quinta-feira, agosto 14, 2003

Os Cultos da Carga 

O antropólogo Miguel Vale de Almeida (Os Tempos que Correm), numa breve nota, referiu-se recentemente a um curioso fenómeno originário de algumas ilhas do Pacífico Ocidental. Mais precisamente do Pacífico Sudoeste (Papua, Yaliwan, Vanuatu). A esse fenómeno, comum na região da Melanésia e Nova Guiné e muito estudado pelos antropólogos no primeiro terço do século XX, deu-se o intrigante nome de «cultos da carga». Como explica Vale de Almeida "existia, há 75 anos atrás, na área do Pacífico e Melanésia, um fenómeno que apelidámos de "cargo cults" (cultos da carga). Os alegres primitivos da zona, quando foram expostos ao Ocidente-Mercado, acharam que aquelas mercadorias todas eram coisa divinamente produzida. Eles viam os colonizadores construirem portos e pistas de aviação, e viam que através delas chegavam uma série de coisas boas. Vai daí puseram-se a construir imitações de portos e pistas aéreas, na esperança de que a "carga" chegasse.". Embora Vale de Almeida o elida, estes cultos, uma espécie de sebastianismo melanésio, não são uniformes. Com efeito, segundo se pensa, existiram cerca de 70 formas diversas de «cultos de carga», com ligeiras dissemelhanças entre si (os primeiros «cultos de carga» relatados foram Baigona, 1912, e Vailala, 1919). Alguns possuem especificidades curiosas. Por exemplo, em três grupos populacionais das ilhas Vanuatu é celebrado um deus chamado John Frum ou Jon Frum. Julga-se que Frum foi um viajante que esteve nas ilhas antes da chegada dos missionários cristãos em meados do século XIX. Ainda hoje alguns melanésios aguardam, messianicamente, o seu regresso. Aos nossos olhos tais práticas parecem, é certo, ridículas. Próprias de um «wishful thinking» primitivo. Mas também entre nós encontramos práticas que não andam muito longe dos «cargo cults» melanésios. E não são poucas.

Nota Adicional 1: As ciências, em geral, também possuem os seus cultos. Há até um autor - Richard Feynman - que tem falado da existência de uma «Cargo Cult Science».

Nota Adicional 2: Talvez, posteriormente, faça uma pequena lista, para acrescentar a esta nota, de algumas práticas que não andam muito longe dos «cargo cults» melanésios.

quarta-feira, agosto 13, 2003

GLO: O Paradoxo de Olson 

O Paradoxo de Olson. Por vezes, indivíduos, ou grupos de indivíduos, encetam uma determinada forma de comportamento oportunista motivada por determinados interesses particulares a que se dá o nome de «paradoxo de Olson». O «paradoxo de Olson» refere-se ao desenvolvimento de determinado tipo de comportamento, baseado no cálculo racional de custos-benefícios, onde se procura tirar partido das vantagens de algo, sem a assunção dos respectivos encargos, ónus ou contrapartidas. Nesses casos, os «custos» ficam a cargo de terceiros. A esses indivíduos, ou grupos, que procuram retirar o máximo de benefícios da acção de outros evitando, simultânea e intencionalmente, os respectivos ónus dá-se o nome de «free-riders». A designação «paradoxo de Olson» resulta do facto deste princípio ter sido expresso, primeiramente, por Mancur Olson, sociólogo e economista de origem norte-americana, na sua obra «A Lógica da Acção Colectiva» (1971). Entre os inúmeros exemplos típicos deste tipo de comportamento encontram-se, por exemplo, a greve motivada pela contestação salarial e o trabalho em equipa desequilibrado. No primeiro caso, aqueles que não fazem greve usufruem, por norma, dos benefícios da acção daqueles que fazem greve sem, todavia, assumirem os riscos e custos que esse comportamento envolve. No segundo caso, aqueles que menos contribuem para os resultados do trabalho em equipa são, habitualmente, tão beneficiados como os restantes.
Olson, Mancur (1971 [1998]), A Lógica da Acção Colectiva: Bens Públicos e a Teoria dos Grupos, Oeiras: Celta.

Uma breve nota adicional, de carácter excepcional, de crítica cultural: Portugal é um país particularmente fértil no que respeita a «free-riders». Enfim, idiossincrasias culturais lusitanas.

segunda-feira, agosto 11, 2003

Arqueologia Linguística: Entre a História e a Estória (act.) 

