavo Cardoso, Pedro Pereira Neto, João Coutinho Ferreira, Pedro Dionísio, Pedro Bacelar de Vasconcelos, António Cluny, Jean-Pierre Dubois, Maria Eduarda Gonçalves, António Pedro Dores, João Arriscado Nunes, Viriato Soromenho-Marques, Joaquim Gil Nave, A. Fernando Cascais, Carolino Monteiro, Conceição Lopes e ldalina Conde. Saiu agora na Campo de Letras uma recolha das comunicações apresentadas nesse colóquio.

José Rebelo, o organizador, possui a sua área de especialização no campo da sociologia da comunicação. É professor no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE), director da revista «Trajectos - Revista de Comunicação, Cultura e Educação» e consultor do programa Acontece, da RTP 2. Encontra-se presentemente a participar numa investigação multidisciplinar intitulada «Prisão de Não Nacionais», coordenada por António Pedro Dores e que conta ainda com a participação da socióloga Graça Carapinheiro, da historiadora Maria João Vaz, dos geógrafos Alina Esteves e Jorge Malheiros e do demógrafo Mário Leston Bandeira, entre outros.

Rebelo, José (coord.) (2003), Novas Formas de Mobilização Popular, Porto: Campo de Letras.

quarta-feira, julho 30, 2003

GLO: McDonaldização 

McDonaldização. Termo controverso originalmente cunhado e desenvolvido por George Ritzer, sociólogo norte-americano da Universidade de Maryland, para se referir à radicalização do processo de racionalização nas sociedades contemporâneas. McDonaldização, diz-nos Ritzer, "é o processo pelo qual os princípios do restaurante de comida rápida estão a dominar cada vez mais sectores da sociedade norte-americana, bem como do resto do mundo" (Ritzer, 1993:1; nossa tradução). Esse processo assenta então, segundo o autor, na consolidação e generalização do modelo da indústria da "fast-food" enquanto paradigma organizacional e social predominante na contemporaneidade. Esse paradigma, crescentemente hegemónico, fundamenta-se em cinco princípios básicos: eficiência, calculabilidade, previsibilidade, controlo acrescido e substituição de tecnologia humana por tecnologia não-humana. Após a publicação da obra de Ritzer, um clássico da análise sociológica dos anos noventa, alguns autores procuraram reformular o argumento do autor recorrendo a termos não menos originais. Alan Bryman, por exemplo, tem proposto um conceito improvável e inaudito: a «disneyzação da sociedade».
Ritzer, George (1993), The McDonaldization of Society, Thousand Oaks: Pine Forge Press.

terça-feira, julho 29, 2003

Os Blogues e a Inconstância Atitudinal (act.) 

Como já aqui fiz referência, foi recentemente criado um blogue, o Metablogue, destinado a ir registando e arquivando os textos e os debates sobre a blogosfera e o mundo dos blogues. Essa ideia pioneira foi, como já foi também aqui mencionado, do Joaquim Paulo Nogueira ( Respirar o Mesmo Ar ). Uma das principais virtualidades da existência do Metablogue consiste na possibilidade de se analisar o metabloguismo, isto é, a possibilidade de se formar um discurso meta-meta-bloguista. Essa interessante potencialidade possui tantos atractivos apelativos, como levanta problemas desafiantes. Se, por um lado, permite analisar algumas das características dos esforços de pensar o mundo dos blogues, por outro lado, levanta o problema da circularidade do objecto, isto é, levanta a questão da auto-referencialidade de todos os discursos (o perigo do meta-meta-meta-bloguismo, dos discursos sobre os discursos sobre os discursos).

