quinta-feira, agosto 14, 2003

Os Cultos da Carga 

O antropólogo Miguel Vale de Almeida (Os Tempos que Correm), numa breve nota, referiu-se recentemente a um curioso fenómeno originário de algumas ilhas do Pacífico Ocidental. Mais precisamente do Pacífico Sudoeste (Papua, Yaliwan, Vanuatu). A esse fenómeno, comum na região da Melanésia e Nova Guiné e muito estudado pelos antropólogos no primeiro terço do século XX, deu-se o intrigante nome de «cultos da carga». Como explica Vale de Almeida "existia, há 75 anos atrás, na área do Pacífico e Melanésia, um fenómeno que apelidámos de "cargo cults" (cultos da carga). Os alegres primitivos da zona, quando foram expostos ao Ocidente-Mercado, acharam que aquelas mercadorias todas eram coisa divinamente produzida. Eles viam os colonizadores construirem portos e pistas de aviação, e viam que através delas chegavam uma série de coisas boas. Vai daí puseram-se a construir imitações de portos e pistas aéreas, na esperança de que a "carga" chegasse.". Embora Vale de Almeida o elida, estes cultos, uma espécie de sebastianismo melanésio, não são uniformes. Com efeito, segundo se pensa, existiram cerca de 70 formas diversas de «cultos de carga», com ligeiras dissemelhanças entre si (os primeiros «cultos de carga» relatados foram Baigona, 1912, e Vailala, 1919). Alguns possuem especificidades curiosas. Por exemplo, em três grupos populacionais das ilhas Vanuatu é celebrado um deus chamado John Frum ou Jon Frum. Julga-se que Frum foi um viajante que esteve nas ilhas antes da chegada dos missionários cristãos em meados do século XIX. Ainda hoje alguns melanésios aguardam, messianicamente, o seu regresso. Aos nossos olhos tais práticas parecem, é certo, ridículas. Próprias de um «wishful thinking» primitivo. Mas também entre nós encontramos práticas que não andam muito longe dos «cargo cults» melanésios. E não são poucas.

Nota Adicional 1: As ciências, em geral, também possuem os seus cultos. Há até um autor - Richard Feynman - que tem falado da existência de uma «Cargo Cult Science».

Nota Adicional 2: Talvez, posteriormente, faça uma pequena lista, para acrescentar a esta nota, de algumas práticas que não andam muito longe dos «cargo cults» melanésios.

quarta-feira, agosto 13, 2003

GLO: O Paradoxo de Olson 

O Paradoxo de Olson. Por vezes, indivíduos, ou grupos de indivíduos, encetam uma determinada forma de comportamento oportunista motivada por determinados interesses particulares a que se dá o nome de «paradoxo de Olson». O «paradoxo de Olson» refere-se ao desenvolvimento de determinado tipo de comportamento, baseado no cálculo racional de custos-benefícios, onde se procura tirar partido das vantagens de algo, sem a assunção dos respectivos encargos, ónus ou contrapartidas. Nesses casos, os «custos» ficam a cargo de terceiros. A esses indivíduos, ou grupos, que procuram retirar o máximo de benefícios da acção de outros evitando, simultânea e intencionalmente, os respectivos ónus dá-se o nome de «free-riders». A designação «paradoxo de Olson» resulta do facto deste princípio ter sido expresso, primeiramente, por Mancur Olson, sociólogo e economista de origem norte-americana, na sua obra «A Lógica da Acção Colectiva» (1971). Entre os inúmeros exemplos típicos deste tipo de comportamento encontram-se, por exemplo, a greve motivada pela contestação salarial e o trabalho em equipa desequilibrado. No primeiro caso, aqueles que não fazem greve usufruem, por norma, dos benefícios da acção daqueles que fazem greve sem, todavia, assumirem os riscos e custos que esse comportamento envolve. No segundo caso, aqueles que menos contribuem para os resultados do trabalho em equipa são, habitualmente, tão beneficiados como os restantes.
Olson, Mancur (1971 [1998]), A Lógica da Acção Colectiva: Bens Públicos e a Teoria dos Grupos, Oeiras: Celta.

Uma breve nota adicional, de carácter excepcional, de crítica cultural: Portugal é um país particularmente fértil no que respeita a «free-riders». Enfim, idiossincrasias culturais lusitanas.

segunda-feira, agosto 11, 2003

Arqueologia Linguística: Entre a História e a Estória (act.) 

Em uma, mais uma, das minhas frequentes deambulações pelos empoeirados arquivos da blogosfera deparei-me com uma breve consideração, no blogue Tempore, sobre a distinção entre os termos estória e história [texto]. Diz assim: "Na minha opinião estória(s) reporta-se ao anedótico, ao pequeno relato. Julgo que a História é um composto do anterior, logo mais estrutural.". Esse tópico mereceu-me já alguma atenção num texto anterior (Walter Benjamin, a História dos Vencidos e a Guerra Civil Espanhola). Porém, estando a dedicar-me a esboçar timidamente alguns procedimentos genealógicos ou arqueológicos, não resisto a retornar ao tema em causa.