Em uma, mais uma, das minhas frequentes deambulações pelos empoeirados arquivos da blogosfera deparei-me com uma breve consideração, no blogue Tempore, sobre a distinção entre os termos estória e história [texto]. Diz assim: "Na minha opinião estória(s) reporta-se ao anedótico, ao pequeno relato. Julgo que a História é um composto do anterior, logo mais estrutural.". Esse tópico mereceu-me já alguma atenção num texto anterior (Walter Benjamin, a História dos Vencidos e a Guerra Civil Espanhola). Porém, estando a dedicar-me a esboçar timidamente alguns procedimentos genealógicos ou arqueológicos, não resisto a retornar ao tema em causa.

Há, com efeito, um debate - interessante e controverso, embora algo adormecido - sobre a distinção linguística entre os termos «história» e «estória». Segundo a posição costumeira, a primeira expressão reporta-se ao estudo do passado das sociedades humanas ou, em alternativa, refere-se a esse próprio passado. Não será, talvez, inusitada uma consideração adicional: embora de uso corrente, o termo «história» deveria somente designar a evolução da humanidade e o passado das sociedades humanas. Com efeito, a expressão correcta para designar o estudo desse passado - a ciência histórica - será, porventura, o termo «historiografia».

Já o segundo vocábulo, «estória», é utilizado na designação de textos ficcionais ou relatos narrativos. Não obstante o facto da raiz etimológica de ambos os termos ser a mesma - ambas derivam do grego «historía» por meio do latim «historîa» (talvez a Bomba Inteligente ou o Latinista Ilustre o possam confirmar ou infirmar) -, a distinção entre ambos visa acompanhar a diferenciação, de raiz anglo-saxónica, entre os termos «story» e «history».

Porém, o termo «estória» está longe de ser novo ou recente. Encontra-se, aliás, mais próximo de constituir um arcaísmo do que um neologismo. Na verdade, esse termo constitui uma expressão remota, resgatada de alguns textos manuscritos de copistas medievais portugueses - textos escritos quando a estrutura da ortografia ainda se encontrava pouco sedimentada. Surgiam então, com inusitada frequência, os termos «historia», «hestoria», «estoria», «istoria» ou «estorea» enquanto equivalentes. Ou melhor, como grafias distintas de uma mesma expressão. Essa curiosa polissemia ortográfica foi experienciada, de igual modo, pela maioria das línguas latinas. Todavia, com o tempo, tendeu a prevalecer uma forma única na generalidade desses idiomas: o português «história», o francês «histoire», o castelhano «historia», o catalão «història» e o italiano «storia» são disso um bom exemplo. Na realidade, em Portugal, só a partir do séc. XVI cessaram essas «indecisões ortográficas». Essa estabilização concretizou-se, sobretudo, após a publicação das gramáticas de Fernão de Oliveira («Gramática da Linguagem Portuguesa», 1536) e de João de Barros («Gramática da Língua Portuguesa», 1540), os primeiros gramáticos portugueses. Essas obras contribuíram, de forma inelutável, para a fixação da língua portuguesa. Foi António Maria José de Melo Silva César e Menezes, Conde de Sabugosa, quem primeiro recuperou e propôs a adopção do termo «estória» para designar a narrativa de ficção. Fê-lo em 1912, no prefácio do seu livro «Dama dos tempos idos». Pouco depois, em 1919, seria acompanhado por João Ribeiro, afamado etnógrafo brasileiro. Quem, todavia, popularizou a expressão, reabilitando-a definitivamente, foi João Guimarães Rosa, um dos maiores vultos da literatura brasileira do século XX, ao publicar a sua obra «Primeiras Estórias» em 1962. De então até hoje mantém-se, em regime de latência, a polémica entre os apologistas da diferenciação entre os vocábulos história e estória e aqueles que preconizam a manutenção do termo história como portador dos dois sentidos. Fica a curiosidade arqueológico-linguística.

Nota Adicional 1. A grafia dos termos em grego e latim não se encontra correcta, na medida em que não a consegui aqui reproduzir literalmente.