Apesar de consciente dessas questões e dos pertinentes problemas a elas associados, não pude deixar de fazer algumas reflexões meta-meta-bloguistas à medida a que ía recolhendo alguns trechos textuais para eventualmente integrar no Metablogue. Era, talvez, inevitável. Nesse processo, pude constatar, inadvertidamente, a recorrência de asserções avaliativas sobre a blogosfera, implícitas ou explícitas, no quadro desses discursos. Não resisti à pulsão analítica. Peguei então em alguns desses trechos textuais, provenientes de algumas das pessoas que mais produziram discursos metabloguistas (Avatares de Um Desejo; Aviz; Abrupto; Guerra e Pas; Socio[B]logue) e apliquei, ainda que de forma pouco controlada metodologicamente, um procedimento analítico de medida de atitudes: a EAA - Evaluative Assertion Analysis (Análise de Asserção Avaliativa). A EAA é um tipo particular de análise de conteúdo avaliativa, desenvolvida, originalmente, pelo psicólogo social C. E. Osgood, cujo propósito consiste na medição de atitudes (cf. Bardin, 1977; Krippendorf, 1980; Ghiglione e Blanchet, 1991). "Uma atitude", como sublinha Laurence Bardin, "é uma pré-disposição, relativamente estável e organizada, para reagir sob forma de opiniões (nível verbal), ou de actos (nível comportamenteal) em presença de objectos (pessoas, ideias, acontecimentos, coisas, etc.) de maneira determinada." (Bardin, 1977: 155). Neste caso tomei como objecto de atitude (elemento sobre o qual se debruça a avaliação) a blogosfera e anotei os termos avaliativos de significação comum sobre ela produzidos numa escala de Lickert (5 valores, dois positivos, dois negativos, um valor central neutro).

Embora seja necessário repetir a análise em condições mais controladas metodologicamente e com um corpus analítico mais consistente e abrangente, alguns resultados desta análise são interessantes (ainda que - frise-se - pouco conclusivos). O principal dado que me chama a atenção é o facto de existir, nestes blogues, uma grande inconstância e descontinuidade no que respeita às atitudes manifestas face à blogosfera. Isto é, existe uma grande oscilação entre valorações positivas e negativas da blogosfera no quadro dos discursos metabloguistas destes blogues: o Socio[B]logue e o Avatares de um Desejo, apesar de apresentarem alguma variabilidade, são os que menos oscilam; por outro lado o Aviz, o Abrupto e o Guerra e Pas são os que mais oscilam (embora com algumas diferenças: em termos médios as valorações do Abrupto são mais positivas e as do Guerra e Pas mais negativas). Se seria expectável a existência de alguma oscilação - afinal, a blogosfera vai mudando e, com ela, a percepção que dela se faz -, o que é mais interessante é que, em alguns casos, verifica-se uma oscilação assinalável com intervalos relativamente diminutos (dois dias). Essa informação, apesar de precária, leva-me a colocar algumas questões: Porquê a necessidade que sentimos de avaliar a blogosfera? A que se devem estas oscilações atitudinais? Como é que os sujeitos percepcionam essa inconstância atitudinal? São questões, parece-me, que importa explorar.

Bardin, Laurence (1977 [2000]), Análise de Conteúdo, Lisboa: Edições 70.
Krippendorf, Klaus (1980), Content Analysis. An Introduction to its Methodology, London: Sage.
Ghiglione, Rodolphe & Alain Blanchet (1991), Analyse de contenu et contenus d'analyses, Paris: Dunod.

Nota Adicional: Estes dados não são fiáveis devido a potenciais enviesamentos do corpus analítico (além do mais, normalmente são utilizados três codificadores para diminuir o problema da subjectividade da codificação das asserções avaliativas). Pretendo, por isso, repetir a experiência analítica, em breve com um pouco mais de fiabilidade. Porém, não se deve ver nestes dados mais do que aquilo que eles são: uma experiência.