Há, com efeito, um debate - interessante e controverso, embora algo adormecido - sobre a distinção linguística entre os termos «história» e «estória». Segundo a posição costumeira, a primeira expressão reporta-se ao estudo do passado das sociedades humanas ou, em alternativa, refere-se a esse próprio passado. Não será, talvez, inusitada uma consideração adicional: embora de uso corrente, o termo «história» deveria somente designar a evolução da humanidade e o passado das sociedades humanas. Com efeito, a expressão correcta para designar o estudo desse passado - a ciência histórica - será, porventura, o termo «historiografia».

Já o segundo vocábulo, «estória», é utilizado na designação de textos ficcionais ou relatos narrativos. Não obstante o facto da raiz etimológica de ambos os termos ser a mesma - ambas derivam do grego «historía» por meio do latim «historîa» (talvez a Bomba Inteligente ou o Latinista Ilustre o possam confirmar ou infirmar) -, a distinção entre ambos visa acompanhar a diferenciação, de raiz anglo-saxónica, entre os termos «story» e «history».

Porém, o termo «estória» está longe de ser novo ou recente. Encontra-se, aliás, mais próximo de constituir um arcaísmo do que um neologismo. Na verdade, esse termo constitui uma expressão remota, resgatada de alguns textos manuscritos de copistas medievais portugueses - textos escritos quando a estrutura da ortografia ainda se encontrava pouco sedimentada. Surgiam então, com inusitada frequência, os termos «historia», «hestoria», «estoria», «istoria» ou «estorea» enquanto equivalentes. Ou melhor, como grafias distintas de uma mesma expressão. Essa curiosa polissemia ortográfica foi experienciada, de igual modo, pela maioria das línguas latinas. Todavia, com o tempo, tendeu a prevalecer uma forma única na generalidade desses idiomas: o português «história», o francês «histoire», o castelhano «historia», o catalão «història» e o italiano «storia» são disso um bom exemplo. Na realidade, em Portugal, só a partir do séc. XVI cessaram essas «indecisões ortográficas». Essa estabilização concretizou-se, sobretudo, após a publicação das gramáticas de Fernão de Oliveira («Gramática da Linguagem Portuguesa», 1536) e de João de Barros («Gramática da Língua Portuguesa», 1540), os primeiros gramáticos portugueses. Essas obras contribuíram, de forma inelutável, para a fixação da língua portuguesa. Foi António Maria José de Melo Silva César e Menezes, Conde de Sabugosa, quem primeiro recuperou e propôs a adopção do termo «estória» para designar a narrativa de ficção. Fê-lo em 1912, no prefácio do seu livro «Dama dos tempos idos». Pouco depois, em 1919, seria acompanhado por João Ribeiro, afamado etnógrafo brasileiro. Quem, todavia, popularizou a expressão, reabilitando-a definitivamente, foi João Guimarães Rosa, um dos maiores vultos da literatura brasileira do século XX, ao publicar a sua obra «Primeiras Estórias» em 1962. De então até hoje mantém-se, em regime de latência, a polémica entre os apologistas da diferenciação entre os vocábulos história e estória e aqueles que preconizam a manutenção do termo história como portador dos dois sentidos. Fica a curiosidade arqueológico-linguística.

Nota Adicional 1. A grafia dos termos em grego e latim não se encontra correcta, na medida em que não a consegui aqui reproduzir literalmente.

Nota Adicional 2. Rui Oliveira, na secção de comentários a este pequeno exercício arqueológico, produziu um breve texto onde preconiza a inutilidade da diferenciação entre os vocábulos história e estória. No quadro da sua argumentação em favor da indistinção entre os dois termos, Rui Oliveira apresenta algumas observações adicionais de interesse quanto à questão da sua sociogénese. Aqui as reproduzo: "Quanto às origens do inglês "story" e "history", são iguais às das línguas latinas, isto é, provêm ambas das mesmas palavras (grega e latina). Apenas acontece que "story" entrou no inglês através do chamado Anglo-French, em época medieval (sécs. XII-XIII), pela palavra "estorie" que no Middle English deu "storie" para acabar na actual "story". Por seu lado, "history" entrou mais tarde no inglês, pelo séc. XIV, através do Middle English "historie", vinda do Latim "historia". A natural evolução semântica que as palavras têm numa língua, levou-as aos significados actuais. De notar que a palavra grega "historia" queria significar "pesquisa,investigação"; Por sua vez "historia" deriva de "histor" que é aquele que sabe ou vê.".

Nota Adicional 3. Carla Hilário de Almeida (Bomba Inteligente) contribui, também na secção de comentários, com uma breve nota para o esclarecimento desta questão. De acordo com o que diz: "A palavra "estória" não está registada no dicionário da Academia das Ciências, facto que prova que é melhor do que se diz para aí. O dicionário de Cândido de Figueiredo tem a palavra registada como história em português antigo (whatever that means) e não lhe dá muita importância. Mas vamos lá ao que importa: história é composta de dois vocábulos - 'istos, que significa rede e roí, o verbo fluir em grego antigo - que juntos têm o bonito sentido de "uma rede que flui". À espécie de apóstrofo (') que vêem antes da palavra istos, chama-se espírito rude e trata-se do sinal de aspiração que transliterado para latim resultou num h. E o que é que estória tem a ver com isto? Nada." [ver texto original].