Nota Adicional 2. Rui Oliveira, na secção de comentários a este pequeno exercício arqueológico, produziu um breve texto onde preconiza a inutilidade da diferenciação entre os vocábulos história e estória. No quadro da sua argumentação em favor da indistinção entre os dois termos, Rui Oliveira apresenta algumas observações adicionais de interesse quanto à questão da sua sociogénese. Aqui as reproduzo: "Quanto às origens do inglês "story" e "history", são iguais às das línguas latinas, isto é, provêm ambas das mesmas palavras (grega e latina). Apenas acontece que "story" entrou no inglês através do chamado Anglo-French, em época medieval (sécs. XII-XIII), pela palavra "estorie" que no Middle English deu "storie" para acabar na actual "story". Por seu lado, "history" entrou mais tarde no inglês, pelo séc. XIV, através do Middle English "historie", vinda do Latim "historia". A natural evolução semântica que as palavras têm numa língua, levou-as aos significados actuais. De notar que a palavra grega "historia" queria significar "pesquisa,investigação"; Por sua vez "historia" deriva de "histor" que é aquele que sabe ou vê.".

Nota Adicional 3. Carla Hilário de Almeida (Bomba Inteligente) contribui, também na secção de comentários, com uma breve nota para o esclarecimento desta questão. De acordo com o que diz: "A palavra "estória" não está registada no dicionário da Academia das Ciências, facto que prova que é melhor do que se diz para aí. O dicionário de Cândido de Figueiredo tem a palavra registada como história em português antigo (whatever that means) e não lhe dá muita importância. Mas vamos lá ao que importa: história é composta de dois vocábulos - 'istos, que significa rede e roí, o verbo fluir em grego antigo - que juntos têm o bonito sentido de "uma rede que flui". À espécie de apóstrofo (') que vêem antes da palavra istos, chama-se espírito rude e trata-se do sinal de aspiração que transliterado para latim resultou num h. E o que é que estória tem a ver com isto? Nada." [ver texto original].

domingo, agosto 10, 2003

Ainda os Detalhes (act.) 

Carlos Vaz Marques (Outro, eu) veio acrescentar um contributo para esta discussão em torno do enigmático aforismo. Segundo diz "[p]or vezes, uma expressão que, há muito, transportamos connosco aparece- nos ligeiramente transformada e é como se a terra tremesse. (...) O aforismo - tal como eu o conhecia até agora - diz que "o diabo está nos detalhes". O "diabo" e não "Deus". Da genealogia da expressão nada sei. Lembro-me que a primeira vez que me cruzei com ela (quando? onde?) vinha acompanhada de uma generalidade do tipo: "tal como dizem os ingleses". Para os que atribuem a Deus a concórdia e vêem o diabo como a causa da discórdia, talvez a minha versão seja a mais acertada. Até na genealogia breve de um curto aforismo, "o diabo está nos detalhes" [texto]. Também José Pacheco Pereira, no Abrupto, segue no mesmo sentido de Carlos Vaz Marques e recorda o aforismo "the Devil is in the details". Escreve assim: "Pelas mesmas razões de aprender, de ter a alegria de aprender, também volto ao Socio[B]logue. Só que onde lá se coloca Deus nos detalhes, eu estou habituado a colocar o Diabo. Daí que a genealogia da frase seja outra, e a sua língua original diferente -. "the Devil is in the details". Por razões que se podem discutir , suspeito que é mais o Diabo que Deus, o habitante das pregas das coisas, dos detalhes, dos decisivos detalhes. Se não houvesse detalhes não era tudo mais simples, mais próximo das virtudes divinas? Porque ser Deus não é complicado." [texto].

Curiosamente, também já conhecia esta expressão. Esta, contudo, e ao contrário da primeira, é normalmente classificada como um provérbio ou ditado popular de origem anglo-saxónica. É utilizada, primacialmente, com o significado de que mesmo as coisas mais importantes dependem, assiduamente, do sucesso dos detalhes mais anódinos.

Quanto ao «Deus está nos detalhes» já o havia visto ser atribuído a Le Corbusier, Friedrich Nietzsche, Albert Einstein ou Miguelângelo. Embora, como referi, nunca a Frank Lloyd Wright. Mas, frise-se, essas imputações são relativamente infrequentes, ao contrário das que mencionei. E, muitas vezes, encontrei menções conjuntas às duas expressões. Aconteceu-me isso, por exemplo, quando me deparei com uma breve nota de Barbara Wallraff, a conhecida «Senhora Gramática» da revista The Atlantic Monthly. Na sua famosa coluna, «Word Court», a autora dedicou em tempos uma breve passagem a este assunto em resposta à interrogação de um seu leitor.