GLO: Rede 

Rede. "O uso mais geral para o termo «rede» é para uma estrutura de laços entre os actores de um sistema social. Estes actores podem ser papéis, indivíduos, organizações, sectores ou estados-nação. Os seus laços podem basear-se na conversação, afecto, amizade, parentesco, autoridade, troca económica, troca de informação ou qualquer outra coisa que constitua a base de uma relação." (Nohria & Eccles, 1992: 288).
Nohria, Nitin e Robert G. Eccles (eds.) (1992), Networks and Organizations: Structure, Form, and Action, Boston: Harvard Business School Press

segunda-feira, julho 28, 2003

A Igualdade, o «Swinging» e o «Efeito Coolidge» 

Na semana que passou foram divulgados alguns resultados de um estudo da autoria de José Murta Cadima, licenciado em Medicina pela Universidade de Coimbra e assistente graduado de Clínica Geral e Medicina Familiar, no âmbito da sua tese de mestrado de Sexologia na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias. Intitula-se «Estudo do Modo de Vida Swinger em Portugal» (consultar o artigo do Correio da Manhã intitulado Aumenta Troca de Casais, 21-07-2003). As principais conclusões desse estudo apontam, segundo o que foi publicado, para o aumento da troca de casais, uma das formas de relacionamento sexual alternativo.

Curioso é que muito pouco se disse acerca das pertenças sociais dos «swingers» (classes sociais, grupos de status, posições socio-económicas ou níveis de instrução; as informações publicadas indicam apenas que a maioria dos «swingers» inquiridos possui profissões nos domínios do trabalho intelectual, de investigação e de direcção). Tal "omissão", ainda que relativa, é tanto mais relevante quando os estudos sociológicos sobre a vida familiar, amorosa e sexual têm apontado para a prevalência de valores, atitudes e práticas hedonistas e experimentalistas - de que o «swinging» é uma expressão - sobretudo entre aqueles pertencentes a grupos socioeconómicos favorecidos e com níveis mais elevados de instrução e escolaridade (cf. Pais, 1998 e Vasconcelos, 1998).

Porém, mais importante do que a negligência das pertenças sociais dos inquiridos, é interessante analisar, ainda que superficialmente, os dados estatísticos avançados. De acordo com o estudo, a iniciativa para a troca de casais é, fundamentalmente, masculina. Os resultados do inquérito indicam que, entre os adeptos da troca de casais, cerca de 53,3 por cento das mulheres respondeu que a iniciativa partiu dos seus cônjuges e 46,7 por cento que foram ambos a sugeri-lo. Note-se que, segundo as respostas, nenhuma mulher o propôs. Por outro lado, quando a mesma questão é colocada ao género oposto, 66,7 assumiu a sugestão e 33,3 por cento atribuiu a ambos. Nenhum respondeu que a iniciativa tenha sido dos seus cônjuges. Apesar das diferenças de género (quiçá atribuíveis ao facto dos membros do género feminino desejarem, mais do que os membros do género oposto, passar uma imagem de mútuo acordo, reciprocidade e consenso) não deixa de ser relevante o facto de nos 54 «swingers» inquiridos - um terço do total de 162 inquiridos - não existir um único caso onde a iniciativa tenha sido primacialmente feminina. Esta prevalência do primeiro passo masculino não é exclusiva do caso português, pois, como nota o psicanalista Willy Pasini referindo-se à realidade francesa, "[l]'initiative vient le plus souvent des hommes". Essa afirmação foi publicada na quinta-feira no novo número da revista Nouvel Observateur. A publicação em causa intitula-se «Sexe: Ces Français Qui Osent Tout...» e explora as questões do «echangisme», «mélangisme» e «triolisme», com contributos do sociólogo Daniel Welzer-Lang, do filósofo Dominique Folscheid, do psiquiatra Philippe Brenot, do sexólogo Jacques Waynberg e do próprio Willy Pasini, psicanalista.