"Leaving theological issues aside, with an expression like this what is "correct" is a matter of whether one version came into being as a garble of the other. Possibly this has happened here -- but no one seems to know which version came first. Neither God is in the details nor The devil is in the details has a clear provenance. Though the former is occasionally seen attributed to Albert Einstein, Gustave Flaubert, and Friedrich Nietzsche, among others, the architect Ludwig Mies Van Der Rohe most often receives credit. Evidently Mies did say it, but he was not the first, and the latest edition of Bartlett's Familiar Quotations (1992) calls the expression simply "a saying."

Bartlett's does not list The devil is in the details. Other sources name various personages as the popularizer, if not the coiner, of this version, but the range of them is narrower and more political -- for example, the diplomat Paul Nitze, Ronald Reagan, and Ross Perot. A decade ago both versions of the saying were relatively rare, and neither was particularly more common than the other. Around 1992 -- the year Perot began to be widely quoted, during his first run for the presidency -- the devil began pulling out ahead of God in popularity. In February of 1993 Perot complained that the devil was in the details of an economic plan of President Clinton's, and he made headlines; others' use of the devil version of the saying has been on the rise ever since. By last year major U.S. newspapers and broadcast-news sources were invoking the devil in this phrase anywhere from about twice as often as God to some twenty-five times as often.
" (Wallraff, 2000: 132).

Em sociologia as duas expressões são utilizadas amiúde. Embora, sublinhe-se, em contextos diversos e com propósitos descoincidentes. A «versão divina» é utilizada, sobretudo, em sub-campos como a Sociologia da Vida Quotidiana. Ali serve, fundamentalmente, de referência à incontornável relevância dos pormenores mais minúsculos, descurados e negligenciados da realidade social. É, aliás, por isso, que aí se apela a um esquadrinhamento minucioso dos pormenores secundários e se promove uma acentuada valorização dos detalhes supostamente insignificantes. De acordo com o que ali se defende, esses pormenores quando colocados sobre o olhar esmiuçador e escrupuloso do investigador, tornam-se interpretáveis e revelam-se carregados de sentido e/ou significação.

Quanto à «versão diabólica», igualmente popular, ela é utilizada, particularmente, nas variantes praxiológicas da sociologia (sociologia clínica, sociologia aplicada, investigação-acção, sociologia de intervenção, sociologia dos problemas sociais, etc...). Nesses campos - de investigação aplicada por contraposição à investigação fundamental - essa expressão é utilizada para descrever as dificuldades dos investigadores em operacionalizarem o seu arsenal de ferramentas proveniente do vasto instrumentário disciplinar. Com efeito, quando se concebem planos, programas ou projectos de intervenção, o problema está sempre, ou quase sempre, em transpô-los para a prática. Isto é, na sua operacionalização. Assim é, pois, como bem nos recordam Carlos Vaz Marques e José Pacheco Pereira, o diabo está efectivamente nos «detalhes». A realidade possui uma curiosa tendência para se furtar aos investigadores.

Por conseguinte, quer se trate de Deus ou do Diabo e qualquer que seja a origem da expressão, parece haver pouca controvérsia quanto à importância dos detalhes. É, porventura, isso que nos resta sublinhar.

Wallraff, Barbara (2000), «Word Count», The Atlantic Monthly, Vol.285, No.1.