A interpretação do fenómeno e destes números não é fácil. Bem pelo contrário. Se, por um lado, estas informações parecem sustentar a tese de Anthony Giddens de que as transformações da intimidade nas sociedades contemporâneas passam pela consolidação daquilo que designa de «relação pura», «amor confluente» e «sexualidade plástica» (Giddens, 1996); por outro lado não há dados que apontem para a generalização destas práticas. Pelo contrário. Apesar das induções e abduções abusivas de alguns investigadores, estas práticas parecem continuar circunscritas a grupos sociais bem delimitados tanto social, como culturalmente. Todavia, há pelo menos um dado que não oferece ambiguidades interpretativas. Os dados avançados, tanto em Portugal como em França, parecem apontar para a permanência daquilo que em Psicologia Social se costuma designar por «efeito Coolidge», isto é, "[a] importância que a variedade de parceiros sexuais (reais e imaginários) assume para o sexo masculino" (Alferes, 1997: 141). A predominância da iniciativa masculina é disso um indicador não menosprezável.

A exegese destes dados é controversa: onde alguns vêm o copo meio cheio, outros vêm o copo meio vazio. Eu sou dos que vêm o copo meio vazio. Não deixa de ser curioso que mesmo entre os apologistas destas práticas - pessoas que preconizam uma ética experimentalista, baseada em valores modernizantes e anti-tradicionalistas, que manifestam uma aceitação de formas periféricas de sexualidade e que utilizam abundantemente palavras como igualdade e equidade nos seus discursos para caracterizar as suas relações - como dizia, não deixa de ser curioso que mesmo entre estas pessoas permaneçam indicadores a revelar assimetrias de género como estas. Sintomático.

Alferes, Valentim R. (1997), Encenações e Comportamentos Sexuais: Para Uma Psicologia Social da Sexualidade, Porto: Afrontamento.
Giddens, Anthony (1996), Transformações da Intimidade, Oeiras: Celta Editora.
Pais, José Machado (1998), «Vida Amorosa e Sexual», in José Machado Pais (coord.) (1998), Gerações e Valores na Sociedade Portuguesa Contemporânea, Lisboa: ICS, 407-468.
Vasconcelos, Pedro (1999), «Práticas e Discursos da Conjugalidade e de Sexualidade dos Jovens Portugueses», in Manuel Villaverde Cabral e José Machado Pais (coord.) (1999), Jovens Portugueses de Hoje, Oeiras: Celta Editora.
Vasconcelos, Pedro (1998), «Vida Familiar», in José Machado Pais (coord.) (1998), Gerações e Valores na Sociedade Portuguesa Contemporânea, Lisboa: ICS, 321-406.

GLO: Credencialismo 

Credencialismo. Conceito de inspiração weberiana desenvolvido, primacialmente, por Frank Parkin para se referir à "utilização inflacionada dos certificados educacionais como meio de monitorizar a entrada para posições chave na divisão do trabalho" (Parkin, 1979: 54, nossa tradução).
Parkin, Frank (1979), Marxism and Class Theory: A Bourgeois Critique, Londres: Tavistock.

domingo, julho 27, 2003

A Ciência e o Poder 

Foram recentemente publicitados os resultados do Estudo Global do Futebol Português realizado pela D&T (Deloitte & Touch) por encomenda da Liga de Clubes (como noticiado por vários órgãos de imprensa durante a semana e ontem no Expresso numa peça intitulada Futebol com Novo Guião). Segundo se diz, o estudo é particularmente exaustivo e, embora não adiante nada que já não se saiba, estabelece-se como uma referência para a reorganização do mundo do futebol. O diagnóstico aponta para os problemas do costume: desequilíbrio financeiro; sistemas de controlo e gestão deficientes; desalinhamento entre as políticas salariais e a capacidade financeira dos clubes; hiato entre receitas e encargos; recorrentes incumprimentos salariais e fiscais; etc. A solução integrada proposta pela equipa de consultores da D&T passa pela potenciação de novas fontes de receitas; a reformulação do modelo desportivo; a adopção de políticas desportivas mais racionais; a adopção de tectos para as despesas; a aposta na formação; o investimento na especialização dos agentes; entre outros. Num exercício hermenêutico notável, Valentim Loureiro, presidente da Liga de Clubes, veio ontem dizer a público que em virtude das "conclusões" apontadas no estudo (peso do futebol no PIB, no mercado de emprego e enquanto produto-bandeira nacional) era necessário que o Estado satisfizesse uma extensa lista de reinvindicações.