Nota Adicional 1. Recebi algumas mensagens de correio electrónico a comentar a questão dos detalhes. Entre elas, a de Ana Luísa Freitas, arquitecta, a fazer-me notar que a mensagem inicial do Évorablog a expressão utilizada era «deus está nos pormenores» e a que eu utilizava «deus está nos detalhes». Segundo Ana Luísa Freitas com essa transformação perde-se algo, pois, como nota, "[o]s arquitectos não dizem detalhe (no Brasil dizem, mas lá também dizem concreto e nós dizemos betão). Os arquitectos costumam dizer pormenor. Fazem pormenorização dos projectos. Pormenorizam uma janela, não detalham uma janela. E também a tudo o resto a que se pode aplicar a expressão, pormenor (cuja origem desconheço, mas me remete para menor, pequeno). soa bem. Resumindo, Deus está nos pormenores.". Com efeito houve uma mudança de pormenores para detalhes... ela foi, todavia, inconsciente. Na verdade só dela me apercebi após a mensagem de Ana Luísa Freitas. Isso deve-se ao facto de estar habituado a utilizar a expressão «deus está nos detalhes» e, por isso, inconscientemente utilizei-a sem reparar que a expressão utilizada pelos autores do Évorablog continha o vocábulo «pormenores» e não «detalhes». Mas essa nota leva-nos à consideração das variações, em português, da expressão. Na verdade, conheço em português três variantes do dito: «deus está nos detalhes», «deus está nos pormenores» e «deus está no particular». Esta última, menos frequente, é, aliás, aquela que se encontra no livro de Carlo Ginzburg que menciono no texto (edição brasileira da editora Companhia das Letras de São Paulo), e que o autor atribui a Aby Warburg. Entre as três confesso não manifestar preferência por nenhuma delas embora, por força de hábito, esteja mais habituado a utilizar a primeira: «deus está nos detalhes». Tal hábito deriva, sobretudo, da sua utilização em Sociologia da Vida Quotidiana, onde esta expressão é assiduamente utilizada, ao ponto de, muitas vezes, a própria Sociologia da Vida Quotidiana ser classificada como uma «sociologia do detalhe».

Nota Adicional 2. Segismundo, do Albergue dos Danados, produziu um breve texto onde se refere a esta questão. Escreve assim: "Sinceramente, deus não está nos detalhes. Provável é, mesmo, que nunca lá tenha estado. Deus é grande, monumental, maior, pormaior, mas padece de indolência. Ao sétimo dia partiu para descanso e abandonou os pormenores às suas circunstâncias, a si mesmos, dentro da sua ordem original e liberdade. Depois, depois foi a maçã. Eu prefiro nêsperas, mas saiu a maçã. E esse é talvez o primeiro detalhe. Lá esteve o diabo. Deus apenas observou e fez-se presente somente na hora do castigo. Por isso, hoje, só vê deus quem consegue. A mim, confesso, essa danada visão nunca me tocou. Mas adiante. Creio que a verdadeira discussão não é em torno da entidade que está nos detalhes, mas ao redor do tempo do predicado estar aí. E, sinceramente, se o juízo não me atraiçoa, deus esteve, mas o diabo está. Este é o único aforismo em que me encosto, no entanto não tempo demais. Mas isso é apenas um detalhe, sem a mínima relevância. Quem quer que esteja nos peanuts, calha que eu também o mastigo quando os mastigo. E não me incomoda quem lá pôs quem nas minudências. Confesso, embora, que a deus lá cheguei por Flaubert e que ao diabo lá cheguei por Perot. Esta é a razão fundamental por que, para mim, the devil is in the details. Ainda que, claro está, admita o contrário, pois o diabo está também onde menos se espera, raio de mania a dele, essa.". Será preciso dizer mais?

Deus Está nos Detalhes: Genealogia Breve (act) 

Acabo de descobrir entre os textos de um novíssimo blogue, o Evorablog, um aforismo que há muito me assombra: «Deus está nos detalhes» [os autores utilizam, na verdade, uma das variantes conhecidas dessa expressão: «deus está nos pormenores»]. No Evorablog, de forma deveras curiosa, o intrigante apotegma é atribuído ao arquitecto norte-americano Frank Lloyd Wright. A primeira vez que encontrei este aforismo foi na epígrafe da estimulante obra «Mitos, Emblemas, Sinais» (1991) de Carlo Ginzburg, um dos mais notáveis historiadores italianos contemporâneos (cf. Ginzburg, 1989, 1991, 1995; Ginzburg e Poni, 1979; Grendi, 1977). Então, a paternidade do dito era atribuída por Ginzburg ao historiador de arte alemão Aby Warburg (1866-1929). Vim, mais tarde, a encontrar a mesma expressão imputada ora ao excelso escritor francês Gustave Flaubert (1821-1880) («Le bon Dieu est dans le detail»), ora ao conspícuo escritor brasileiro João Guimarães Rosa (1908-1967) («Deus está nos detalhes»). Porém, na maioria das vezes com que me deparei com o aforismo supracitado, ele era atribuído ao arquitecto de origem teutónica Ludwig Mies van der Rohe (1886-1969) - um dos pioneiros do movimento modernista, director da Bauhaus entre 1930 e 1933 e o criador de uma das mais famosas peças de design do século XX: a «Barcelona Chair». Não será despiciendo notar, adicionalmente, que são habitualmente utilizadas três expressões germânicas - semânticamente semelhantes, embora formalmente descoincidentes - para formalizar esse axioma: «Gott gedeiht in Details», «Gott ist in den Details», «Gott steckt im Detail». Ironicamente, nunca havia encontrado Frank Lloyd Wright entre um dos pais possíveis do dito de paternidade, ainda, indeterminada.