Neste caso trata-se de uma empresa de consultoria e auditoria, mas episódios análogos ou similares são frequentes em estudos de carácter científico. O episódio em questão parece irrelevante: inócuo. Não é. O episódio relatado é sintomático de uma determinada atitude face ao conhecimento produzido pelos «especialistas». Uma atitude - frise-se - particularmente frequente entre nós. Os sistemas abstractos como os saberes especializados e a ciência possuem, apesar de tudo, uma capacidade de legitimação considerável nas sociedades contemporâneas. Veja-se, a título exemplificativo, o próprio caso do Socio[B]logue na blogosfera e o modo como existe, por parte de algumas pessoas, alguma deferência face ao que aqui é escrito, apesar de todas as indicações face às suas limitações e carácter não científico. Apesar da presença de uma atitude ambivalente face à ciência nas sociedades contemporâneas - entre a reverência e a dúvida, como dizia Maria Eduarda Gonçalves (2002) -, os consultores científicos ocupam, ainda, uma posição priviligiada quando se trata de legitimar decisões e posições de índole política [para um entendimento da posição da ciência na contemporaneidade, consultar os volumes colectivos organizados por Maria Eduarda Gonçalves (1993, 1996, 2000, 2002) e João Arriscado Nunes e Maria Eduarda Gonçalves (2001)]. Mas não é a questão da legitimação de que me quero ocupar. É da atitude. Pela sua representação simbólica enquanto um saber independente, autónomo e neutral axiologicamente (resquícios positivistas), a ciência emerge como o parceiro ideal no processo de legitimação de decisões políticas. Isso faz com que existam, frequentemente, tentativas de apropriação abusivas desse conhecimento por parte de agentes políticos. A forma como Valentim Loureiro descartou o núcleo central da proposta da D&T para a reorganização da esfera do futebol e aproveitou alguns dados dispersos apresentados no estudo para apresentar as suas reinvidicações como se fossem esses os primaciais resultados do estudo é uma atitude comum entre nós. Excessivamente comum. Mas, de longe, o mais interessante sociologicamente é constatar como é frequente o silêncio dos «especialistas» face a essas apropriações abusivas e indevidas. Trata-se, porventura, um dos efeitos da dependência económica, bem o sei. E, levando isso em consideração, não é irrelevante que sempre que surgem estas «apropriações criativas», geralmente, pouco ou nada se ouve dos «especialistas» - e isto apesar do assinalável volume de produção no campo da sociologia da ciência, onde algumas destas questões são afloradas, com maior ou menor profundidade (cf. Gonçalves, 1993, 1996, 2000, 2002; Nunes e Gonçalves, 2001). É mais um daqueles silêncios ensurdecedores.

Gonçalves, Maria Eduarda (coord.) (1993), Comunidade Científica e Poder, Lisboa: Edições 70.
Gonçalves, Maria Eduarda (org.) (1996), Ciência e Democracia, Venda Nova, Bertrand
Gonçalves, Maria Eduarda (org.) (2000), Cultura Científica e Participação Pública, Oeiras, Celta
Gonçalves, Maria Eduarda (org.) (2002), Os Portugueses e a Ciência: Entre a Reverência e a Dúvida, Lisboa: Dom Quixote.
Nunes, João Arriscado e Maria Eduarda Gonçalves (org.) (2001), Enteados de Galileu?: A Semiperiferia no Sistema Mundial da Ciência, Porto: Edições Afrontamento