Mas, independentemente da paternidade do aforismo, serve esta referência de pretexto para evocar Ginzburg. Carlo Ginzburg, o responsável pela introdução do «paradigma indiziario» nas ciências sociais, é, sem dúvida, um dos autores mais celebrados no campo das metodologias microhistóricas. Essa notabilidade deve-se, entre outros aspectos, ao reconhecimento e notoriedade atingidos por si atingidos por meio de obras como «Mitos, Emblemas, Sinais» (1991), «A Micro-História e Outros Ensaios» (1989) ou «História Nocturna: Uma Decifração do Sabat» (1995). É que se hoje a perspectiva micro-histórica se encontra disseminada na Europa e EUA, na realidade, ela emergiu a partir de um profícuo debate em torno das possibilidades analíticas da «microstoria». Debate que foi encetado nos anos setenta e oitenta por um pequeno grupo de historiadores italianos, oriundos do nordeste italiano (em particular de Bolonha), reunido em torno da revista «Quaderni Storici» e que englobou, além de Ginzburg, autores como Edoardo Grendi, Carlo Poni e Giovanni Levi. Essa discussão, profícua e inovadora, partiu do ensaio seminal de Edoardo Grendi «Micro-analisi e storia sociale» (1977) e do histórico programa de estudos lançado, dois anos depois, por Carlo Ginzburg e Carlo Poni no artigo «Il nome e il come: Scambio ineguale e mercato storiografico» (1979). Vale a pena conhecer Ginzburg.

Ginzburg, Carlo (1989), A Micro-História e Outros Ensaios, Lisboa: Difel.
Ginzburg, Carlo (1991), Mitos, Emblemas, Sinais, São Paulo: Companhia das Letras.
Ginzburg, Carlo (1995), História Nocturna: Uma Decifração do Sabat, Lisboa: Relógio D'Água.
Ginzburg, Carlo e Carlo Poni (1979), «Il nome e il come: Scambio ineguale e mercato storiografico», Quaderni Storici, Nº40, pp. 181-190.
Grendi, Edoardo (1977), «Micro-analisie storia sociale», Quaderni Storici, Nº35, pp. 506-520.

Nota Adicional 1. Talvez algum dos blogueiros oriundos do Campo da Arquitectura - Arquitectices, hARDbLOG ou O Projecto - nos possa ajudar a esclarecer o intrigante enigma da paternidade.

O Império do Efémero (ou o Choque Antropológico do Retorno) 

Faz agora um mês que José Mário Silva (Bloco de Esquerda) regressou de Paris. Pouco depois de regressar, escreveu aquele que é, indubitavelmente, um dos apontamentos mais argutos sobre a blogosfera. Sobre nós. Mais concretamente, José Mário Silva falava sobre como este mundo dos blogues é efémero e fugaz. Dizia assim: "NÃO ME LEMBRO DISTO ASSIM. É um sentimento estranho. Volto a casa, após duas semanas noutra cidade (com um acesso mais limitado à internet), e parece que não reconheço a minha própria casa. Leia-se: a blogosfera. Alguém mudou os móveis de sítio, deitou fora a pilha de jornais que estava ali no canto e trocou a ordem dos talheres nas gavetas da cozinha. O corpo da casa é o mesmo, claro, mas está diferente. Foi ampliado. Tem mais caves, mais sótãos, inúmeros acrescentos, projecções, anexos no quintal. Alguém deitou paredes abaixo, construiu novos corredores e mobilou quartos vazios que nunca tinha visto antes. Há muito mais portas que apetece abrir todos os dias, essa é que é essa. E eu vou precisar de um porta-chaves maior. Além de uma bússola.".

Passei agora uns dias ausente. Tirei, na verdade, férias de mim mesmo. Quer dizer, do meu «offline self». Consequentemente, ausentei-me, por inerência, do meu «online self». Não obstante o facto de se tratar de um período de apartamento exíguo e de se ter dado uma assinalável diminuição do ritmo e cadência do mundo dos blogues, encontro um mundo diverso do que deixei. Com outras discussões, outras querelas, outras preocupações, outras interrogações, outros blogues, outras pessoas. Enfim, um mundo-outro. Ocorreu-me de imediato a passagem inicial de um dos livros mais desconsiderados - leia-se incompreensivelmente desconsiderados - do novelista norte-americano Paul Auster, In the Country of Last Things.

"These are the last things, she wrote. One by one they disappear and never come back. I can tell you of the ones I have seen, of the ones that are no more, but I doubt there will be time. It is all happening too fast now, and I cannot keep up. I don't expect you to understand. You have seen none of this, and even if you tried, you could not imagine it. These are the last things. A house is here one day, and the next day is gone. A street you walked on yesterday is no longer there today. (...) Close your eyes for a moment, turn around to look at something else, and the thing that was before you is suddenly gone. Nothing lasts, you see, not even the thoughts inside you. And you mustn't waste your time looking for them. Once a thing is gone, that is the end of it.".

Esta passagem exprime, de uma forma admirável, a desconcertante sensação que este retorno me provocou. A sensação que se apossou de mim. Tomou-me uma impressão, mais ou menos difusa, de deslocamento ou desconjuntamento. Sinto-me desarranjado: em desalinho. Pergunto-me como será uma ausência de várias semanas, de meses... Quando estamos embrenhados e empenhados nos debates que vão tendo lugar dificilmente nos apercebemos do quão efémeros eles são. Do quão céleres eles passam. E, quase sem darmos conta, tudo muda. Vertiginosamente. Estonteantemente. Num intervalo mínimo, de alguns dias, o mundo dos blogues reorganiza-se, recompõe-se, restrutura-se. Assim, a sequência de ausência seguida de regresso parece gerar uma espécie de «choque antropológico do retorno». Há uma sensação clara de ruptura e de descontinuidade entre o que se deixou, o que se encontra e o que se esperava encontrar.

Ademais, na blogosfera quase não há síntese: não existem semanários que refazam o sentido dos diários. As discussões são, de um modo geral, breves. Passageiras. E essa ausência de síntese amplifica, de alguma forma, o «choque antropológico do retorno», na medida em que dificulta a compreensão da mudança. Por conseguinte, o mundo dos blogues parece ser, por excelência, o império do efémero.

Auster, Paul (1988), In the Country of Last Things, London: Faber and Faber.

Nota Adicional 1. «O Império do Efémero» constitui a designação de uma obra de Gilles Lipovetsky (Lisboa: Publicações Dom Quixote: 1989).

Nota Adicional 2. Seria interessante que as pessoas fossem comentando as semelhanças e as diferenças entre a blogosfera que deixaram e aquela a que retornam (as rupturas e descontinuidades, as permanências e constâncias) à medida em que fossem regressando das suas ausências, mais ou menos prolongadas.

Nota Adicional 3. O Socio[B]logue deve parte considerável da sua existência a um pequeno grupo de pessoas que, desde o seu início, foram contribuindo com comentários, observações e reflexões para os temas que foram aqui sendo levantados. As discussões e debates originadas pelo confronto entre os textos e as interpelações que lhes davam sequência constituíram, sem dúvida, o que o Socio[B]logue teve de melhor. Devido a alguns problemas técnicos do sistema de comentários (Enetation) esses apontamentos parecem estar irremediavelmente perdidos. É por isso devido um agradecimento especial às pessoas que mais colaboraram com o Socio[B]logue e cujos contributos se perderam. Possivelmente, de forma irremediável. Ficam então os agradecimentos a: Anne Galloway (Purse Lip Square Jaw); António Quintas (Registo); Bruno Sena Martins (Avatares de Um Desejo); Carlos de Abreu Amorim (Mata-Mouros); Clara M. (Tracejado); Isabel Tilly (Monólogo); Jorge Candeias (A Lâmpada Mágica); Leonel Vicente (aaanumberone); Luis Ene (ENE Coisas); Manuel Deniz Silva (Bloco de Esquerda); Mário Pires (Retorta); Paulo Querido ( huuuuu... vento lá fora); Pedro (Icosaedro); Pedro Fonseca (Contra Factos & Argumentos); Piscoiso (Piscoiso); Tyler Durden (EpiCurtas) (espero não ter omitido de ninguém). Dificilmente será esquecido o que fizeram pelo Socio[B]logue.